sexta-feira, 15 de junho de 2012

Desmistificando Ulisses 1








Desmistificando Ulisses(parte 1)


I
O mito em cima de Ulisses de James Joyce se encerra já na sua própria publicação e é nesse aspecto que sua legendária instância literária reflete a própria concepção do romance. Escrito entre 1914 e 1921, o livro é cercado de polêmicas moralistas em torno de seu conteúdo. Além disso há a euforia concebida em cima da forma do romance, não por menos, como o exemplo vivo do projeto modernista e sua estética.
Mas é preciso entender que Ulisses é muito mais do que um quebrador de barreiras. Ulisses é um romance de caráter terminal. O seu status inovador está preso à avaliação geral presa na concepção ideológica do movimento modernista que vê no caráter artesanal da estrutura do romance, uma de suas principais características que é a do esfacelamento da arte pela enfatização artística. Essa exposição da técnica muito associada a um “revival” do barroco faz parte sim da concepção de Ulisses e, no entanto, não tem nada de idealizador ou buscador de uma “outra resposta”, uma “verdade” mais palpável como alguns artistas modernistas parecem buscar. Antes de tudo antecipado ao pós-modernismo Joyce está muito mais interessado na fragmentação do mundo e na impossibilidade dessa tal “verdade”. De fato, o irlandês se preocupa muito mais com a desmistificação real das instituições, sejam artísticas ou políticas de seu tempo. Este interesse reflete no caráter implosivo de seu romance.
É por isso que Ulisses é único em sua forma e, por isso mesmo, terminal.
Ulisses é um romance limítrofe não só do projeto modernista, mas como do projeto romance, enquanto herdeiro e hereditário do projeto burguês. Está refletido na sua forma e na sua dificuldade tanto quanto na sua característica de esfinge que tudo o que Joyce quer é ser decifrado; desmistificado. Ulisses é um monolito Kubrickiano que chama a nossa atenção por sua complexidade que inconscientemente nos faz pensar no fim.
Desta forma, é comum perguntar-se o que pode vir depois deste romance. De certa forma, a história nos responde, não só com os herdeiros diretos de Joyce, como Thomas Pynchon, mas também na extensão da literatura do próprio autor com seu derradeiro romance Finnegan's Wake.
Ricardo Piglia disse uma vez que Finnegan's era o último romance por se posicionar justamente ao final de um longo percurso moderno de romances em que se encabeçavam o Quixote no início como o romance traduzível por excelência e, ao final deste período, o famigerado romance intrespassável de Joyce como o seu oposto direto: um romance intraduzível.
Ora, se um romance é intraduzível, logo ele é ilegível e, se assim o é, qual o seu propósito, ou para sermos um pouco menos imperativos o modus operandi de um romance que se quer impossível?
De certa forma isto fazia parte do projeto de Joyce que, homem perceptivo que foi, no fundo foi um grande cronista de seu tempo. A impossibilidade de Finnegan's Wake não é a de Ulisses. O que o autor pretendia para seu romance final é algo que vai além da esfinge Ulisses e seria preciso um estudo detalhado (e quase suicida), ou quiçá a mente do próprio Giacommo para entender (e entender no sentido mais estrito de compreender as muitas línguas da escritura) o romance.
Ulisses, no entanto, não compartilha desta visão utópica, quase que abrangente do cínico que Sloterdjik traça na sua Crítica da Razão Cínica e que pode ser vista talvez na figura de Pynchon hoje em dia. Não. Para Joyce Ulisses é a construção de uma desconstrução sistemática de tudo que ele observa no seu mundo.
Ulisses é para ser lido. As dificuldades impostas são meramente desafios do modo de ler. Deslocamentos do lugar comum.
Não é à toa que um dos conflitos mais penetrantes do romance é o desterro de seus personagens.
Tais personagens são, num âmbito maior e menor, o reflexo do próprio autor. Num certo contexto, toda a vida de James Joyce está emaranhada nas páginas de sua obra prima. Prova disso é a data que ele escolhe para situar a história: 16 de junho de 1904, dia em que conheceu sua esposa, a arrumadeira Nora Barnacle. Nessa chave podemos pensa que, apesar de identificarmos o autor mais claramente na figura do jovem Stephen Dedalus, Leopold Bloom é, de certa maneira a aglomeração simbólica de todo o sentimento do autor. Bloom não é só apenas o homem comum, portanto o modelo de herói moderno que Joyce está interessado, mas também uma caixa de sentimentos e reflexões de tudo o que Joyce sentia em sua própria terra: o judeu errante, apesar de não ser judeu, um proscrito incompreendido e isolado.
Um pária.
De certa forma o movimento aqui é de inserção do particular no todo que é o romance e, nesse movimento, a explosão dessa particularidade no processo de construção deste. É um quase desaparecimento no estereotipo que marca os personagens de Ulisses que levou a certas críticas denominá-los vazios.
No entanto, é justamente no processo contrário que Ulisses se baseia.
Joyce disse que o particular de suas histórias eram o universal e para isso era preciso abranger todo o espectro de uma particularidade, no caso o seu objeto, Dublin e os dublinenses, para que a partir daí fosse possível entender o universal. Ora. esse caráter universalizante de seu trabalho no fundo faz parte da desconstrução de uma totalidade. A matemática é simples: se um particular pode traduzir o universal, o universal é igual para todos os particulares e, assim sendo, não existe particular.
Ou o contrário, o que nos interessa mais: não existe universal.

2 comentários:

  1. Cara, a ideia da fim do romance sempre aponta pro Joyce e pro Finnegans Wake. embora não ache que eu concorde de todo com isso do fim do romance - as pessoas continuam escrevendo e eu continuo lendo romances - é interessante pensar no trabalho formal de um autor muito próximo ao Joyce: Samuel Beckett. Beckett reduz a linguagem prum mínimo áspero, como se depois do projeto do irlandês cegueta nada mais fosse possível naquela direção.

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    1. Caro(a) LZ

      A ideia não é fim do romance, é um romance terminal. Na segunda parte(a ser publicada) eu discorro sobre Luckács e a ideia de uma impossibilidade da totalidade e como isso se dá na desilusão que o romance pode substituir a épica. A ideia não é que o romance irá acabar, mas sim as artimanhas burguesas que possibilitam a ideia de romance no seu ápice (século XIX) estão sendo enterradas pelo Joyce. =)

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