segunda-feira, 18 de junho de 2012

Desmistificando Ulisses 2






(Esta é a segunda parte deste texto. Para ler a primeira parte clique aqui)

Desmistificando Ulisses (parte 2)




II
Luckács descreve em sua Teoria do Romance o processo de perda, na modernidade, de uma totalidade abrangente que se fazia como chama que movia os gregos. Essa perda, o que pode ser chamada de fragmentação, nos deixou órfãos de uma representação de mundo única e inquestionável. Para o grego, segundo o filósofo, a pergunta sempre vinha depois da resposta, o caminho era sempre inquestionável, e a chama que movia toda a cultura helênica era a mesma chama que movia o mundo. Não é difícil de imaginar em termos até geográficos (talvez bem mais geopolíticos, embora o termo seja anacrônico demais) a concepção de um um mundo completo por quem se quer pequeno. Não por que tenha consciência disso, mas por que o é.
Para o homem moderno esta chama não mais brilha em conformidade com o mundo e a filosofia sempre perguntará antes da resposta. A gama de possibilidades de um mundo plural é bem maior e, portanto a possibilidade de uma abrangência total é impossível quando não uma tentativa se torna violentíssima, como será visto com a primeira metade do século XX. O mundo é grande demais para ser compreendido e seus participantes tem a visão prismatizada e particular.
Ora, num mundo particular assim como é possível a existência do mito que, por característica própria tem em si a imanência da totalidade? Como pode ser traduzida a épica num mundo onde a epicidade se destrói membro por membro nas paredes das particularidades?
Esse é o questionamento de Luckács quando formula a sua Teoria. Esta também é, com talvez mais agravantes (mais particularidades, para aproveitar a deixa) a questão que James Joyce fomenta em Ulisses: como é possível o mito no mundo moderno?
Então, o objeto de Ulisses é, a primeira vista, o mito. Isto está presente em sua própria forma e estrutura quanto romance na dialética forma/conteúdo. Ulisses é a releitura em paralelismo do mito mais contundente da civilização ocidental: a Odisseia.
Dividido em três partes, assim como sua inspiradora, o romance toma o ponto de vista com posicionamento claro logo de cara. Stephen Dedalus, artista atormentado, afligido pelo seu despatriamento simbólico (nos dois sentidos da perda da mãe ao repúdio e busca ao pai/pater/pátria), sem dinheiro e sem casa, anda por Dublim na sua modalidade inelutável do visível aguçadamente em busca de um “pai” que lhe dê onde morar só pela noite. Stephen encontra Leopold Bloom, um judeu estigmatizado pela sociedade em que vive andando preocupado com a traição carnal iminente da esposa, Molly Bloom que encerra o romance com seu famigerado monólogo. Fica claro que Stephen é Telêmaco, Bloom é Odisseu e Molly é Penélope. Além disso, cada episódio do romance se confunde simbólica e, principalmente, retoricamente com episódios da Odisseia em paralelismo.
Com esse apanhado fica claro a engenhosidade da reflexão de Joyce. Um apanhado de histórias modernas traduzidas na melhor renovação da tradição ocidental que há. Mais barroco que isso impossível. No entanto, é preciso olhar mais atentamente. A modalidade inelutável do visível de Dedalus está para isso, e não é à toa. A priore é só vermos que apesar de todo o cuidado estético (Joyce não só representa um episódio da Odisseia em cada capítulo de Ulisses como também o associa a uma ciência, um órgão, uma cor, um estilo linguístico, etc.) ele não possui nenhuma preocupação com cronologias ou a utilização de todos os cantos da Odisseia.
Ora, se a representação do mito mór ocidental não se dá por completo, como podemos tirar esta mesma conclusão?
De fato, é mais do que imaginamos. É claro que Joyce não fala só da Odisseia. Entre as muitas referências no livro há principalmente outras mistificações mais próximas como as associações com Hamlet (ou mais precisamente a literatura inglesa) e a Paixão.
Ora, estas aproximações podem sim reforçar a ideia, talvez com um toque ainda mais refinado da engenhosidade da qual falávamos há pouco, de uma representação moderna do mito assim como Luckács questionou, ou como o próprio Joyce parece nos propor, no entanto, é preciso entender e ler o sentido caótico e quase cacofônico destas relações. É como foi dito há pouco: o particular que se torna universal, ou o universal que se torna particular. Ou seja, ao juntar todas as referências numa estrutura que aparentemente as abrange de forma engenhosa Joyce não faz uma renovação do mito, mas sim uma implosão deste.
É preciso entender que Joyce na verdade está dialogando com a própria arte irlandesa que confunde-se com a identidade que partilha entre a submissão e a resistência do dominador inglês. Não é à toa que a literatura inglesa esteja questionada também, mas no caso de Ulisses está em jogo a idealização utópica dos artistas irlandeses que procuravam no folclore a concretização de uma real arte nacional. No romance isso fica bem claro no deslocamento que Stephen tem ao discutir a arte com seus companheiros e na resistência ao que os “intelectuais” locais no livro impõem, que é na verdade esta arte “verdadeiramente irlandesa” idealizada pelo Irish Revival.
Para Joyce, essa ideologia, que muito foi transmitida na figura de Yeats, é ignorar todo o processo histórico de identificação e identidade em prol de uma utopia idealizada e não mais possível. É aí que está a “totalidade” que Luckács descreve, assim buscada por esses artistas nacionalistas e que para Joyce é um sonho utópico. Não é à toa que Mulligan ilude Haines com suas apresentações da “cultura irlandesa”e há a resistência máxima de Dedalus a esse tipo de coisa. Mulligan é o colonizado que tem a consciência disso, mas busca aproveitar-se o máximo dos seus “colonizadores” para tirar mais vantagens, enquanto Dedalus se opõe a tudo isso e por isso está desterrado. E de fato está, pois não poderá voltar à Torre Martello no fim do dia.
Joyce se foca na vida particular irlandesa com expressão de sua arte. Se preocupava com suas particularidades. Assim o fez em Dublinenses e em Ulisses. Não é à toa que essas histórias se passem num determinado ano sempre. Os pensadores dos Estudos de Cultura trabalhariam exatamente neste fato. Joyce nos diz exatamente que horas são e onde estamos.
E é por isso que ele está mais preocupado em desmistificar e, com isso, como todo bom espírito do tempo faz, corrobora a teoria do contemporâneo Luckács. É aí que está o caráter terminal de Ulisses, na sua representação impossível pelo exagero da técnica. Podemos olhar então com mais clareza a estrutura de Ulisses e perceber que as partes são daquele jeito para que haja não uma representação mitológica, mas sim uma intensificação de uma consciência espantosa de toda essa tradição até o limite onde tudo se explode e não sobra nada.
É a prismatização do homem moderno não como personagem, o que foi o grande projeto do romance (e da burguesia) em seu auge no século XIX, mas a da mente monstruosa do autor. Por isso é compreensível o passo seguinte de Joyce ser o Finnegan's Wake. Enquanto Ulisses é o universo prismatizado por Joyce que o universaliza pela estrutura de esfinge, Finnegan's Wake é justamente o movimento contrário é a universalização da mente do autor.
Por esse motivo Ulisses é o romance legível por excelência. Sua função é ser lido.
De certa forma, assim como para o romance do século XIX o ápice é o esgotamento do conteúdo como vemos em romances como Anna Karienina e Guerra & Paz, para o romance do século XX, principalmente com Joyce, o ápice é o esgotamento da forma enquanto conteúdo. A explosão que se dá estreita assim a relação do autor quanto existente. Um livro é prismatizado também pela relação de quem o escreveu. O autor e o leitor se aproximam quando a técnica do romance fica mais clara. Não é à toa que o pós-modernismo vê com desconfiança a narrativa e há uma profusão de romances “autobiográficos” ou o seu oposto o extremo da narratividade que beira o fantasioso. Afinal, onde mais se pode encontrar a resistência que também faz parte do romance do que no questionamento da plausabilidade que é o instrumento de julgamento de quem domina?
É na superhistorização de um Pynchon ou no fantasioso autobiografismo de um Foster Wallace que reside a herança de Joyce.

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