segunda-feira, 22 de abril de 2013

Manual de Sobrevivência Geográfica


Manual de Sobrevivência Geográfica
(Impressões sobre Barba Ensopada de Sangue de Daniel Galera)




É preciso se livrar do pai e esta é a primeira lição de Barba Ensopada de Sangue. A segunda seria o manual de sobrevivência geográfica.  Quando o personagem sem nome do romance se vê confrontado pelo espaço confinado da morte ele se torna hostil, quando não hostilizado. Como um animal acuado.
Mas é preciso matar o pai. Primeiro, é preciso matar o pai.
O “prólogo” do romance se dá em duas partes. A primeira, o suposto narrador onisciente como num ato oitocentista realoca a narrativa com o tom de relato. Relato psicografado de bardo ou de aedo não se sabe, mas relato pseudorealista, como qualquer romanção do XIX.
A segunda parte é o ponto de ruptura romanesco que produz uma boa novela ao contrário. O pai, esse velho profano, direcionador de calamidades, esse homem que tudo sabe e nada conta, esse ancião semiótico, ele deve morrer.
Barba Ensopada de Sangue é uma novela, não um romance. Segundo preceitos Goethianos a novela deve possuir a vida inteira de um personagem num espaço (discutivelmente) curto de narrativa, pontuado por um ponto de ruptura onde toda a vida se significa e se desfaz como se nada disso tivesse importado.
Sintoma da modernidade balzaca, a novela não é e não pode ser uma aspirante a epopeia como o romance. A Odisseia de Barba... é manca. Lhe falta a completude heráldica de um poema sinfônico, lhe trai a ambição de ser homericamente falho. O que é atribuído à tentativa frustrada de epopeia que é o romance, neste livro se torna frágil como o sinal dos tempos.
Quando o protagonista como um Telêmaco desenfreado, se vê na pele da descendência à procura de um pai perdido que não pode assumir o lugar, o livro de Daniel Galera se torna uma novela pessimista sobre essa parte esquecida do maior mito ocidental.
O protagonista precisa procurar o pai no avô e nele si mesmo. Por isso vai para Garopaba, por isso enfrenta o mar. Para escrever seu próprio manual de sobrevivência geográfica. Ele é um herói falho. Ele não possui a completude e a busca dela só lhe fará mais falta.
Barba Ensopada de Sangue é um livro sobre a busca de algo que é, já foi, e continua sendo, mesmo que em luz fraca. Por se querer romance (de fôlego, daqueles que não se fazem mais há um século) e falhar miseravelmente nisso, Barba se torna uma singela novela sobre uma Telemaquia manca.
Afinal, assim como Telêmaco, a novela nunca será Ulisses, mas ali no seu momento catártico, no momento de ruptura que significa aquela insignificância, há um momento de eternidade.


Barba Ensopada de Sangue
Autor: Daniel Galera
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2012
Preço: 39,50 (físico), 27,50 (e-book)
Avaliação: 3/5

Um comentário:

  1. Daniel, te sigo no twitter faz um tempo. Tu cursas letras? Gostei do teu relato. Nunca tinha visto alguém dissecar um livro assim, como tu fizestes ali. Abraço.

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