segunda-feira, 12 de março de 2012

There is no point saying this again, but I forgive you.


Não há como não entrar num frenesi catártico em refrões que gritam no seu coração (que estranhamente bate na unha encravada do seu dedão do pé esquerdo sendo pisado pela moça à sua frente na pista) que “você cale sua boca, como pode dizer que faço as coisas do jeito errado, sou humano e preciso ser amado, assim como qualquer um é?” ou “Morrer ao seu lado, bem, o prazer e o privilégio é meu” (ambas traduções livres minhas dos famigerados versos de How Soon is Now? e There is A Light That Never Goes Out), mas é bom deixar claro, este não é um show dos Smiths, e sim um show de um rapaz de coração partido chamado Morrissey.

Morrissey é marrento, e com a idade se tornou parrudo e mal encarado, mas o que mais assusta não é seu tipo físico e cara de mau. Assim como os grandes artistas do Rock 'n' Roll dos anos 50, os quais tanto o influenciaram, o nascido Steven Patrick mostra a elegância e o lirismo romântico que mesmo aos 52 anos ainda não perdeu. É quase como se Morrissey pedisse para você pedir desculpas por fazê-lo se apresentar para você e nisso está todo os eu charme.

Como diz título do post (retirado da canção You Have Killed Me) não há sentido em dizer isso de novo, mas eu lhe perdoo. E é o que parece fazer Morrissey para o público de São Paulo.

Sem alterar o bem elaborado set das Américas, ele praticamente repete todo o roteiro do show bem esquematizado, montado e politizado. Sim, porque, Morrissey não é só ácido quando canta sobre seu lugar no mundo, mas também sobre o mundo. A sua banda de apoio (que um jornal chamou de profissionais demais, o que é verdade, mas não significa algo ruim ao meu ver) tocam um show inteiro com a camiseta mais do que obviamente ativista com os dizeres: Assad is Shit (Assad é Merda), referindo-se ao ditador Sírio que resite no poder mesmo depois de todo o movimento da primavera árabe. A respeito de ditaduras, Morrissey discursa repetindo um enfático NO! NO! NO! às ditaduras remanescentes do mundo, após ter nos aconselhado a evitar que o príncipe Harry (em visita ao país) roube nosso dinheiro. Mas o momento mais crucial do seu ativismo no show talvez tenha sido a execução da clássica musica dos Smiths, Meat is Murder, acompanhada por imagens de abatimentos e castrações animais no telão ao fundo. Embora isso não tenha impedido as barracas de churrasco e cachorro quente na saída do show, Morrissey grita “assassinato” para o abatimento de animais, o que não está errado em conceito, embora pareça ignorar todos os fatores sociais e culturais que provém do consumo de carne no mundo.

Mas não é só de ativismo o show, ou talvez possamos chamar de um ativismo do lirismo. Com uma introdução primeiro da talentosa Kristeen Young (uma mistura de Bjork com Amanda Palmer). Muito performática, a americana desfilou canções intimistas e de uma cacofonia lírica interessantíssimas. Assim como seu “padrinho” de turnê, Young tem elegância e um domínio de tessitura vocal impressionante, além de muito carisma. Profissionalíssima, tocou a meia hora tolerável para um público em sanha para ver a atração principal, arrancando até alguns suspiros dos mais incautos na plateia.

Então, pontualíssimo, Morrissey adentra ao palco às 9 cravado, após uma exibição de vídeos de sua influência, como Brigitte Bardot, Françoise Hardy, passando por Rockabillies e Glam Rocks do NY Dolls à curiosa banda desconhecida The Sparks, culminando na caída do pano branco que cobria o palco e a entrada da banda com First of the Gang to Die.

O set é o conhecido, predominado pela carreira solo do cantor, principalmente dos discos mais recentes como o excelente Years of Refusal, com a ótima I'm Throwing my Arms Around Paris, ele tocou grandes musicas como Alma Matters, You have Killed me, I See you in Far Off Places, You're the One for Me, Fatty, Everyday is like Sunday, todas cantadas em coro pelo público de 10000 pessoas do Espaço das Américas, ambiente que foi reformado desde a última vez que fui lá(há muito tempo atrás, numa galáxia bem, bem distante...) e que melhorou bastante. Houve espaço até para 6 músicas dos Smiths, mas, além dos hinos obrigatórios, There is a Light That Never Goes Out e How Soon is Now?, sem os quais o público o lincharia, Morrissey escolheu apenas aquelas que mais lhe apetecia como as reflexivas e doloridas I Know it's Over e Please, Please, Please Let me Get What I Want? (sardônico não?) e as mais politizadas Still Ill e, a já citada, Meat is Murder. Embora tenha sentido falta de Suedehead, o crooner inglês que mesmo com o topete característico raleado pela falta de cabelo natural, não perdeu o topete e mostrou a que veio com um repertório original.

E o público aprovou, pois, o coro, me parece, foi uma constante,úbli com mais ou menos intensidade, mas sempre desfilando seu conhecimento, macarrônico ou não, do inglês classudo e lírico de quem tem sempre Wilde ao seu lado. E essa receptividade parece ter mexido com o cantor que nos forneceu algumas faíscas de simpatia, soltando alguns comentários irônicos às letras já tão irônicas de suas letras (o que para mim foram as cerejas do bolo), com alguns I love you Brazil, e Loves soltados ao léu como crianças órfãs abandonadas à própria sorte. Houve espaço até para a tradicional bandeira brasileira amarrada como saia na última canção One Day Goodbye will be Farewell, a última do set (que um fã esperançoso queria muito que, por causa do calor do público, não fosse a única do bis, mas sem sucesso), na qual Morrissey parecia nos dizer mais uma vez: There is no point saying this againg, but I forgive you, I forgive you, I forgive you....


(em relação à estrutura do lugar leia o artigo do R. Levino na Folha, pois estando perto do palco não pude reparar em todos os problemas que houveram. Retirei a foto de lá também.)

2 comentários:

  1. Um show pra história. Morrissey estava simpático e o público estava lindo. O que precisa mais pro show ser perfeito? mais nada.

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