sexta-feira, 16 de março de 2012

Escafandristas


Chico envelheceu bem. Eu sempre digo que suas melhores musicas são as mais recentes, embora eu corra o risco de ser apedrejado por essa afirmação. O que eu quero dizer é que o Chico que o Chico sempre procurou se encontrou na maturidade. E esse Chico, que a gente vê em um vislumbre na sua juventude, muito forte em seus primeiros discos, é o Chico quase Baudelaireano do malandro contemplativo. Aquele tipo quieto que olha a vida com olhos argutos e se injuria com o mundaréu estonteante de gente tentando levar o mundo nas costas quando o contrário é que seria o certo. E talvez por conseguir ver tudo em câmera lenta o escrutínio seja certeiro. É como o próprio diz na sua canção (que é a minha favorita) Futuros Amantes: “Não se afobe, não/Que nada é pra já/O amor não tem pressa/Ele pode esperar em silêncio/Num fundo de armário/Na posta-restante/Milênios, milênios/No ar”.

E é isso que Chico pede de nós. Não nos afobemos. Manso, ele vem de fininho ao palco, sem muito se mexer e emenda música atrás de música com uma pressa desafobada e uma timidez sufocante como se pedisse para nós encorporássemos os escafandristas da canção de Paratodos, disco de 93, a explorar esse rio de amor submerso, preservado pela naturalidade de suas canções. Sua banda, talentosa e minimalista, parece acompanhar tudo com uma visão plural digna da maturidade do cancioneiro: Jazz, Bossa, Samba, Flamenco, entre outras numa sonoridade única que só um canção Buarqueana pode ter.

No entanto, assim como na canção de Tom, o público e a casa de show parece refletir bem o verso “esse Rio de amor que se perdeu...”. A casa não tem acessibilidade nenhuma para quem não possui carro, tendo a estação de trem mais próxima a 20 minutos de caminhada. A acústica do HSBC é duvidável, sendo possível até, dependendo do show, ter grandes problemas. O show marcado para às 21:30, começou com no mínimo quinze minutos de atraso (numa quinta-feira!) devido principalmente ao público muito atrasado que continuou a chegar até 20 minutos depois do show começado. A casa, com mesas dispostas para bar, além de ter preços caríssimos não cumpriu o requisito de parar de servir durante o show e então tivemos garçons passando o tempo todo na frente das pessoas, atrapalhando de verdade. Além disso, o desrespeito do público me embasbacou, me incomodei de verdade com a dupla de garotas que não parava de conversar atrás de mim, me pondo mais em dúvida sobre o real interesse do público na arte de Chico.

Porém, a despeito do público Chico se mostrou um artista inteligente e cantou com a beleza de sua voz melancolicamente desafinada um repertório que pode ser dividido em três partes muito bem esquematizadas:

A primeira contou com músicas que brincam com o fato de estar voltando mais uma vez ao palco depois de tanto tempo, mesmo que ninguém acreditasse mais, e aquelas introdutórias, que encarnam o clima do samba e do Desalento. Acenda o refletor, apure o tamborim, por que Chico e tem charme e as mulheres perceberão isso na

Segunda parte que é dedicada totalmente às suas canções com voz feminina. E aí as mulheres todas se esbaldaram e houve uma comoção catártica já esperada. Ana de Amsterdam, Teresinha, Anos Dourados entre outras formaram a parte mais “popular” do show. Esta segunda parte terminou com um musica que a encerra e inicia o final da segunda parte com maestria: Geni, que para mim é a canção de Chico mais expressiva de todas as suas facetas. Estão ali o Chico político, mulher, malandro, romântico, sambista, e inovador.

E então a terceira parte começa e ela é uma homenagem ao Brasil, como Geni já nos anuncia, essa pátria puta, essa pátria mãe. Músicas como Baioque, Cálice (com rap em homenagem a Criolo emendado com a versão do próprio da canção e a do próprio Chico) e a ótima nova música Sinhá, que termina este primeiro set. Houve até uma bela interpretação de Tereza da Praia, musica imortalizada pelos “rivais” Dick Farney e Lúcio Alves, nessa versão cantadas por Chico e seu “personal drummer” Wilson das Neves, malandro nato que, enquanto Chico trocou o “Lúcio” da letra por Das Neves, ele o faz, substituindo o “ô Dick” por um delicioso “chefia”.

O bis é coroado, como eu já disse, pela minha favorita “Futuros Amantes”, além de mais duas, finalizando o segundo bis com Na Carreira.

E é isso. Sem muitas firulas (mesmo o desajeitado aperto de mãos coletivo com a plateia no final) Chico nos pede em pouco mais de hora e meia de show que vistamos o escafandro, e quem o fizer vai entender o repertório escolhido a dedo de quem tem quase 50 anos de carreira com musicas como Construção, Roda Viva, Não Sonho Mais, Funeral de um Lavrador e mesmo assim as deixa de lado para nos mostrar a faceta de quem ele realmente é, apesar da timidez, um amante da arte (as telas, inclusive uma de Portinari, na decoração do palco gritando isso) e um poeta acidental que queria ser escritor e nos contar histórias.

Mergulhemos

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