terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Um Mestre na Periferia dos “Ismos”




É aquela velha história: relatos de pessoas que viveram situações terríveis, holocaustos e tragédias são sempre mais, como dizer, palpáveis. Com Guillermo Rosales é a mesma coisa. Mesmo que A Casa dos Naufrágos (Cia. Das Letras, 2011), não seja exatamente um relato e mais uma narrativa (muito) baseada em experiências do autor.

Então vamos à matemática, Guillermo é: Cubano; foi integrante do PC; é esquizofrênico; frequentou as terríveis boarding houses americanas cuidadas por cubanos dissidentes; Guillermo se suicidou num ato desesperado, praticamente destruindo toda a sua obra.

O processo, como se vê, é sintomático, mas nunca (e isso transparece em sua prosa) frio ou ressentido, ou pior: arrependido.

O que temos é um indivíduo no extremo máximo de sua individualidade que é a repartição do ser, a esquizofrenia, incapaz de se adequar a qualquer sistema social que lhe é dado como opção. A questão vai além da ideologia. O protagonista do pequeno romance não tem muitos horizontes. Ele não está em Cuba, mas ao mesmo tempo ele está numa pequena ilha rodeada pelo capitalismo de Miami. E ele não quer sair na rua por que a rua é sempre pior. Essa não é uma opção. É um indivíduo sem rumo perdido na periferia de dois “ismos”.

Deslocadas, as pouco mais de cem páginas do romance estão repletas de um lirismo doloroso, mas sincero. É um corte rápido como um corte na jugular. Certeiro, Rosales nos apresenta o pior dos dois mundos.

Obsceno.

O engraçado que é tão atual que chega a doer.


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