quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Amor Moderno












Quando Frances Ha gira, gira, gira ao som de Modern Love o diretor Noah Baumbach resume o filme. 
Obviamente há muito mais a se dizer, mas cinema muitas vezes é não palavras. O estatuto de uma obra de arte é algo paradoxal por ser limítrofe e sem limites ao mesmo tempo.
Ainda bem.
Há tempos escritores tentam dar conta em palavras (ou coisas semelhantes a palavras) de tudo aquilo que constitui outras formas de arte.
Exemplo: na cena citada, a música de David Bowie possui uma letra que é parte narrativa do filme, como no “estranho” bromance que Frances tem com sua amiga Sophie. A canção possui um verso que diz que esse “amor moderno” faz a pessoa, que “nunca irá cair” pelo próprio, chegar “na igreja na hora”, um paradoxo de como as possibilidades criadas na junção de meios (música, cena, (não) palavras) produzem certo efeito narrativo que não é narração e é ao mesmo tempo em que é sensação.
Beleza pura poderia se dizer, pois, no fundo, tudo é técnica. São as palavras não vistas de Greta Gerwich, a Frances,  traduzidas para nós nos seus rodopios capturados pela lente de Baumbach (dono de algumas das não palavras do roteiro também), seu tratamento, sua cor, seu movimento. Movimento que emula as sobreposições artísticas, como num tributo a Nouvelle Vague que nos ensinou sobre camadas.
A montagem de uma cena de cinema também é como uma montagem de uma música como a de Bowie. Os acordes falados pelos instrumentos e as não palavras ditas pela batida ritmada e condizente da bateria é o que é análogo ao paradoxo de possibilidades que vimos na cena que resume, em minha opinião, o filme.  Se juntarmos paradoxo mais paradoxo temos um milhão de possibilidades. Possibilidades? Sim esse é o amor moderno sem fim. Em rodopio eterno.  
Frances Ha é, então, sobre possibilidades. Uma garota de 27 anos em Nova York e as milhões de possibilidades pra continuar vivendo. Frances sofre de dor de cotovelo e de indecisão, os ingredientes perfeitos de um “amor moderno”. O Moderno também é uma definição paradoxal. Ele é e não é. O que é moderno? O que deixou de ser moderno? Talvez o moderno seja a repetição da odisseia narrativa que baseia a ideia do homem ocidental moderno.
Frances Ha questiona o que é ser uma pessoa em tempos modernos, o que é ser moderno, o que é ser. De novo uma montagem em miríade, em loop, girando, girando, girando. Circular como os giros e as peripécias de Frances. As possibilidades paradoxais em uma montagem de não palavras sobre o que é ser moderno em tempos modernos que não são palavras.
Uma possibilidade? Penso na história mais antiga de todas: voltar pra casa. Mas o que é voltar pra casa quando não se sabe o que é sua casa? Na montagem do filme os atos se dão entre os seus muitos endereços. Frances não tem casa. Ela é um Ulisses revigorado por seu eterno vício em rodopiar em torno de uma casa que não é sua. O ser moderno em questão de novo. A questão em loop. Girando.
Girando?
Como o plot:
Frances é bailarina. Frances ama sua amiga Sophie. Frances não tem uma casa. Frances não tem palavras. Na odisseia, Ulisses foi ninguém até que ele pode ser o rei de Ítaca de novo. Como Odisseu, Frances enfrentará desafios e desvios (o casamento de Sophie, Paris de supetão, o retorno de saturno).  Nessa possibilidade que escolhi para as minhas não palavras sobre o filme, essa história é sobre a viagem de Frances pra sua casa. No fim, Frances só pode ser Ha assim que encontrar sua casa.  São os rodopios de Frances.  É seu “amor moderno”. 


Alguns textos bacanas sobre o filme:

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Bom é Ser Feliz com Tineijão!

Olá, hoje preparei um resumo especial da melhor banda linda, o Teenage Fanclub, por que vcs sabem que bom é ser feliz com Tineijão:


Três cantores. 
Curiosamente três tenores. 
Só o Norman é barrigudo, que nem o Pavarotti , que é o mais conhecido dos tenores, assim como o Norman que é o mais conhecido dos Tineiji.



   Não é o músico americano

                                                                      Geral do Amor












                                                                                                                          Respeite os meus cabelos brancos

Teenage Fanclub: Glasgow, 1989. 

Norman Blake (guitarra, voz, cabelos ruivos do mal); 

Gerard Love (baixo, vocais, cientista de foguete); 

Raymond McGinley (guitarra solo, voz, existencialismo fofinho).

Os Bateristas: 

Brendan O’Hare (ex-batera, poser, brinquinho do mal, tem lebre no nome):









Brendan O' Lebre

Paul Quinn (desconhecido):











Desconhecido

Frances McDonald (batera, habilidade de ter tocado em todas as bandas da Escócia, herdeiro do McDonald’s)








Doh.

Outros integrantes: 
Um tecladista de turnê que eu não sei o nome e que provavelmente não tem um nome anyway porque tecladistas são maricas.
David McGowan na verdade...

Fun facts: 

Kurt Cobain disse que era a melhor banda do mundo, item 8: http://www.clashmusic.com/feature/teenage-fanclub-bandwagonesque










                                                                                          Queria seu cabelo Norman...

Liam Gallagher disse que era a (segunda) melhor banda do mundo; 













E tenho dito...

(é a única coisa que ele concorda com o Blur:)

Discos: 

Educação Católica. (1989)

O Rei. (1991) 

Bandavagonesca. (1991)


Treze. (1993)


Grande Prêmio. (1995)


Canções da Britânia do Norte. (1997)


Qualé. (2000)

Palavras de Sabedoria e Esperança. (2002)

Homem Fez. (2005)

Sombras (2010)


Peculiaridades:

Bandwagonesque/Thirteen(1991/1993): Norman ruivo grunge cabeludo









Grand Prix(1995): Norman ruivo cabeludo do mal

SFNB(1997): Norman ruivo cabeludo tiozinho









Howdy!(2000) em diante: Norman ruivo tiozinho barrigudo.

(escoceses envelhecem rápido)

Se bem que o Gerrard sempre foi meio tiozão de olho azul. 





Se bem que o Raymond sempre foi meio tiozão (vide all my life I’ve been so uptight)










O Raymond que é um late bloomer (seu disco é o Howdy!) é sem dúvida o mais tiozão.

(Aliás, ouvir o Raymond cantar I know where I belong na canção Can't find my way home é paradoxalmente belo)

(de novo: escoceses envelhecem depressa. deve ser o uísque)

Norman: canções em sol maior; uh neném, neném, eu sou cabeludão, neném.





Gerard: canções em fá sustenido menor; neném, vamos voar, voar, subir, subir, bem alto no espaço entre as estrelas na velocidade da luz.





Raymond: canções em lá maior, sol maior e dó maior; o que eu sou, eu sou; o que eu fiz, eu fiz.


Your Love is the Place Where I Come From: http://www.youtube.com/watch?v=5Qhd6sTMVto



Resumo: 
Teenage Fanclub é o pagode escocês mais lindo do mundo. OUÇÃO!

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Conta-Gotas.



Quando Juliana resolveu ir embora gotas de chuva brilhavam num efeito estroboscópio. Assemelhavam-se às passadas confusas dos transeuntes que por sua vez reafirmavam suas pernas em movimento duro e resistente cortando o ar úmido do fim de tarde. A garoa era esperada, mas mesmo assim ninguém havia se lembrado de usar um guarda-chuva, muito menos ela. O chiar monótono dos pneus no asfalto molhado servia de consolo para ela que observava os passantes, bolhas solitárias na chuva indecisa. O céu de São Paulo prometia mais indecisão.
Assoviou uma canção sobre não estar apaixonada. Sentiu-se melhor com o ar frio que subia a Rua Augusta. Quis um cigarro, mas lembrou-se que não sabia se fumava ou não. Não tinha nenhum na bolsa. A chuva apertou por meio minuto, mas abrandou de novo assim que ela sentiu uma mecha de seu cabelo grudar no lado esquerdo de seu rosto.
Ainda era feriado para algumas pessoas.
Juliana tinha vinte e cinco anos e era formada em cinema pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Tinha dois gatos (pelo menos até vinte minutos atrás) um chamado Bóris e outro Vladmir. Nada de Vlad, Vladmir mesmo, sem apelidos. Secretamente tinha medo de fantasmas.
Naquela tarde ela viu dois filmes: um francês muito ruim e o novo do Woody Allen. Já havia esquecido o título dois dois logo que a sessão do segundo acabou. Depois de duas cervejas no BH resolveu voltar para a casa. Ainda chovia sem chover de verdade.
Rafael tinha pedido pizza e passado o dia assistindo às versões estendidas da trilogia do Senhor dos Aneis. Quando fechou a porta atrás de si, Juliana viu o namorado sair do banheiro apressado. Fingiu não perceber que ele se masturbava e deu um oi mastigado por uma calma fingida, mesmo que sincera. Ele comentou que tinha pizza de calabresa. Ela aquiesceu se perguntando por que realmente não tinha ido embora. Contou a ele a trama do filme do Woody Allen que Rafael ouviu com uma desatenção previsível. Tirou a roupa e deixou que ele imaginasse que ela sentia falta dele mesmo.
Nua na sala comeu um pedaço de pizza de calabresa sem se importar com o vizinho do apartamento da frente que fingia não espiar pela cortina. Rafael ainda escorria de dentro dela e roncava no quarto ao som da trilha étnica do filme que ainda tocava no DVD. Juliana tinha cinco tatuagens: Um kanji que fez quando tinha 16 anos que podia significar qualquer coisa e que ela sabia que tinha que cobrir. Uma âncora no braço esquerdo logo acima de uma citação de Hamlet (the rest is silence) circulando logo acima de seu cotovelo. No braço direito a Morte de Neil Gaiman e no seio esquerdo as palavras da canção que cantarolava entre mastigadas: We are not in love...
Os gatos dormiam sem saber de nada. Juliana comia em trancos, assim como falava com as pessoas. Rafael dormia sem saber de nada, do mesmo jeito. Ela tinha o disco do Crystal Castles que combinava com a chuva, mas não ia colocar agora.
A chuva ainda brilhava no seu corpo raspando o suor que ainda restava encalacrado nos seus poros. Não deveria lavar o cabelo, mas mesmo assim o fez. Pensou no filme em que estava trabalhando como estagiária. Ela não acreditava naquilo tudo. Pensou em seus roteiros guardados em algum lugar na casa dos pais. Também não acreditava naquilo tudo. Juliana tentava imitar Robert Smith no chuveiro. A voz saía fanha demais, pois nunca tinha conseguido enrouquecer a voz aguda e vacilante, mesmo depois dos dois anos de fumante obsessiva. Talvez não devesse ter largado. Um cigarro agora seria perfeito. Um cigarro e uma cagada. Rafael ficaria puto se a visse empesteando o banheiro. Nerd filha da puta.
As gotas caíam dos seus olhos como as da chuva indecisa que ainda punia São Paulo por ser São Paulo. Juliana não sabia disso, pois não conseguia ouvir a rua por causa da água do chuveiro que ainda caia mesmo que ela não se decidisse em levantar da privada para se limpar e terminar o banho. Já tinha encharcado todo o chão do banheiro e ele fedia a ela mesma ressentida e ressabiada por tudo que queria exatamente naquele momento. Juliana se sentia molhada, mais molhada do que nunca. Como conseguia discernir isso no meio de toda aquela água era o que a fazia cantar a canção mais uma vez. Retornou ao banho e se masturbou, pois não acordaria o namorado para trepar mais uma vez. As gotas caíam de sua vagina como se fossem fantasmas da água encanada, aquecida em resistência inútil. Ela usou só um dedo, o indicador.