quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Conta-Gotas.



Quando Juliana resolveu ir embora gotas de chuva brilhavam num efeito estroboscópio. Assemelhavam-se às passadas confusas dos transeuntes que por sua vez reafirmavam suas pernas em movimento duro e resistente cortando o ar úmido do fim de tarde. A garoa era esperada, mas mesmo assim ninguém havia se lembrado de usar um guarda-chuva, muito menos ela. O chiar monótono dos pneus no asfalto molhado servia de consolo para ela que observava os passantes, bolhas solitárias na chuva indecisa. O céu de São Paulo prometia mais indecisão.
Assoviou uma canção sobre não estar apaixonada. Sentiu-se melhor com o ar frio que subia a Rua Augusta. Quis um cigarro, mas lembrou-se que não sabia se fumava ou não. Não tinha nenhum na bolsa. A chuva apertou por meio minuto, mas abrandou de novo assim que ela sentiu uma mecha de seu cabelo grudar no lado esquerdo de seu rosto.
Ainda era feriado para algumas pessoas.
Juliana tinha vinte e cinco anos e era formada em cinema pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Tinha dois gatos (pelo menos até vinte minutos atrás) um chamado Bóris e outro Vladmir. Nada de Vlad, Vladmir mesmo, sem apelidos. Secretamente tinha medo de fantasmas.
Naquela tarde ela viu dois filmes: um francês muito ruim e o novo do Woody Allen. Já havia esquecido o título dois dois logo que a sessão do segundo acabou. Depois de duas cervejas no BH resolveu voltar para a casa. Ainda chovia sem chover de verdade.
Rafael tinha pedido pizza e passado o dia assistindo às versões estendidas da trilogia do Senhor dos Aneis. Quando fechou a porta atrás de si, Juliana viu o namorado sair do banheiro apressado. Fingiu não perceber que ele se masturbava e deu um oi mastigado por uma calma fingida, mesmo que sincera. Ele comentou que tinha pizza de calabresa. Ela aquiesceu se perguntando por que realmente não tinha ido embora. Contou a ele a trama do filme do Woody Allen que Rafael ouviu com uma desatenção previsível. Tirou a roupa e deixou que ele imaginasse que ela sentia falta dele mesmo.
Nua na sala comeu um pedaço de pizza de calabresa sem se importar com o vizinho do apartamento da frente que fingia não espiar pela cortina. Rafael ainda escorria de dentro dela e roncava no quarto ao som da trilha étnica do filme que ainda tocava no DVD. Juliana tinha cinco tatuagens: Um kanji que fez quando tinha 16 anos que podia significar qualquer coisa e que ela sabia que tinha que cobrir. Uma âncora no braço esquerdo logo acima de uma citação de Hamlet (the rest is silence) circulando logo acima de seu cotovelo. No braço direito a Morte de Neil Gaiman e no seio esquerdo as palavras da canção que cantarolava entre mastigadas: We are not in love...
Os gatos dormiam sem saber de nada. Juliana comia em trancos, assim como falava com as pessoas. Rafael dormia sem saber de nada, do mesmo jeito. Ela tinha o disco do Crystal Castles que combinava com a chuva, mas não ia colocar agora.
A chuva ainda brilhava no seu corpo raspando o suor que ainda restava encalacrado nos seus poros. Não deveria lavar o cabelo, mas mesmo assim o fez. Pensou no filme em que estava trabalhando como estagiária. Ela não acreditava naquilo tudo. Pensou em seus roteiros guardados em algum lugar na casa dos pais. Também não acreditava naquilo tudo. Juliana tentava imitar Robert Smith no chuveiro. A voz saía fanha demais, pois nunca tinha conseguido enrouquecer a voz aguda e vacilante, mesmo depois dos dois anos de fumante obsessiva. Talvez não devesse ter largado. Um cigarro agora seria perfeito. Um cigarro e uma cagada. Rafael ficaria puto se a visse empesteando o banheiro. Nerd filha da puta.
As gotas caíam dos seus olhos como as da chuva indecisa que ainda punia São Paulo por ser São Paulo. Juliana não sabia disso, pois não conseguia ouvir a rua por causa da água do chuveiro que ainda caia mesmo que ela não se decidisse em levantar da privada para se limpar e terminar o banho. Já tinha encharcado todo o chão do banheiro e ele fedia a ela mesma ressentida e ressabiada por tudo que queria exatamente naquele momento. Juliana se sentia molhada, mais molhada do que nunca. Como conseguia discernir isso no meio de toda aquela água era o que a fazia cantar a canção mais uma vez. Retornou ao banho e se masturbou, pois não acordaria o namorado para trepar mais uma vez. As gotas caíam de sua vagina como se fossem fantasmas da água encanada, aquecida em resistência inútil. Ela usou só um dedo, o indicador. 

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