quarta-feira, 3 de agosto de 2011

I stopped swimming, learned to surf!







O Superchunk é uma das bandas mais antigas e mais clássicas do cenário underground americano. Criado no fim dos 80, o grupo teve alguns sucessos pelos 90, como Slack Motherfucker e Hyper Enough, seus maiores hits até hoje. Essas duas canções são bons exemplos do estilo da banda: Pegada rápida e melodias entrelaçadas nas letras prosaicamente belas. Ou como eu gosto de dizer: O som perfeito para pogar*.


Me lembro de me apaixonar pela banda gravando VHSs de episódios do finado Lado B, da MTV. Clipes de musicas como The First Part, Package Thief, Throwing Things, Watery Hands, Art Class, etc. fizeram grande parte da minha educação sentimental, garimpadas quase literalmente, pois na época a internet não era para todo mundo e para se ouvir músicas alternativas gravavamos estes programas com VHS e Cassetes, só para depois irmos na galeria do rock pedir para os atendentes tocarem bandas que você queria ouvir para decidir se comprava o disco ou não. Isso quando não era muito caro, obviamente.


De certa forma, por isso e outras coisas o Superchunk é uma banda muito importante para mim. Na verdade pra muita gente, pois, eles não só influenciaram muita gente como também são donos do selo Merge que lançou excelentes banda como, por exemplo o Arcade Fire (ca-ham nada fraco né?)

Dos discos lançados nos anos 90, o Superchunk tem três petardos: No Pocky for Kitty, de 91, On the Mouth, de 93 e Here's Where the Strings Come In, de 95 (três discos que aliás estão em promoção no site da Merge em seus formatos LP). Completam a discografia dessa primeira fase o homônimo de estreia de 90 e o Foolish de 94.


A partir do Indoor Living de 97, o grupo começou um processo de uma busca por uma sonoridade um tanto diferente, compondo músicas com um andamento mais lento, mais melodias e letras mais cabeças até. Esse processo passou pelo Come Pick me Up de 99 até culminar no Here's to Shutting Up de 2001.


Esse último de certa forma é um hibrido da pegada mais punk do começo da banda com as musicas com sonoridade mais recente que experimentava, resultando numa mistura interessante. Além do mais com um título desse (Esse é pra fechar, numa tradução meio tosca) há um bucolismo que nos fez pensar: Será que eles acabaram? Será uma despedida?


E aí o Superchunk sumiu. De 2001 a 2010 não lançaram mais discos.


Então foi dito que eles lançariam um disco novo em 2010, que se chamaria Majesty Shredding e sairia em setembro.


Eu fiquei ansioso. Como seria esse disco? Que sonoridade teria? O que será que lançariam depois de quase dez anos sem gravar?


Quase dez anos! E que tempo bom para se preparar um disco!

Majesty Shredding é simplesmente perfeito. Era inimaginável para mim que o Superchunk, uma banda com vinte anos de estrada, quase dez anos sem nenhum material novo pudesse aparecer com um disco novo com tanta energia de uma banda iniciante e beleza de veteranos experientes como só eles. Que disco lindo!


Eu sempre me perguntei, mesmo antes desse disco, por quê as bandas mais antigas não levavam mais tempos para lançar discos novos. Muitas delas lançam um atrás do outro, todos iguais e sem qualidade. Bandas ótimas continuam esse círculo vicioso sem a menor necessidade.


Mas isso é outro assunto, vamos ao disco:


Eu tomei a liberdade de dividir o disco em três partes que comentarei sobre:


PARTE 1 – O carro-chefe.


Uma boa parte de álbuns bons tem um bom carro-chefe, aquele conjunto de musicas boas que independente de qualquer direcionamento do disco na história ou na cabeça mesmo das pessoas são aquelas que ficarão, figurarão nos setlists vindouros se tornando clássicos instantâneos. É o caso das quatro primeiras musicas.


Faixa 1 – Digging for Something – Musica que se auto explica. Um rock poderoso com um belo riff e letra e melodia cativante. Só poderia ser a faixa 1 anunciando o que podemos esperar do álbum. They were digging for something*2!


Faixa 2 – My Gap Feels Weird – Continua na mesma levada, até acelerando um pouco. Uma letra genial sobre ficar velho, com versos ótimos sobre a juventude (there's not enough eyeliner in this world, not for the sadness of you boys and girls!*3)


Faixa 3 – Rosemarie – Primeira balada, mas com uma batida pra frente, tem uma das melodias mais belas do disco. O refrão da musica com certeza é o primeiro que gruda na sua cabeça te fazendo cantar o dia inteiro.


Faixa 4 – Crossed Wires. Para mim a musica que mais traduz o Superchunk no começo da carreira. Energética, rápida com uma letra nervosa é uma canção poderosa que fecha a primeira parte do disco que só teve petardos até agora. O clipe de Crossed Wires é genial e mostra algo que todo mundo já quis fazer um dia, tenho certeza .


PARTE 2 – O Acidentado.


Curiosamente esse disco fala muito sobre a passagem do tempo e sobre, digamos assim, acidentes. Nesta parte pelo menos duas canções falam sobre fraturas ou camas de hospitais. As outras duas falam sobre mudanças do tempo e lições sobre isso.


Faixa 5 – Slow Drip – Uma letra divertida, com um refrão cativante que explora o falsete característico de Mac Maccaughan, batida pra frente no mesmo ritmo das primeiras canções, mas iniciando esse segundo grupo de canções mais cadenciadas, mas nem tanto.


Faixa 6 – Fractures and Plasters – Boa canção de melodia, a letra reforça essa imagem de quebrado que Mac explora nas últimas duas canções.


Faixa 7 – Learned to Surf – Para mim esta é a melhor canção do álbum. Poderoso, com um riff matador e uma letra que traduz o que é o Majesty Shredding. Na verdade isso é mais que visível no verso I stopped swimming and learned to surf*4 (façam as contas com a historinha que contei!). O clipe ainda possui imagens do show no Brasil. Épica.


Faixa 8 – Winter Games – Bela canção, quase balada mais uma vez. Uma das melhores letras do disco. A melodia se enrosca na guitarra ritmada e na batida pra frente.



PARTE 3 – A Resposta


Essa terceira parte tem três canções apenas e, para mim, cada uma das três representa uma fase do Superchunk ao mesmo tempo que todas tem a cara nova da banda. A primeira a fase começo dos 90, a segunda fim dos 90 e a terceira, com uma sonoridade nova para a banda o futuro.


Faixa 9 – Rope Light – A terceira e última parte do disco começa com uma musica pop e rápida. A mais rápida do disco e a mais energética.


Faixa 10 – Hot Tubes – Música sing-along, muito melódica, que continua este padrão de refrões grudantes. Uma ótima preparação para o grande finale.


Faixa 11 – Everything at Once – Ótima musica para acabar. Eterea, cheia de feeds e uma letra que traz uma filosofia que traduz a banda nesse momento. Os solos longos levando o disco para um fade in majestoso e bucólico que não diz nada e tudo ao mesmo tempo. Ao futuro!





*1 Pogar – Conjugação do termo Pogo, em inglês, que significa pular (lembra do pogo ball, então?). É o que os ouvintes de um show fazem quando estão animados pelas canções. Alguns pogos são também as famosas “rodinhas”.


*2 They were digging for something – Eles procuravam algo (o termo digging for como gíria pode ser entendido como fuçando mesmo, cavocando pra achar algo)


*3 There's not enough eyeliner in this world, not for the sadness of you boys and girls – Literalmente: Não existe delineador o suficiente nesse mundo, não para a tristeza de vocês garotos e garotas. (dispensa comentários, certo?)


*4 I stopped swimming and learned to surf – Literalmente: Parei de nadar e comecei a surfar!

Um comentário:

  1. nice one!

    Sempre me perguntei de onde veio esse tema hospital e fraturas, imagino que seja por conta do Hockey, que o Mac é meio viciado. (e deduzo que o disco também tenha sido gravado na época dos Jogos de Inverno)

    :)

    ResponderExcluir