quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Os Inquietos


Welcome to art class, and yes it does involve shaking your ass”

Superchunk – Art Class



Sábado à tarde, Augusta, depois de uma bruta chuva de verão, a memória:


André: O Van Sant soube aproveitar os clichês.


Daniel: Até as musiquinhas.


André: Filme é bonito.


Eu: Se eu tivesse 16 anos esse filme seria o filme da minha vida.


E de repente deu vontade de ter 16 anos de novo.

Os Inquietos é aquele tipo de filme onde a jovialidade requer todo o tipo de clichê bem encaixado. A temática e principalmente o desenho dos personagens envolvidos são elegantemente e com um tom comicamente belo apresentados a nós. É o tipo de filme que gera camisetas e todo o tipo de memorabília cult.

Nos meus 16 anos os filmes que eu vi foram: Trainspotting, Cova Rasa, Corra, Lola Corra, Réquiem para um Sonho, Seven, Clube da Luta, Boogie Nights, Magnolia, Quero Ser John Malkovich, Psicopata Americano, Amnésia, Fargo, O Grande Lebowski. , etc.Todos grandes filmes, mas todos digamos, bem macho. Talvez possamos dizer que Amelie Poulin, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e Por uma Vida Menos Ordinária se aproximam mais com o tom do filme do Sant. Eu gosto muito destes filmes, mas talvez nenhum destes seja tão icônico como Inquietos. Talvez Brilho Eterno, mas daí as temáticas se diferenciam bastante e, os adolescentes d'Os Inquietos seriam muito mais próximos a mim do que o casal do filme do Gondry.

Funciona assim, é uma questão de educação sentimental: A adolescência é algo bizarro, cheio de certezas arbitrárias e incertezas massacrantes. O mundo não é legal. Para mim, tanto a música quanto a literatura, e nessa época principalmente os filmes eram uma questão de afirmação. Assistir Clube da Luta e realmente entender era algo que me definia como alguém diferente de toda aquela babaquice adolescente. Ter a sensibilidade de entender os melindres do casal Kaufmaniano era saber que o amor era algo importante, muito mais importante que a explosão dos corpos no embate cotidiano da anulação da mente que foi crescer no fim dos 90. A mente, a memória, a loucura versus a paralisia, o embasbacamento, a vida ordinária.

O filme de Sant recupera isso. Ele magistralmente entrelaça a vida e o viver de verdade na morte imediata, dura. Vita Brevis. Com certeza eu me identificaria com Annabelle. Tentaria me vestir como Enoch. Até que eu crescesse finalmente e mantivesse a memória afetiva deste tempo.

Não quero dizer que minha filmografia básica dos dezesseis anos, a minha Lira, pra continuar no campo semântico do romantismo adolescente, seja vazia de heróis. Não. Na verdade ela está repleta de anti-heróis e paspalhos, os losers que combinam muito mais comigo. Essa é minha educação sentimental. O que quero dizer é que a dureza da época em que cresci se refletiu no meu canôn cinematográfico e, ali, um Enoch & Annabelle caberiam muito bem para suavizar com um romantismo desiludido e agradável, a aspereza da década de 90. Talvez um advento Truffautiano para adoçar um pouco a vida.

Fato é que Os Inquietos me deu um bucolismo gostoso, uma saudade de algo que eu não tenho saudade a não ser pelas pequenas coisas que foram construindo quem sou, como minha coleção de personagens icônicos e de cenas insólitas. Como minha imaginação acelerada pelo ritmo frenético das luzes.

Queria ter 16 anos de novo para que Os Inquietos entrassem no meu time, na minha gangue, no meu clubinho seleto de mim mesmo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário