terça-feira, 29 de novembro de 2011

Elogio do Perdedor


Now you wish you weighed a thousand pounds
So you could crush all those bullies and demons down
From your seat at the back of the bus
You're still waving back at us

Você gostaria de pesar uns mil quilos agora

Só pra poder esmagar aqueles valentões e demônios

Do teu banco atrás do ônibus

Você ainda acena para nós



Essa canção do álbum Come Pick Me Up, de 1998 do Superchunk, começa com uma das frases mais emblemáticas que um loser que cresceu nos anos 90 pode querer: Você finalmente puxou de volta quando o mundo puxou teu cabelo.

Loser.

Era o que eu realmente era naquela época, na metade de 1999, com os meus 14 anos e toda a esquisitice que alguém de 14 anos pode ter. Ser loser era aquilo: um garoto magrelo que ouvia Nirvana o dia inteiro (e acreditava que o Kurt ainda era vivo!), que não cabia em nenhuma das suas roupas (moda era algo incompatível comigo), que era inteligente demais para ser legal(aprendi inglês mais ou menos ali e entendia as letras do Cobain mais que todo mundo e menos do que entendo agora), era sensível demais para chorar pela garota que era apaixonado (quando disse eu te amo e saiu correndo pra chorar no ombro do melhor amigo!), que desesperadamente tentava aprender a tocar guitarra para impressionar garotas (por que era o que o mundo pedia), que nunca tinha beijado ninguém (nem ia até um ano e meio depois, aos dezesseis, todo enlameado no show da mix, uma garota seis anos mais velha), e simplesmente existir como pessoa deslocada, tímida que nem o inferno e inocente o suficiente pra sofrer por isso.

Hoje eu não sei muito bem o que é ser loser. Me parece que isso virou uma espécie de estilo estético de viver. Uma espécie de escolha da moda onde você é chamado de algo tão cool como hipster (se é que eu entendi direito o que é hipster). Mas quando eu era loser, tudo o que eu não queria ser era loser. Não é a questão de me aceitar como eu era, mas de que o mundo não fosse tão cruel. A equação era simples: eu amava todo mundo e queria que o mundo me amasse de volta.

Loser.

Foi então que algum tipo de, sei lá, salvação? Redenção? Chame do que quiser, começou a acontecer. Lá no fim do século passado eu ouvi algumas bandas. Essas bandas tinham letras como “Na garagem me sinto seguro, ninguém liga pras minhas manias”, “Olá falcão, venha me buscar”(onde eu realmente imaginava um falcão vindo me buscar), “Eu tenho pele de buldogue”, “Tive um ataque(paixão) nada funciona, mas eu tenho fé, não é suficiente, nem mesmo fale” “Tão bêbado no sol de agosto, e o você é o tipo de garota que eu gosto, por que você é vazia, e eu sou vazio, e nunca poderemos fazer uma quarentena com o passado” e essa 1000 Pounds que dizia com otimismo no refrão: “Quando ninguém esperava você sobreviveu”.

Entre estas musicas e algumas pessoas que iam aparecendo pelo caminho com gostos similares eu fui sobrevivendo. Mesmo quando ninguém esperava. Entre os VHS e K7s que eu gravava afoito, idas à Galeria do Rock para solicitar audições de Cds de bandas obscuras com a finalidade (ou não) da compra, cabelo comprido, cabelo curto, entrada tardia no mundo da internet e das MP3 (lá por 2005), uma incursão pelo mundo da música erudita (ainda sinto saudades do meu cello), uma depressão fudida, amigos, finalmente sexo, passeios por vários mundos, uma nova personalidade, saída da depressão, finalmente faculdade (Letras e aos 23), 5 anos de namoro, a vontade de escrever, a eterna coceira da música em mim (eu ainda não toco guitarra direito e nem impressiono as garotas), alguns poemas e contos, um romance no forno, quem sabe mais um fim do mundo ano que vem, eu sobrevivi.

Então abra a porta, sou um perdedor bebê, então por quê você não me mata?

Em 2010, o Superchunk lançou um disco novo. Eles não lançavam um disco desde 2001. Essa década, que também foi a década em que eu amadureci, foi a década em que essa banda tão querida para mim cresceu e se tornou vintage. Assim como eu ela sobreviveu, e o que tem a dizer hoje, talvez seja o melhor. O disco, Majesty Shredding, é genial, e eu, como a banda acompanho as letras. Agora eu canto:

“When I learned to walk, you know humans roamed the Earth, I can't hold my breath anymore, I stopped swimming and learned to surf. When I learned to talk I found words that wouldn't worth dirt, heavy like the rocks we carry I stopped swimming and learned to surf!”

“Quando aprendi a andar, você sabe que os humanos vagavam pela Terra, eu não posso segurar o fôlego mais, parei de nadar e aprendi a surfar. Quando aprendi a falar, encontrei palavras que não valiam bosta nenhuma, pesadas como as rochas que carregamos, parei de nadar e aprendi a surfar!”


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