terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Do Amor


Liguem o Barry White e abram as garrafas de champanhe que este blog falará sobre o amor. Sim, por que o amor permeou o cinema de grandes diretores nos últimos dois anos direta ou indiretamente. O amor inspirou algumas das mais belas histórias que já nos foram contadas e este blog se disponibilizou a refletir sobre sete desses filmes, cinco já lançados, dois ainda a serem reproduzidos nas salas de cinema do mundo.
Este blog se reserva o direito de comentar dois filmes ainda não vistos pela pessoa que vos fala pelo simples fato do prazer da narrativa deste texto (e é claro uma escolha pessoal por que não?). Este blog também se reserva o direito de adotar uma linha narrativa não muitas vezes coerente com padrões numéricos ou organizacionais, mas sim conceituais, para que os objetivos deste texto que não são nada mais que a tentativa sutil de falar sobre o amor, artigo tão raro e tão mal compreendido quanto superexpostos nas milhões de mídias que temos hoje em dia, sejam atingidos.
Dentre os nomes ilustres estão Noah Baumbach, Paul Thomas Anderson, Abbas Kiarostami, Terrence Malick, Michael Haneke, Spike Jonze e Lars Von Trier. Todos eles diretores renomados e assim o são, devemos lembrar, por histórias que, bem, certamente não figurariam o Ben Stiller sendo fofinho. *1
Por que então escolher sete diretores tão diversos entre si que sua única semelhança é ser controverso e por muitas vezes macabros ou obscuros em suas histórias? O porquê está nos comentários a seguir.

Frances Ha, de Noah Baumbach (2012).

O filme é uma história de amor, embora ninguém se beije ou faça amor. É a história do amor esquisito, ou amor moderno como a música de David Bowie sugere na narrativa do filme, que a protagonista Frances (Greta Gerwig) nutre para com sua melhor amiga Sophie (Mickey Summer). Sophie é a melhor roommate, a melhor amiga, a melhor tudo. Sophie vai embora e Frances fica perdida em Nova York tendo que crescer a força. Frances só vai superar sua insegurança quando superar seu amor por Sophie e aprender a amar de verdade.

O Mestre (The Master), de Paul Thomas Anderson (2012).

O amor grego é o amor aqui. O bromance mais bonito da história do cinema. O sacerdote Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), uma espécie de paródia ao inventor da cientologia, L. Ron Hubbard, encontra pelo caminho a Força Incontrolável da Natureza Freddie Quells (Joaquin Phoenix) e se encanta pelas bebidas caseiras nada ortodoxas que o veterano da marinha perdido no mundo sabe fazer. Numa espécie de narrativa pynchoniana (com trilha radioheadiana de Jonny Greenwood), o diretor P.T.A. nos leva pelos anos de relacionamento entre protetor e protegido sem nunca nos revelar de fato quem é quem. Porém, fica claro que Freddie Quells que nunca consegue se assentar em nenhum lugar é o Aquiles em eterna hubris e Lancaster Dodd é seu fiel Patroclo em eterno sacrifício. O Mestre aqui é aquele que não sente culpa de não se refrear diante do amor que sente. O amor de viver incondicionalmente atropelando tudo. O que Freddie, em atuação brilhante de Phoenix, sempre demonstra é a certeza de seguir em frente em seu destino. O ensinado é o sacerdote que no fim só encontrou deus no amor fraterno e sincero a esta força incontrolável da natureza e não na racionalidade de sua religião. A religação só existe no espiritual. E o amor é o que mais há de espiritual.

Um Alguém Apaixonado (Raiku Samuwan In Rabu), de Abbas Kiarostami (2012).

Em Embriagado do Amor, P.T.A. já desenvolve um pouco o conceito d’A Força Incontrolável da Natureza ao nos transportar para a experiência sensorial de alguém apaixonado com sua trilha esquizofrênica, jogo de luzes cegante, surpresas inesperadas. O diretor iraniano Abbas Kiarostami faz isso a seu próprio estilo nessa fábula que tem um quê de filme de terror. Só que ele o faz através do silêncio que o medo de perder violentamente a quem se ama proporciona pra quem o sente. A jovem prostituta Akiko (Rin Takanashi) se envolve com ternura com um cliente mais velho, o tradutor idoso Takashi (Tadashi Okuno). Após uma noite de sonhos intranquilos (pra usar o clichê mesmo), o carinho estranhamente paterno que ele nutre por ela o faz protege-la de todos os meios que possui de seu namorado violento (uma outra representação d’A Força Incontrolável da Natureza) Noriaki (Ryô Kase). Obviamente, tudo pode dar errado.

Amor (Amour), de Michael Haneke (2012).

A Força Incontrolável da Natureza é o amor que perdura também. Os octogenários Anne e Georges são a construção perfeita do amor. Até que Anne sofre um derrame e lentamente definha para o inevitável. Haneke entre planos claustrofóbicos desenha para nós o apartamento dos últimos dias do amor do casal. Georges está sozinho e o amor solitário não é amor, é sacrifício. A Força Incontrolável da Natureza é perdurar, mas também é libertar. O amor aqui é a vida e a morte. A decisão de Georges é que vai provar seu amor e dar ao título do filme todo o significado. O que é o amor diante da Força Incontrolável da Natureza?

Amor Pleno (To the Wonder), de Terrence Malick (2012)

O que é o amor diante da Força Incontrolável da Natureza? Segundo Malick é o Maravilhamento (o to the wonder, rumo ao maravilhoso do título original).  Um casal de estrangeiros (Neil (Ben Affleck) em Paris conhecendo-a, Marina (Olga Kurylenko) vindo morar nos EUA com ele, conhecendo-o) se desencontra no amor. Ele analisa riscos para casas, mas não encontra a casa que quer ter (os planos de casas vazias, a desolação, as paisagens). Ela não tem casa mais, pois se desraigou para ele (sempre pulando). Ele encontra outra, Jane (Rachel McAdams) que não o encontra. O amor é a natureza dele que é errática, uma rima do Freddie Quells de O Mestre. Contra o dia, como sugeriu uma vez André de Leones, também citando Pynchon. Não há casa que não tenha riscos no caminho do Maravilhamento. A casa de Deus tbm é uma Força Incontrolável da Natureza. Malick discutiu Deus em Árvore da Vida. Em Amor Pleno ele o discute através da sua falta. Mas a falta de Deus no padre (Javier Barden) que o procura também é a falta de Deus na procura eterna pelo Maravilhamento que é o Amor Pleno que o título em português sugere. O que é o amor pleno? Por que cavalgamos a força incontrolável da natureza e gastamos nosso amor fraterno, nosso amor moderno e todo o resto em busca dele?

Ela (Her), de Spike Jonze (2013)

Joaquin Phoenix de novo. De bigode. Freddie Quells de novo? Dessa vez um Freddie Quells às avessas. Theodore (Phoenix) é um escritor solitário que encontra conforto e amor em Samantha, a Inteligência Artificial com a voz de Scarlett Johansson que o acompanha pela história. Spike Jonze parece mostrar que aprendeu muito com o Charlie Kauffman sobre roteiros esquisitos, e sobre o amor em situações impossíveis e estranhas. *2 O que Jonze vai nos dizer sobre isso só saberemos no dia 17 de janeiro quando estreia o filme por essas praias, mas pensando na trilha do Arcade Fire, que utiliza músicas de seu último disco que é praticamente todo baseada em  Orfeu e Eurídice é que, como na lenda, o amor como Força Incontrolável da Natureza pelo Maravilhamento da música (ou da voz da Eurídice/Samantha) e do enfrentamento do inferno (depressão) pela amada ressoa os outros filmes já mencionados.

Ninfomaníaca (Nymphomaniac), de Lars Von Trier (2013).

Daí é Lars Von Trier. E Lars Von Trier é todinho a Força Incontrolável da Natureza versus o mundo real (leia-se a realidade instituída como real). No caso específico estamos falando do Maravilhamento pelo orgasmo. Na humilde opinião deste blog o orgasmo não é um Maravilhamento tão diferente da música, da voz, da fraternidade ou de Deus. Na verdade, o orgasmo, assim como os outros Maravilhamentos já citados, é o caminho mais certeiro para Deus. Deus sendo o próprio Maravilhamento. O Maravilhamento sendo o êxtase de ser humano, e ser humano como a Força Incontrolável da Natureza de amar. Até a morte. Até a exaustão física, até o sem fim. Joe (Charlotte Gainsbourg) conta a Seligman (Stellan Skarsgård) a história de sua vida sexual (elenco estelar gigantesco) como ninfomaníaca autodiagnosticada que é.  Temos que esperar dia 10 de janeiro para saber o inevitável: este filme é amor.


1.       Embora um deles inclua em um de seus filmes um Adam Sandler sendo impossivelmente Adam Sandler. (ver Embriagado de Amor)
2.       Embora Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças seja do Michel Gondry,  este blog se reserva o direito de presumir que a parceria Jonze/Kauffman (Quero Ser John Malkovich, Adaptação) pode muito bem ter dados frutos para Ela.



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