sexta-feira, 21 de março de 2014

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As barreiras no romance de Amilcar Bettega são as impostas pelo autor em forma de complexos quebra-cabeças narrativos que buscam enfatizar a solidão de seus personagens. O autor gaúcho parece levar a sério (se sério para nós se confunde com ironia calculada) o nome do projeto que seu romance faz parte. Amor expresso por si só já é um paradoxo se pensarmos que a expressão já transforma o amor em outra coisa: palavras.
Palavras. Palavras ou barreiras.
No romance, um turco radicado no Brasil finalmente volta ao seu país de origem (d’onde saiu muito jovem fugido de uma tragédia pessoal e universal – o incêndio de um mercado, longamente relatado pela obra de um artista enigmático, Ahmet, que rodeia o romance inteiro – que a barreira da memória o alienou). Ele, tão gaúcho quanto turco, sai em busca de sua filha desaparecida. Sua narrativa é pessoal e em primeira pessoa, mas é como se não lhe pertencesse. Aos poucos o narrador se distancia do personagem como se uma barreira se impusesse para mostrar o fim desta história. O pai busca em vão por Istambul pela filha sem perceber que no fundo busca por si mesmo.
Fátima, a filha, busca o passado (que não é, mas também é) seu por tabela (barreira), no país de origem do pai. Sua narrativa faz parte da segunda parte do romance e complementa a de seu progenitor, porém é como se fossem fantasmas da história inacabada da primeira parte. Apenas possibilidades, barreiras. Bettega constrói uma narrativa de deja vus, oferecendo, em processo contínuo, milhões de possibilidades narrativas da última noite de Fátima. Como Fátima é fotografa, a narrativa parece se confundir com a repetição do processo de captura do movimento em vários ângulos. O que chamo de deja vus são ensaios sobre as possibilidades de suas últimas horas.
A terceira e última parte é narrada por Robert, um francês que cruza o caminho de Fátima por acaso e está com ela na noite em que ela desaparece. Sua narrativa é construída em forma de espelho com a do pai de Fátima (numa espécie de duelo entre os dois, desiludidos e perdidos em Istambul).
Robert poderia, numa hipótese ousada, ser o narrador de todas as partes do romance. Ele não se envergonha de se colocar em terceira ou primeira pessoa quando necessário. Desse ponto de vista, a narrativa de Robert parece dar a voz ao autor, como se reivindicasse para si a onisciência falseada pelo truque da narrativa. O que é bem plausível quando em certo momento do romance um personagem convenientemente chamado Amilcar interrompe um diálogo (melo) dramático de Robert com a mãe de seu filho morto pelo telefone, deixando a parábola da infância do filho sem fim, ao menos para nós.
E esta técnica continua. Robert deliberadamente esconde coisas de nós sutilmente durante o resto do romance como se quisesse nos mostrar que na busca frenética dos personagens para expressar suas identidades, seus passados e suas vidas, as barreiras existem e existirão em camadas cada vez mais distantes.
Os encontros e desencontros dos personagens secundários com os diversos protagonistas de Barreira se encaixam nessa terceira parte e denotam, com certa ironia, seu caráter de coincidência fortuita, de narratividade farsesca. A barreira então é a metáfora para a impossibilidade narrativa. Nada é muito dito, muito é sugerido, assim como nas fotografias e filmes dos artistas perigosos (Ahment, Fátima, Daniel o filho morto de Robert) que aparecem na história e nas milhões de possibilidades geradas pela polimorfia narrativa de Bettega. Desta forma, o romance em si se torna, como esforço de relato, de narrativa e caminho poético, uma imagem de barreira e de valor ao ser lido. A experiência desta leitura truncada, investigativa e infrutífera é o terreno aberto do romance. A barreira é a representação da possibilidade.
Nesse contexto, a arte se traduz na forma que representa o conteúdo de forma excitante e brilhante. A violência de um mundo que cada vez não se entende, pois relembra o tempo perdido Proust onde os mecanismos impostos (e daí não se inclui só a literatura em si, mas o que ela narra) se intensifica na memória da memória da memória (ou nas fotografias do incêndio, dos suicídios, do passado inatingível). Então, Barreira é, em minha opinião, um dos grandes romances escritos ultimamente na literatura brasileira. Com cuidado flaubertiano, Amilcar Bettega escreveu um livro que não tem medo de ser literatura.



Link:
Barreira - Companhia das Letras - 2013
Livro físico: R$ 39,00
E-Book: R$ 27,50


Um comentário:

  1. Legal, Daniel! :) sua resenha me deixou ainda mais interessado na leitura. Por acaso foi naquele programa "Amores expressos" e enquanto estava na Turquia que conheci o trabalho do Amílcar Bettega. "Os lados do círculo", livro que de contos dele, foi minha introdução na obra dele, e me surpreendeu. Bom saber que a incursão pelo romance a que o autor se propôs foi bem sucedida. abs

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