segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Frank Miller ou Bonitinho, mas Ordinário.




Recentemente a voz de Frank Miller me chegou por dois caminhos. Uma delas, a bem legal, foi a capa que o Miller fez para o Gravity's Raibow do Thomas Pynchon que é genial. A outra foi nas declarações infelizes (não exatamente pela opinião, mas pela forma baixa que as fez) sobre o Ocuppy Wallstreet. Antes disso ouvi que andava fazendo filmes. O último que vi foi a adaptação de Sin City.

tirinha de Ty Templeton sobre o incidente "Miller"

Pra quem não conhece, Frank Miller é um deus dos quadrinhos. Autor das famigeradas séries 300, Sin City e Batman: O Cavaleiro das Trevas, Frank fez seu nome com histórias cruas, tensas, conteúdo violento para adultos aliadas à um traço único e um belo uso de cores.

Expressivo.

Quando vi a capa que fez para o Gravity's Rainbow, que é uma delícia de livro, eu me apaixonei pela edição. Acontece que quase ao mesmo tempo li sobre suas declarações e isso me pôs a pensar: Os babacas também são geniais.

Frank faz parte do grupo de artistas geniais que tem um certo extremismo nas suas opiniões que realmente incomoda as pessoas. Me lembrei de casos clássicos como a de Celine que é odiado na França até hoje por ser um fascista inveterado, ou de Borges que é execrado por seus conterrâneos por causa da sua falta de oposição à ditadura e pela famigerada fotinha junto à Pinochet.

Porém, por mais que se negue, a genialidade destes é genuína.

Podemos pensar que o tempo e, no caso dos dois acima, a localização geográfica podem enterrar esses aspectos mais obscuros de cada escritor. Um exemplo disso é Conrad que sempre foi um conservador radical, muitas vezes extremista e preconceituoso, e que mesmo que ainda tenha seus odiadores é reconhecido com unanimidade pela sua importância para a literatura. Afinal, como todos sabemos, em análise literária a biografia é importante apenas quando isso se reflete na ideia geral de um texto. Em Conrad a camada conservadora é apenas superficial e irrelevante enquanto a estética é revolucionária. A temática de suas histórias são abordadas com agudeza e universalidade não no sentido integrador, mas no sentido explosivo, revolucionário, onde a ideologia, de certa forma, pouco importa.

Não quero dar a Frank Miller a importância de um Borges ou um Conrad (talvez ele tenha a importância de um Celine, talvez), mas o fato é que o quadrinista revolucionou os quadrinhos. Não há quem não tenha se influenciado por seus traços secos e duros e a quase monocromática variação de cores que embelezaram o mundo das HQs elevando-as a outro nível. Assim como Conrad, a estética de Miller é revolucionária. Não como Conrad, as histórias em si carecem de mais profundidade, sendo aquela repetição clássica do anti-herói em meio a um universo ultra-violence onde a ação justiceira de alguns é providencial, necessária. Nos anos 80, esse tipo de visão era palpável, o mundo era outro. Hoje não mais. Conrad tocava em feridas que não eram superficiais, Miller não. Não é à toa que ele viva hoje de requentar seu passado. As declarações que fez não passam de um reflexo do homem cansado que se perdeu em algum lugar dos anos 80 onde pode ser Batman.

No entanto, suas obras-primas são necessárias. A estética ali envolvida ali é genial. Miller não teve a mesma compreensão que um Alan Moore, por exemplo, teve, e é por isso que Watchmen tem muito mais complexidade (vide demora e qualidade da adaptação cinematográfica) que Sin City e é reconhecido por isso. Ainda que o diretor Zack Snyder abuse da estética que ele desenvolveu a partir de Miller no próprio filme adaptado da obra de Moore.

Ou melhor dizendo: ali está a genialidade de Frank Miller. Imaginem como seriam 300 ou Watchmen sem o traço característico? Não seriam.

Frank Miller também abriu as portas para as Graphic Novels adultas no cinema. Mesmo que viva de produções baratas e repetições de fórmula.

Não. Não desprezarei Miller por sua infâmia. Fato disso é ficar admirando a capa de Gravity's Rainbow sem parar.

Frank Miller pode ser um babaca alucinado, mas quem disse que babacas alucinados não tem talento?

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