quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Som e [Cor(vo)] Fúria




Existe uma coisa em literatura que eu gosto de associar com musica: o timbre. Ele serve de metáfora para estilo, mas vai além. Assim como o timbre de um grupo musical não é afinação (aliás é possível um grupo ser timbrado e desafinado ao mesmo tempo), o “timbre” literário a que me refiro tem muito mais a ver com um sonoridade que mantém uma coesão com um grupo de escritores.

Que fique claro que, estar timbrado com outros autores, não significa não possuir sua própria voz, mas apenas harmonizar, ressoando mesmo (quem está familiarizado com teoria dos harmônicos entende que se uma nota musical entra em contato com a possibilidade de ressoar outras notas do mesmo campo harmônico ocorre um efeito belo, metafísico) com outros autores essa música bonita chamada Literatura.

Quem acompanha a tal, aquela com L maiúsculo, sabe que a literatura americana tem sido a privilegiada com uma cena coesa e harmonizada, digamos, para continuar no campo semântico/harmônico. Escritores como Foer, Franzen, Foster Wallace, Sedaris, Krauss, o mais velho Auster, se destacam por estarem fazendo uma literatura de peso que ressoa tudo o que já foi feito com uma linguagem nova, com um feeling novo. Uma literatura em que o social está presente, como sempre esteve, mas que se preocupa com questões midiáticas de leitura e do leitor, refletindo como nunca sobre literatura, fazendo assim a sua meta ficção, com a linguagem do século XXI.

Além disso é ótima, na minha opinião, por quê é literatura de feeling. De arrepiar, muitas vezes. Eu gosto desse gosto frenético na boca. Deve ser essa linearidade manca que eu tenho sendo um jovem no século XXI, mas vá lá. Isso um dia se explica.

Isso tudo para falar do Azul Corvo, romance de Adriana Lisboa de 2010, que concorreu ao prêmio São Paulo de literatura. Para mim, junto com Como Desaparecer Completamente do André de Leones, o melhor romance brasileiro daquele ano. A história é narrada por Vanja, uma garota que acaba de perder a mãe no Brasil e volta aos EUA, lugar onde nasceu, para morar com o pai de certidão, um outro brasileiro chamado Fernando, que a ajudará a encontrar seu pai verdadeiro, o americano Daniel. A partir daí, Vanja narrará como entrou em contanto com os destroços de todos os personagens envolvidos, e seus próprios, que dão sentido para sua existência, seja ele qual for.

É uma história simples, antiga, mas por isso mesmo, contada de forma bela. Essa temática da busca pelo ancestral, pelo pai, sempre apresentada pela figura masculina de certa forma aparece representada pela feminilidade da narradora. E isso dá um charme especial e particular. Até por que a procura de Vanja pode se entender como algo além de uma identidade pessoal, mas uma identidade local, pátria. Interessante é pensar como o oximoro pátria-mãe se traduz particularmente nesse jogo de feminilidade em meio ao mundo masculino que restou para Vanja. O mais interessante, talvez seja a associação da amalgama dois dois no elemento comum que Vanja estabelece entre suas duas pátrias: A cor, mais especificamente O azul-corvo das conchas do Rio, ou os corvos azul-concha do Colorado

Talvez por essas características, de começo, me lembrei do Oskar Schell de Extremamente Alto Increvelmente Perto, mas Vanja é mais adulta e o que ela fala é mais cortante (talvez pela proximidade), mesmo que doa tanto quanto. E a linguagem está ali, essa elevação do prosaico na linguagem que compõe o cerne da literatura está ali, porém com a característica moderna de elevar o prosaico pela linguagem prosaica que se revela especial. Adília Lopes, poeta portuguesa, consegue fazer isso com maestria e assim como o Foer, como o Franzen, Adriana transgride esse limite da linguagem prosaica elevando-a numa beleza fantástica.

Talvez por isso, por quê ela ressoou estes autores americanos de que gosto tanto (especialmente o Foer) o romance de Lisboa me conquistou de cara. Não qé ue ela esteja tentando ser igual a uma literatura americana, até por que não acredito que os escritores de lá estejam querendo fazer uma, mas sim por que os ecos de algo muito bom que li ressoando naquele romance tão belo que tinha a minha frente.

É bem mais simples. De certa forma, essa harmonização para mim é musica, e isso só faz ganhar a literatura. Ler Azul-Corvo é passear por uma sinfonia literária. Talvez, também, por que Adriana também tenha sido musicista (embora nunca tenha a visto nessa função), mas sua literatura é assim: musical.
O livro é delicado pela sua singeleza no sentimento, mas ao mesmo tempo é ríspido cruel e gruda nas nossas cabeças como uma bala alojada. A literatura transgride o ambiente emocional e familiar de uma história particular, tocante pela sua beleza e está lá para relembrar. Adriana se prova mestre nisso. Ela assim se aproxima das cenas mais cruéis e dos assuntos mais terríveis com naturalidade e sutileza, elevando-os a uma beleza, conferindo-lhes mais uma vez (pois estes não podem ser esquecidos) importância.

Já faz muito tempo, um velho bardo disse algumas palavras sobre a vida, chamando ela de som e fúria. Eu como musico sofrível e protótipo de escriba penso que o casamento nas texturas, cores e sons som da música com a fúria da linguagem é uma coisa linda, como o som de harmônicos leves numa manhã de domingo em que o sol faz cócegas nos olhos.

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