terça-feira, 6 de março de 2012

Minha Tristeza Claustral


Agambem atribui a uma releitura patrística da literatura medieval a respeito da dupla polaridade da tristeza-assídia (preguiça) como uma revalorização do sentimento atrabiliário nos valores renascentistas e daí, uma espécie de tradução na melancolia característica a tantas formas de artes, como o famigerado spleen de Baudelaire. Agambem diz, referindo-se à natureza clérica dessa melancolia medieval, que “submetida a um gradual processo de moralização, se apresentava, por assim dizer, como a herdeira laica da tristeza claustral.”

Ora, às vezes me pergunto qual a minha necessidade extrema de me esconder. Como não há muito o que acrescentar (a não ser que leiam o ensaio sobre o demônio meridiano do G.A.), gostaria de descrever minha própria tristeza claustral: é um sentimento físico, quase como se o silêncio te rodeasse. Então qualquer ruído é uma violência, uma agressão. Não é a mera imersão em si mesmo, mas um movimento de reconhecimento de si. De repente, tudo no seu corpo começa a funcionar e se retrair, há um movimento do intestino (quando eu era criança o resultado era óbvio), e o remeximento da famigerada bile (que digam os médicos da antiguidade, eis sua prova!). A tristeza é muito parecida com um orgasmo, os pelos se arrepiam, o corpo se retrai, e muitas vezes há a ereção. A cabeça então funciona e de repente você vê a solução para todos os seus problemas e, como se o demônio meridiano lhe amordaçasse uma indisposição imensa para percorrer o caminho que levará à felicidade lhe abocanha e não lhe resta nada senão sonhar.


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