quarta-feira, 2 de março de 2011

Cisne Negro Cisne Branco Cisne


Quando o grotesco chega ao seu extremo ele se torna sublime, e vice e versa, diria Vitor Hugo com palavras mais belas do que estas. Essa lógica perpetuada pelo romancista romântico francês no prefácio para sua peça Cromwell se encaixa perfeitamente na impressão mais básica que temos ao assistir o filme Cisne Negro, de Darren Aronofsky. O filme é uma progressão de cenas belas e horríveis numa dinâmica que só pode ser bem representada mesmo como um balé. Uma dança magnânima de todos envolvidos no projeto para contar esta história de horror e beleza da forma mais sombria e bela ao mesmo tempo.

O uso de duplos adjetivos não é à toa. A própria trama é a clássica psicologia do duplo, o famigerado doppelgänger, que atormenta a pobre e ingênua bailarina Nina para fora dos limites de seu frágil corpo. Acontece que Nina necessita que esta sua contraparte mais sombria se manifeste para que ela possa atender aos desejos mais íntimos do obsessivo diretor da companhia de Balé (o fantástico poliglota Vincent Cassel) e se tornar a Rainha Cisne perfeita.

O balé O Lago dos Cisnes de Tchaikovsky é um ápice da musica romântica e permeia o filme todo com as variações e composições originais do companheiro de Aronofsky, Clint Mansell (o criador do famoso tema de Réquiem para um Sonho, imortalizado pelo quarteto Kronos e as dezenas de usos do tema contagiante), e a música, como não poderia deixar de ser, é um coadjuvante quase protagonista, mas esta tem seu ritmo próprio, mais sombrio que combina com a dualidade do filme.

Personagem dupla, compositores duplos, adjetivos duplos complementam é claro a duplicidade da abordagem do filme. Aronofsky é claro tem o seu estilo todo próprio de escrever e dirigir suas histórias, e em Cisne Negro não é diferente. Está lá a inclinação para a tragédia em cima de personagens que se levarão ao limite em troca do objetivo a alcançar, inclusive a autodestruição. Caso dos personagens de Réquiem para um Sonho e é claro, do Lutador, o The Ram, que para mim é um dos melhores finais de filme de todos os tempos. Essa tendência à tragédia típica de uma dramaticidade tão clássica que se encontra nos personagens do diretor, no entanto é tão individualmente modernizada que nós sabemos de imediato que estamos vendo um filme de Aronofsky.

E esta outra dualidade que é tão bem feita em Cisne Negro. Ela é catártica, clara e não deixa rastros pra dúvidas. O engraçado, e talvez o genial, disso tudo é que a temática do Grotesco/Sublime tão romântica e oitocentista contrastada à visão das câmeras tão introspectivas de Aronofsky que só podem ser pós-Freud, são tão diferentes entre si que combinam de forma clara como um copo dividido entre água e óleo. Dado à trama do filme a raison d’être do filme se completa perfeitamente.

E quem melhor para ajudá-lo nesta tarefa do que Natalie Portman cuja beleza é tão clássica, mas a fragilidade quase andrógina de seu corpo é tão moderna? A dedicação desta atriz se confunde com a de seu personagem a tal ponto que nós perguntamos quem é Natalie e quem é Nina, e de certa forma, por isso, Natalie leva o filme para si e o domina.

Cisne Negro é um filme estético, feito para provocar sensações, e isso é feito da melhor forma romântica. Poe se orgulharia. A película tem uma história simples, até de domínio público, a modernização é puramente circunstancial e o trama é facilmente previsível, mas o que conta é o produto final e é aí que o filme é bem sucedido. Cisne Negro é a realização material e catártica de toda temática Aronofskyana. É a estética dos closes psicológicos, das impecáveis atuações, da edição, da musica e é claro das imagens que nos levam como bonecos de vodu por toda a nossa tessitura sensorial.

Uma experiência altamente recomendável.

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