segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Uma reflexão de Philip K.Dick


Numa realidade alternativa onde o Japão e a Alemanha foram os vencedores da Segunda Guerra, Philip K.Dick, ambienta com muita ironia seu romance The Man in the High Castle. Separei essa citação, de uma cena onde um homem de negócios sueco, ao ser iterpelado por um “artista moderno” alemão, reflete sobre os tempos que vive e seu “parentesco racial” com o homem. Em tempos de neo-fascismo exarcebado, seria bom a gente lembrar dessas palavras.


O original:


I hope we will see one another later on in San Francisco,' Lotze said as the rocket touched the ground. 'I will be at loose ends without a countryman to talk to.'

'I'm not a countryman of yours,' Baynes said.

'Oh, yes; that's so. But racially, you're quite close. For all intents and purposes the same.' Lotze began to stir around in his seat, getting ready to unfasten the elaborate belts.

Am I racially kin to this man? Baynes wondered. So closely so that for all intents and purposes itis the same? Then it is in me, too, the psychotic streak. A psychotic world we live in. The madmen are in power. How long have we known this? Faced this? And — how many of us do know it? Not Lotze. Perhaps if you know you are insane then you are not insane. Or. you are becoming sane, finally. Waking up. I suppose only a few are aware of all this. Isolated persons here and there. But the broad masses . . . what do they think? All these hundreds of thousands in this city, here. Do they imagine that they live in a sane world? Or do they guess, glimpse, the truth . . . ?

But, he thought, what does it mean, insane? A legal definition. What do I mean? I feel it, see it, but what is it?

He thought, It is something they do, something they are. It is -their unconsciousness. Their lack of knowledge about others. Their not being aware of what they do to others, the destruction they have caused and are causing. No, he thought. That isn't it, I don't know; I sense it, intuit it. But — they are purposely cruel . . . is that it? No. God, he thought. I can't find it, make it clear. Do they ignore parts of reality? Yes. But it is more. It is their plans. Yes, their plans. The conquering of the planets. Something frenzied and demented, as was their conquering of Africa, and before that, Europe and Asia.

Their view; it is cosmic. Not of a man here, a child there, but air abstraction: race, land. Volk. Land. Blut. Ehre. Not of honorable men but of Ehre itself, honor; the abstract is real, the actual is invisible to them. Die Güte, but not good, this good man. It is their sense of space and time. They see through the here, the now, into the vast black deep beyond, the unchanging. And that is fatal to life. Because eventually there will be no life; there was once only the dust particles in space, the hot hydrogen gases, nothing more, and it will come again. This is an interval, ein Augenblick. The cosmic process is hurrying on, crushing life back into the granite and methane; the wheel turns for all life. It is all temporary. And they — these madmen — respond to the granite, the dust, the longing of the inanimate; they want to aid Natur. And, he thought, I know why. They want to be the agents, not the victims, of history. They identify with God's power and believe they are godlike. That is their basic madness. They are overcome by some archetype; their egos have expanded psychotically so that they cannot tell where they begin and the godhead leaves off. It is not hubris, not pride; it is inflation of the ego to its ultimate — confusion between him who worships and that which is worshiped. Man has not eaten

God; God has eaten man.

What they do not comprehend is man's helplessness. I am weak, small, of no consequence to the

universe. It does not notice me; I live on unseen. But why is that bad? Isn't it better that way?

Whom the gods notice they destroy. Be small . . . and you will escape the jealousy of the great.

As he unfastened his own belt, Baynes said, 'Mr. Lotze, I have never told anyone this. I am a

Jew. Do you understand?'

Lotze stared at him piteously.

'You would not have known,' Baynes said, 'because I do not in any physical way appear Jewish; I

have had my nose altered, my large greasy pores made smaller, my skin chemically lightened, tife

shape of my skull changed. In short, physically I cannot be detected. I can and have often walked in

the highest circles of Nazi society. No one will ever discover me. And-' He pause



A tradução:

— Espero que nos encontremos depois em São Francisco — disse Lotze, enquanto o foguete tocava o chão. — Ficarei perdido sem um conterrâneo com quem conversar.

— Não sou conterrâneo seu — disse Baynes.

— Ah, sim, é verdade. Mas, racialmente, está muito próximo. Para todos os efeitos, dá na mesma.

Lotze começou a agitar-se na poltrona, preparando-se para desamarrar os complicados cinturões.

Estou racialmente próximo deste homem? — perguntou-se Baynes. Tão próximo que, para todos os efeitos, dá na mesma? Então também possuo o traço psicótico. O mundo psicótico em que vivemos. Os loucos estão no poder. Há quanto tempo sabemos disto? Encaramos isto? E... quantos de nós sabem? Lotze não. Talvez se a gente souber que é louco então não esteja louco. Ou está, finalmente, deixando de ser. Acordando. Suponho que apenas poucos tenham consciência disto. Pessoas isoladas, aqui e ali. Mas as grandes massas... o que pensam? As centenas de milhares de pessoas aqui nesta cidade. Será que imaginam que vivem num mundo são? Ou adivinham, entrevêem, a verdade...?

Mas, pensou, o que significa louco? Uma definição legal. O que quero dizer com isso? Eu sinto, vejo, mas o que é?

É alguma coisa que eles fazem, alguma coisa que são. É seu inconsciente. Sua falta de conhecimento dos outros. Não sabem o que fazem aos outros, desconhecem a destruição que causaram e estão causando. Não, pensou. Não é isso. Eu não sei; sinto, tenho a intuição. Mas... são deliberadamente cruéis... é isso? Não. Meu Deus, pensou. Não consigo encontrar, esclarecer. Será que ignoram partes da realidade? Sim. Mas é mais do que isso. São seus planos. Sim, seus planos. A conquista dos planetas. Algo frenético, demento, como a conquista da África e, antes disso, Europa e Ásia.

Sua visão: é cósmica. Não um homem aqui, uma criança ali, mas uma abstração: i-aça, terra. Volk. Land. Blut. Ehre. Não homens honrados, mas Ehre em si, honra: o abstrato é real, o real c invisível para eles. Die Güte, mas não homens bons, este homem bom. É seu sentido de espaço e tempo. Enxergam além do aqui, do agora, no vasto, negro e profundo além, o imutável. E isto é fatal à vida. Porque conseqüentemente não haverá mais vida; houve um dia em que o espaço era só partículas de poeira, gases quentes de hidrogênio, mais nada e será assim outra vez. Isto é um intervalo, ein Augenblick. O processo cósmico está se acelerando, fazendo a vida retroceder ao granito e ao metano; a roda gira para toda vida. Tudo é temporário. E estes — estes loucos — obedecem ao granito, ao pó, ao apelo do inanimado; querem auxiliar a Natur.

E, pensou, eu sei por quê. Querem ser os motores da história, não as vítimas. Identificam-se com o poder de Deus e acreditam-se a sua imagem. É esta sua loucura básica. Foram dominados por algum arquétipo; seus egos expandiram-se psicòticamente ao ponto de não saberem onde eles começam e onde pára a essência divina. Não é orgulho; é uma hipertrofia do ego levado ao seu máximo — confusão entre quem adora e quem é adorado. O homem não devorou Deus; Deus devorou o homem. O que não compreendem é a fragilidade do homem. Eu sou fraco, pequeno, sem a menor importância diante do universo. Não sou notado dentro dele; vivo sem ser visto. Mas por que isto é mau? Não é melhor assim? Quem chama a atenção dos deuses é destruído. Seja pequeno... e escape à inveja dos grandes.

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