terça-feira, 7 de maio de 2013

Ítaca.



Acho que Neto era um ano ou dois mais velho do que eu. Eu o conheci meio que por acidente, por amigas em comum, uma em especial, a Priscila, que se tornou sua esposa anos mais tarde.
Eles não namoravam no colegial, mas em retrospecto não me surpreendo que tenham acabado juntos. Do nosso grupo éramos quatro: eu, Neto, Priscila e Vanessa, com quem perdi contato depois daquele ano. Ocasionalmente, a Mônica, irmã gêmea da Priscila se reunia conosco. Elas nasceram no mesmo dia, mas não tinham nada a ver uma com a outra. Priscila era objetiva, talvez por ser mais bela que a irmão, nunca se deu a arroubos românticos. Mônica era o oposto: romântica e idealista, era sensível e se fechava no seu próprio mundo com o qual tive apenas vislumbres
Eu conheci primeiro a Mônica que namorou um outro amigo, mais antigo, de outras escolas e outros sonhos. Através dela conheci sua irmã e ainda outro irmão que sonhava em ter uma banda (e na época tinha!) como o Nirvana. Rafael tocava guitarra e compunha musicas esquisitas às vezes num inglês canhestro, às vezes num português estranho. Sua banda, que chamarei de Ancurism (uma corruptela da canção Aneurism inspirada por um erro de impressão de um CD bootleg barato que eu tinha comprado só por que era do Nirvana) por que era o nome da banda que eu queria ter naqueles sonhos, fazia apresentações esquisitas em escolas e chamava mendigos e um deficiente mental para subir ao palco e fazer de conta. Era bonito, eu acho. A gente era jovem.
Em 1999 a vida era simples e complicada ao mesmo tempo. Doía viver, e viver era bom. Eu era um garoto tímido e como era de se esperar me apaixonei à primeira vista por Priscila. A paixão não durou muito, sequer acho que ela percebeu algo, mas a personalidade dela sempre me marcou por alguma razão.
Durante um ano, o ano em que esse amigo namorou sua irmã, a gente se viu bastante e eu sempre imaginava as muitas formas como eu poderia conquistá-la sem nunca ter coragem mesmo. Depois passaram dois anos sem que a gente se visse direito até que eu acabei indo estudar na mesma classe em 2002.
A gente passou o terceiro ano do colegial inteiro conversando no fundo da sala, indiferentes aos conteúdos de revisão e ao famigerado vestibular. Não sei a ordem, mas acho que nós três acabamos fazendo faculdades, mas nenhum de nós logo depois do colégio. Eu passei na USP cinco anos depois, depois de uma carreira musical frustrada e uma depressão apática. Neto e Priscila não sei muito bem que fizeram, se é que fizeram mesmo, mas eu soube que no fim das contas eles acabaram juntos.

A Priscila me emprestou um CD ao vivo do Pearl Jam que nunca devolvi. O Neto uma fotocópia do Caibaleon que nunca li. O CD do Pearl Jam se perdeu nos anos, o xerox do Caibaleon ainda existe, guardado entre as muitas coisas que não jogo fora por alguma razão que não sei explicar. Talvez seja pena, ou relutância em morrer. Às vezes que essas pequenas coisas que eu guardei toda a minha vida, pelas mudanças de profissão, de casa, de sonhos e de amores, são como pequenos caminhos de volta para casa. Que casa? Não sei dizer, mas casa é um bom nome para estas pequenas relíquias.
Elas são canhotos de ingressos de shows de dez anos atrás, folhas de partituras com duas ou três linhas rabiscadas, pedaços de fotografias de minha infância, caderno com livros que não escrevi, marcadores de livros, celulares antigos, capas de Cds sem Cds, a falta que o Live on Two Legs da Priscila me faz e a presença fantasmagórica do Caibaleon, sem a pasta preta que o guardava orignialmente, mas com as mesmas figuras e na mesma ordem intocada que o Neto me passou. Lembranças e outras peças mais da desorganização poética que é a minha vida. Eles estão lá como um museu das minhas impossibilidades.
Não sei por quê eu guardo estes personagens de uma história que já não é mais a minha entre os meus suvenires. Talvez eles façam parte de um idílio do qual sinto um bucolismo inexplicável. Era mais fácil ser jovem e não ter que ser tão frio. Era mais fácil se esconder atrás de um violão desafinado e uma garrafa de vinho ruim. Era mais fácil ter livros herméticos como manual de vidas nunca lidos, ou bandas tão distantes de nós que se tornavam deuses por osmose épica.

Era uma distância boa, segura. Era como estar em casa.
Mas também era geográfico. Nós tínhamos a escola e o nosso canto no fundo esquerdo para nos proteger. Sem falar nas brechas do sistema educacional público. A gente estava entediado e não. Sabíamos tudo que os professores diziam e se não soubéssemos, não nos importávamos o suficiente para achar que aquilo mudaria as nossas vidas. Tínhamos o nosso cantinho e dali a gente produzia ideias.
Era geográfico por que, numa cidade satélite de São Paulo como Osasco, tudo girava em torno de um centro físico. A internet era o futuro e as pequenas lojas de CD e a praça que os roqueiros da cidade apelidaram carinhosamente de Praça da Led, por causa do bar de mesmo nome que fornecia o combustível da felicidade adolescente, eram o centro do universo para todo mundo. Era simples, pertencente e palpável. Ninguém questionava essa geografia. Os cachorros quentes na praça do shopping e os filmes ruins que passavam nas três salas de cinema disponíveis eram o paraíso. Poder ouvir um CD numa loja na Galeria do Rock a sete estações de trem dali era a maior aventura que poderíamos ter. Uma linha reta. As digressões eram no máximo um show punk em Carapicuíba ou shows gratuitos no centro de São Paulo.
Era como sempre estar em casa.

Com Neto descobri o Joy Division e Neil Gaiman. Com ele pude ver pela primeira vez em carne e osso os muitos Zaratustras que povoariam a minha educação sentimental. Neto talvez tenha sido o primeiro herói romântico da minha vida e sua postura era niilista. Depois dele houve outros, não menos importantes, talvez até mais, mas muito menos marcantes.
Ele era um ou dois anos mais velhos que eu, do que presume-se que ele havia repetido um ano ou dois e por alguma razão, apesar da minha personalidade caxias comportada, aquilo aumentava o meu respeito por ele. Além do mais ele já era maior de idade e isso fazia alguma diferença naquela época.
É tempo de dizer que Neto não se chamava Neto naquela época. Nós os chamávamos de Fozzy, como o personagem dos Muppets, um apelido que nunca conseguimos explicação e que veio herdado de alguma babaquice colegial de seu passado. No entanto, o primeiro nome de Neto era Ulisses, um nome diferente para os parâmetros de todos. Na época eu não entendia a força desse nome, mas hoje imagino o poder das três gerações de Ulisses que deram gênese ao Neto, meu amigo. Me pergunto quantos dos três casais de pais que nomearam avô, pai e neto com o nome do herói grego, de fato leram a Odisseia. Me pergunto o por quê de escolherem nome tão magnânimo para seus filhos, se sabiam da força desse nome.
Acredito que não, mas isso são conjecturas. Mais fácil é voltar para casa.
Neto não gostava de ser chamado de Ulisses, muito menos de Fozzy, por razões óbvias, o que nos fez a nós, seus amigos mais próximos, chamá-lo sempre de Neto. Definitivamente ele não gostava de ser chamado de Ulisses, o que é compreensível dado à estranheza que tal nome devia causar nos colegas adolescente, mas acho que as razões de Neto eram bem mais profundas que meras zombarias de puberdade. Hoje em dia acredito que ele não se importe tanto. Posso ver pelas redes sociais que ele não esconde o nome de batismo, mesmo que não fale com ele o suficiente para saber da sua opinião. Sei que ele nem se lembra que o chamávamos de Fozzy para irritá-lo. Não se lembra ou não quer lembrar.
De qualquer forma, não importa.

Há alguns meses falei com Priscila de novo. Ela me garantiu que Neto está bem e me cobrou o CD do Pearl Jam que eu prometi comprar outro quando nos víssemos. Do livro do marido nem se lembrou. Não acredito que de fato ela queira tanto este CD de volta. Talvez eu sinta mais falta desse pedaço do meu passado que ela do seu disco perdido.
Tenho 27 anos, o que quer dizer que Neto, ou Fozzy, ou Ulisses tem 28 ou 29 e provavelmente já passou dessa fase de se lembrar de um passado que dói ao mesmo tempo que quer se fazer melhor que hoje. Crescer não é fácil e guardar as coisas que me lembram dessa época é mais ou menso como ser o Ulisses que eu sonhei ser. Que foi o profeta, o professor, o amante e o dândi que eu não fui. Nos meus projetos falhados não quebro meus espelhos ao observar minha feiura como Kurt Cobain ensina em Lithium.
Por falar em Kurt ele se matou com 27 anos. É geográfico e me mete medo.

Por esses dias combinei uma cerveja em Osasco com a Priscila e outros amigos. Não moro em Osasco há alguns anos já. Voltei para São Paulo há cinco, e vim para o centro há alguns meses. Naturalmente não fui ao encontro. A cidade de Osasco não é longe nem do centro de São Paulo, mas como ela me parece bem mais distante do que quando atravessávamos em busca de música há dez anos atrás.
A Priscila ainda me cobra o CD do Pearl Jam, o Live on Two Legs. Vivo e com Duas Pernas, mas eu tenho medo de voltar para casa.

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