sexta-feira, 23 de março de 2012

Dislexia Política: A Terra de Ninguém.

Está aí para todo mundo ver: mais um ataque de intolerância, mais uma reação de um governo que culminou na morte do terrorista. Sim, você leu bem: mais uma. Rápida, limpa e eficiente, foi uma execução asséptica quase. Longe dos olhos públicos, mas perto do coração selvagem da retaliação.

Há um ano mais ou menos, uma operação americana dava cabo de Osama Bin Laden de um forma bem parecida à dos padrinhos espirituais franceses com o rapaz de nome curiosamente árabe. E a palavra que nos vem à cabeça é eficiência.

Nove anos antes de sua morte, Osama inaugurava os novos tempos com a destruição sanguinária dos baluartes do velho capitalismo como se comemorasse um gol com o psiu para a torcida adversária cheia de Fukuyamas. Com isso e com a execução, não tão limpa e velada, de Sadam Hussein, quatro anos depois da ação no Iraque e dois depois de sua reeleição, Bush salvou-se do impeachment que lhe era de direito. Seu sucessor provavelmente se reelegerá em cima da captura do demônio mitológico inventado por W., cuja linha política Obama (quase escrevo Osama, só pra constar) criticou duramente para se eleger em 2008.

Curiosamente, Osama foi treinado, equipado e comissionado por presidentes americanos, começando curiosamente pelo democrata Jimmy Carter, que curiosamente ganhou um Nobel da Paz como curiosamente também o fez Barack Hussein Osama, digo Obama, e terminou no governo do republicano Bush Pai, que não conseguiu pegar o Sadam, que também é Hussein, deixando a tarefa para o Junior que inventou Obama, digo Osama, perdoem minha dislexia por favor.

Troca-letras à parte, a mesma França que doou a Estátua da Liberdade para os EUA agora tem um presidente que quer brincar de se reeleger também e algo me diz que a execução asséptica de Mohammed Merah o ajudará assim como Osama o fez com Júnior e provavelmente o fará com Mr. B.

O modelo bipartidarista americano parece ter influenciado o mundo que se bipartidariza entre terroristas (leia comunistas orientais e árabes fundamentalistas) e presidentes americanos (leia modelos de oportunismos políticos) influenciando a “política” internacional. Maniqueísmos à parte, ninguém é santo, e o que espanta de verdade é essa “reformação” do mundo numa hegemonização do simplismo do eixo bem e do mal. Não faz tempo eu vi a Ana Maria Braga citar descontextualizadamente Nietzsche e dizer em TV aberta que ele já não cabia, estava errado. A frase era: "Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal." . Com a ajuda de seu orientando Louro José, Ana Maria Braga discordou e disse que não, que tem gente que mata por amor e portanto Nietzsche estava errado, ou pelo menos errado para o nosso tempo. “Os tempos são outros”, afirmou.

Os tempos são outros. O que a nossa querida filó (te cuida Chauí!) nos disse é que simplesmente não se entende mais a analítica envolta em toda essa afirmação. Ao afirmar que existe o mal no que se faz por amor, a apresentadora simplesmente não entendeu a complexidade de raciocinar o amor como pathos e todas as implicações que daí vem. O moralismo comprado e o simplismo reflete então o sinal dos tempos.

Ah o sinal dos tempos...

No Brasil, uma notícia deu paz a alguns internautas como eu contando que dois possíveis terroristas foram presos por suas ameaças de intolerância. Assim como Mohamed Merah, os dois planejavam ataques que não levaram a cabo. Apenas depois de quase 70,000 denúncias do site onde propagavam suas mensagens de ódio os dois foram presos. Demorou, mas aconteceu. Felizmente antes que algo mais grave tivesse acontecido. No entanto, fica a pergunta: por que é que esse neo nazismo contagiou-se de forma tão contundente pela internet? Será que o discurso, esse esvaziamento total de significado do excesso de informação pela rede, por essa própria característica, se vê tomado por uma racionalidade extrema, que é tão asséptica quanto às ações governamentais mencionadas acima, distante do corpo, mas é curiosamente tão simplista atrai por sua promessa de explicação fácil do mundo?

Não é fácil entender a diferença. Não é fácil pensar. Pensar é complexo e exige ponderação e principalmente entendimento. A globalização traz a identidade, mas também traz a diferença, então quando o mundo ganha comunicabilidade, a periferia vai gritar na cara de todo mundo que existe e isso incomoda o sistema estruturalmente fechado, encalacrado num preconceito com o que é diferente, um medo latente de não ser tão importante. O que não somos mesmo.

Ora, a heterogeneidade é importante num sistema capitalista quando ela é mercadoria e gera lucro, portanto, o embate movimentador dos choques culturais é importante num mundo globalizado, mas a essencialidade da identidade diferente não interessa a quem necessita de um estilo de vida padronizado para poder propagar o consumo como preceito moral. Então a homogeneidade de uma cultura é importante para os conservadores que querem, antes de tudo, estar no poder. A possibilidade de um mundo plural não é apenas não lucrativo (e o conservador honesto é aquele que admite isso como seu propósito verdadeiro), mas também indesejada. É necessário que o modelo da família enlatada perdure para que o sistema de lucros continue. O problema é que nem todo mundo é frio e calculista. Quando você biparte o mundo entre os mocinhos e os bandidos você força o mundo a vendar-se contra a realidade gritante, fazendo aparecer sujeitos que optam pela saída mais simples que geralmente é a mais cruel. Vide o caso do rapaz negro morto por ser “suspeito” e seu assassino que é defendido por uma lei que garante a liberdade de quem mata, a tal lei “Stand your Ground” no estado da Flórida nos EUA.

No entanto, a homogeneidade de massas é maior quando há o tom asséptico de tudo. O oportunismo governamental em cima dos terroristas é lucrativo nas eleições, portanto desbipolarizar o mundo não é válido para eles.

O mundo que tínhamos na Guerra Fria era assustadoramente físico. Há uma frase de Canetti que define a massa como um sujeito, um pretume de gente, nem todos sabendo exatamente o motivo daquilo, mas que em segundos se reúne num pretume de gente. Ora, essa massa Canettiana tem seu valor político. A chamada Voz do Povo, no entanto, também pode ser controlada. De um lado temos os muçulmanos queimando bandeiras norte-americanas, de um outro uma massa de pessoas querendo impedir que uma mesquita seja aberta em frente às ruínas do WTC. Ambos cegos não percebem que essa briga favorece os líderes que mais habilmente conseguirem manipular os meandres do Será que?.

No entanto essa massa hoje não é física, e portanto, de alguma forma um pouco mais assustadora. É aquela velha história das guerras, uma coisa é quando a morte entra no imaginário das pessoas que viram colegas e inimigos (que no fundo, quando confrontados cara a cara, eram iguais a eles) sendo destroçados no campo de batalha, outra coisa é a guerra de videogame travada a não sei quantos quilômetros de distância matando sem a experiência real de matar, a fisicalidade do sangue jorrando da jugular de soldados e por que não civis e crianças? Se matar é tão fácil, tão essencial e obviamente seguro e asséptico por que não o fazer com um pouco mais de emoção quando tudo fica tedioso. É só pensar no soldado americano que chacinou crianças numa casa no Afeganistão.

Esse tom asséptico do envolvimento das massas, dos soldados, da opinião publica e das pessoas (são pessoas ainda não?) tão conectada parece resvalar numa espécie de padronização do pensamento quase tão lógico como o nazismo, provavelmente até mais frio, mais distante, mas o mais assustador: mais conectado. A massa como um corpo físico tem seus limites. A heterogeneidade como uma imposição geográfica também. Agora a comunicabilidade integrada por um pensamento assepticamente simplista pela sua virtualidade assusta por não conhecer limites físicos. Quando isso chega ao Brasil, onde o conservadorismo sempre foi hipócrita, o terrorismo latente predicado pelo protecionismo muitas vezes jurídico isso explode de uma forma bem feia. Aqui o termo Liberdade ainda luta de tal forma com o termo Repressão que quando dá de encontro com essa Terra de Ninguém chamada internet a liberdade vem contaminada com esse desejo latente de reprimir. A liberdade é confundida com a liberdade daqueles que oprimem para oprimir mais. É engraçado como o Brasil continua fora do lugar. No final das contas Schwarz ainda é atual.

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