sábado, 22 de março de 2014

Árvore



   Julio tem caráter Quixotesco. Emília tem ares de Anna Karennina. Ambos querem ser Emma Bovary. O narrador diz que o que importa é a história deles dois, não o resto. Só que Julio continua, Emilia não. Mas é claro que ele nos engana. Ele diz: “Julio continua”. Mas o livro tem que acabar, e a história não é tão longa, quiçá é até banal. Mas o que continua de Julio é o que ele produziu em sua insanidade causada por uma leitura seletiva de Marcel Proust com Emilia. Um bonsai que é talvez a não árvore mais quixotesca da literatura.
   Esse é o cenário de Bonsai do chileno Alejandro Zambra que é tido como uma das vozes mais interessantes da literatura latino-americana hoje em dia. A prosa dessa novelinha enganosamente despretensiosa vem provar isso em nível de maestria.
   Bonsai é sobre literatura, ou melhor, sobre a literatura escancarada que retorna a si mesmo como produção dialética que justifica sua existência. Dito isso, Bonsai é sobre nada. Uma história breve sobre duas pessoas que leem demais, colidem de menos e enquanto uma resolve terminar a outra continua.
   Bonsai então é uma história de amor. Julio e Emilia se amaram de verdade se você quiser. Isso também é uma opção. O certo mesmo é que eles amaram ler Proust & Cia. juntos. O descaso não tão despreocupado assim com os personagens secundários que fazem contraste com a linha narrativa principal só faz enfatizar o quão perigoso é amar. Ou amar ler.
   Bonsai, portanto, é a história mais antiga da prosa romanesca de língua espanhola: Dom Quixote que tem vocação pra ser tanto Emilia quanto Julio, mas que é forçado a ser Julio, por que, como foi dito, Emilia se dá ares de Anna Karenina.
   Já mencionei que a história inteira nos é dita desde o primeiro parágrafo? Zambra conta logo de cara que Julio continua, e no final Emilia morre. Ora, de que vale a história então? Vale por si mesma. Temos nós mesmo que ser Julio e Emilia lendo sobre Julio e Emilia que leem sobre Julio e Emilia. Assim como foi a literatura desde Quixote.
   Nesse sentido Zambra é não novo, mas original, por que se quer consciente dum ciclo que nunca para. Bonsai então é sobre a consciência tópica da literatura. Mas mais que isso. Bonsai é sobre a epifania que a arte geralmente tenta produzir da banalidade fugaz de um momento.
   Isso faz a gente pensar em Proust que falou sobre a rememoração como artificialidade sem deixar de pensar no Cervantes que séculos antes dissera que essa artificialidade te deixa louco como seu Quixote. Cervantes que, séculos mais tarde, foi revivido por Flaubert em Bovary, onde o autor que também não novo, mas original “inventou” a palavra justa que algumas décadas mais tarde o jovem Joyce aperfeiçoou, no rastro do seu projeto literário que utilizava o termo justo “epifanias”, ao ponto da superação da prosa em níveis astronômicos.
  Bonsai então é a imagem dada por Zambra da construção em epifania de um Julio quixotesco, inconsciente do fim de tudo, rememorando numa arte abstrata a impossibilidade de trazer uma Emília (Bovary, ou Karennina quem sabe...) de volta. A árvore, que não é árvore, mas sim um construto de uma árvore é igual a arte que não é vida, mas sim uma representação desta.
 O trunfo de Zambra é a compreensão de que a literatura pós-Joyce é a literatura da hiperconsciência da própria literatura e sua novela traduz isso de forma original e única por que, em si, Bonsai é, em sua estrutura de novela, curta e catártica (ver vida moderna frenética), uma epifania por encorporar em seu tempo a consciência do que já foi e renová-lo no que já é.
  Quanto ao tamanho da novela, é quase como se Zambra rememorasse Poe – que foi um dos primeiros a pensar a prosa influenciando Baudelaire que o traduziu para o francês, e assim, por sua vez, influenciando toda gama de autores que viriam, inclusive os acima citados – que pregava que a história curta é que produzia o melhor efeito no leitor, pois, a catarse das histórias lidas em uma sentada é muito mais efetiva do que a história interrompida na leitura de uma prosa alongada sem necessidade.
   Sem contar que Bonsai é uma bela história de amor.




sexta-feira, 21 de março de 2014

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As barreiras no romance de Amilcar Bettega são as impostas pelo autor em forma de complexos quebra-cabeças narrativos que buscam enfatizar a solidão de seus personagens. O autor gaúcho parece levar a sério (se sério para nós se confunde com ironia calculada) o nome do projeto que seu romance faz parte. Amor expresso por si só já é um paradoxo se pensarmos que a expressão já transforma o amor em outra coisa: palavras.
Palavras. Palavras ou barreiras.
No romance, um turco radicado no Brasil finalmente volta ao seu país de origem (d’onde saiu muito jovem fugido de uma tragédia pessoal e universal – o incêndio de um mercado, longamente relatado pela obra de um artista enigmático, Ahmet, que rodeia o romance inteiro – que a barreira da memória o alienou). Ele, tão gaúcho quanto turco, sai em busca de sua filha desaparecida. Sua narrativa é pessoal e em primeira pessoa, mas é como se não lhe pertencesse. Aos poucos o narrador se distancia do personagem como se uma barreira se impusesse para mostrar o fim desta história. O pai busca em vão por Istambul pela filha sem perceber que no fundo busca por si mesmo.
Fátima, a filha, busca o passado (que não é, mas também é) seu por tabela (barreira), no país de origem do pai. Sua narrativa faz parte da segunda parte do romance e complementa a de seu progenitor, porém é como se fossem fantasmas da história inacabada da primeira parte. Apenas possibilidades, barreiras. Bettega constrói uma narrativa de deja vus, oferecendo, em processo contínuo, milhões de possibilidades narrativas da última noite de Fátima. Como Fátima é fotografa, a narrativa parece se confundir com a repetição do processo de captura do movimento em vários ângulos. O que chamo de deja vus são ensaios sobre as possibilidades de suas últimas horas.
A terceira e última parte é narrada por Robert, um francês que cruza o caminho de Fátima por acaso e está com ela na noite em que ela desaparece. Sua narrativa é construída em forma de espelho com a do pai de Fátima (numa espécie de duelo entre os dois, desiludidos e perdidos em Istambul).
Robert poderia, numa hipótese ousada, ser o narrador de todas as partes do romance. Ele não se envergonha de se colocar em terceira ou primeira pessoa quando necessário. Desse ponto de vista, a narrativa de Robert parece dar a voz ao autor, como se reivindicasse para si a onisciência falseada pelo truque da narrativa. O que é bem plausível quando em certo momento do romance um personagem convenientemente chamado Amilcar interrompe um diálogo (melo) dramático de Robert com a mãe de seu filho morto pelo telefone, deixando a parábola da infância do filho sem fim, ao menos para nós.
E esta técnica continua. Robert deliberadamente esconde coisas de nós sutilmente durante o resto do romance como se quisesse nos mostrar que na busca frenética dos personagens para expressar suas identidades, seus passados e suas vidas, as barreiras existem e existirão em camadas cada vez mais distantes.
Os encontros e desencontros dos personagens secundários com os diversos protagonistas de Barreira se encaixam nessa terceira parte e denotam, com certa ironia, seu caráter de coincidência fortuita, de narratividade farsesca. A barreira então é a metáfora para a impossibilidade narrativa. Nada é muito dito, muito é sugerido, assim como nas fotografias e filmes dos artistas perigosos (Ahment, Fátima, Daniel o filho morto de Robert) que aparecem na história e nas milhões de possibilidades geradas pela polimorfia narrativa de Bettega. Desta forma, o romance em si se torna, como esforço de relato, de narrativa e caminho poético, uma imagem de barreira e de valor ao ser lido. A experiência desta leitura truncada, investigativa e infrutífera é o terreno aberto do romance. A barreira é a representação da possibilidade.
Nesse contexto, a arte se traduz na forma que representa o conteúdo de forma excitante e brilhante. A violência de um mundo que cada vez não se entende, pois relembra o tempo perdido Proust onde os mecanismos impostos (e daí não se inclui só a literatura em si, mas o que ela narra) se intensifica na memória da memória da memória (ou nas fotografias do incêndio, dos suicídios, do passado inatingível). Então, Barreira é, em minha opinião, um dos grandes romances escritos ultimamente na literatura brasileira. Com cuidado flaubertiano, Amilcar Bettega escreveu um livro que não tem medo de ser literatura.



Link:
Barreira - Companhia das Letras - 2013
Livro físico: R$ 39,00
E-Book: R$ 27,50


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Do Amor


Liguem o Barry White e abram as garrafas de champanhe que este blog falará sobre o amor. Sim, por que o amor permeou o cinema de grandes diretores nos últimos dois anos direta ou indiretamente. O amor inspirou algumas das mais belas histórias que já nos foram contadas e este blog se disponibilizou a refletir sobre sete desses filmes, cinco já lançados, dois ainda a serem reproduzidos nas salas de cinema do mundo.
Este blog se reserva o direito de comentar dois filmes ainda não vistos pela pessoa que vos fala pelo simples fato do prazer da narrativa deste texto (e é claro uma escolha pessoal por que não?). Este blog também se reserva o direito de adotar uma linha narrativa não muitas vezes coerente com padrões numéricos ou organizacionais, mas sim conceituais, para que os objetivos deste texto que não são nada mais que a tentativa sutil de falar sobre o amor, artigo tão raro e tão mal compreendido quanto superexpostos nas milhões de mídias que temos hoje em dia, sejam atingidos.
Dentre os nomes ilustres estão Noah Baumbach, Paul Thomas Anderson, Abbas Kiarostami, Terrence Malick, Michael Haneke, Spike Jonze e Lars Von Trier. Todos eles diretores renomados e assim o são, devemos lembrar, por histórias que, bem, certamente não figurariam o Ben Stiller sendo fofinho. *1
Por que então escolher sete diretores tão diversos entre si que sua única semelhança é ser controverso e por muitas vezes macabros ou obscuros em suas histórias? O porquê está nos comentários a seguir.

Frances Ha, de Noah Baumbach (2012).

O filme é uma história de amor, embora ninguém se beije ou faça amor. É a história do amor esquisito, ou amor moderno como a música de David Bowie sugere na narrativa do filme, que a protagonista Frances (Greta Gerwig) nutre para com sua melhor amiga Sophie (Mickey Summer). Sophie é a melhor roommate, a melhor amiga, a melhor tudo. Sophie vai embora e Frances fica perdida em Nova York tendo que crescer a força. Frances só vai superar sua insegurança quando superar seu amor por Sophie e aprender a amar de verdade.

O Mestre (The Master), de Paul Thomas Anderson (2012).

O amor grego é o amor aqui. O bromance mais bonito da história do cinema. O sacerdote Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), uma espécie de paródia ao inventor da cientologia, L. Ron Hubbard, encontra pelo caminho a Força Incontrolável da Natureza Freddie Quells (Joaquin Phoenix) e se encanta pelas bebidas caseiras nada ortodoxas que o veterano da marinha perdido no mundo sabe fazer. Numa espécie de narrativa pynchoniana (com trilha radioheadiana de Jonny Greenwood), o diretor P.T.A. nos leva pelos anos de relacionamento entre protetor e protegido sem nunca nos revelar de fato quem é quem. Porém, fica claro que Freddie Quells que nunca consegue se assentar em nenhum lugar é o Aquiles em eterna hubris e Lancaster Dodd é seu fiel Patroclo em eterno sacrifício. O Mestre aqui é aquele que não sente culpa de não se refrear diante do amor que sente. O amor de viver incondicionalmente atropelando tudo. O que Freddie, em atuação brilhante de Phoenix, sempre demonstra é a certeza de seguir em frente em seu destino. O ensinado é o sacerdote que no fim só encontrou deus no amor fraterno e sincero a esta força incontrolável da natureza e não na racionalidade de sua religião. A religação só existe no espiritual. E o amor é o que mais há de espiritual.

Um Alguém Apaixonado (Raiku Samuwan In Rabu), de Abbas Kiarostami (2012).

Em Embriagado do Amor, P.T.A. já desenvolve um pouco o conceito d’A Força Incontrolável da Natureza ao nos transportar para a experiência sensorial de alguém apaixonado com sua trilha esquizofrênica, jogo de luzes cegante, surpresas inesperadas. O diretor iraniano Abbas Kiarostami faz isso a seu próprio estilo nessa fábula que tem um quê de filme de terror. Só que ele o faz através do silêncio que o medo de perder violentamente a quem se ama proporciona pra quem o sente. A jovem prostituta Akiko (Rin Takanashi) se envolve com ternura com um cliente mais velho, o tradutor idoso Takashi (Tadashi Okuno). Após uma noite de sonhos intranquilos (pra usar o clichê mesmo), o carinho estranhamente paterno que ele nutre por ela o faz protege-la de todos os meios que possui de seu namorado violento (uma outra representação d’A Força Incontrolável da Natureza) Noriaki (Ryô Kase). Obviamente, tudo pode dar errado.

Amor (Amour), de Michael Haneke (2012).

A Força Incontrolável da Natureza é o amor que perdura também. Os octogenários Anne e Georges são a construção perfeita do amor. Até que Anne sofre um derrame e lentamente definha para o inevitável. Haneke entre planos claustrofóbicos desenha para nós o apartamento dos últimos dias do amor do casal. Georges está sozinho e o amor solitário não é amor, é sacrifício. A Força Incontrolável da Natureza é perdurar, mas também é libertar. O amor aqui é a vida e a morte. A decisão de Georges é que vai provar seu amor e dar ao título do filme todo o significado. O que é o amor diante da Força Incontrolável da Natureza?

Amor Pleno (To the Wonder), de Terrence Malick (2012)

O que é o amor diante da Força Incontrolável da Natureza? Segundo Malick é o Maravilhamento (o to the wonder, rumo ao maravilhoso do título original).  Um casal de estrangeiros (Neil (Ben Affleck) em Paris conhecendo-a, Marina (Olga Kurylenko) vindo morar nos EUA com ele, conhecendo-o) se desencontra no amor. Ele analisa riscos para casas, mas não encontra a casa que quer ter (os planos de casas vazias, a desolação, as paisagens). Ela não tem casa mais, pois se desraigou para ele (sempre pulando). Ele encontra outra, Jane (Rachel McAdams) que não o encontra. O amor é a natureza dele que é errática, uma rima do Freddie Quells de O Mestre. Contra o dia, como sugeriu uma vez André de Leones, também citando Pynchon. Não há casa que não tenha riscos no caminho do Maravilhamento. A casa de Deus tbm é uma Força Incontrolável da Natureza. Malick discutiu Deus em Árvore da Vida. Em Amor Pleno ele o discute através da sua falta. Mas a falta de Deus no padre (Javier Barden) que o procura também é a falta de Deus na procura eterna pelo Maravilhamento que é o Amor Pleno que o título em português sugere. O que é o amor pleno? Por que cavalgamos a força incontrolável da natureza e gastamos nosso amor fraterno, nosso amor moderno e todo o resto em busca dele?

Ela (Her), de Spike Jonze (2013)

Joaquin Phoenix de novo. De bigode. Freddie Quells de novo? Dessa vez um Freddie Quells às avessas. Theodore (Phoenix) é um escritor solitário que encontra conforto e amor em Samantha, a Inteligência Artificial com a voz de Scarlett Johansson que o acompanha pela história. Spike Jonze parece mostrar que aprendeu muito com o Charlie Kauffman sobre roteiros esquisitos, e sobre o amor em situações impossíveis e estranhas. *2 O que Jonze vai nos dizer sobre isso só saberemos no dia 17 de janeiro quando estreia o filme por essas praias, mas pensando na trilha do Arcade Fire, que utiliza músicas de seu último disco que é praticamente todo baseada em  Orfeu e Eurídice é que, como na lenda, o amor como Força Incontrolável da Natureza pelo Maravilhamento da música (ou da voz da Eurídice/Samantha) e do enfrentamento do inferno (depressão) pela amada ressoa os outros filmes já mencionados.

Ninfomaníaca (Nymphomaniac), de Lars Von Trier (2013).

Daí é Lars Von Trier. E Lars Von Trier é todinho a Força Incontrolável da Natureza versus o mundo real (leia-se a realidade instituída como real). No caso específico estamos falando do Maravilhamento pelo orgasmo. Na humilde opinião deste blog o orgasmo não é um Maravilhamento tão diferente da música, da voz, da fraternidade ou de Deus. Na verdade, o orgasmo, assim como os outros Maravilhamentos já citados, é o caminho mais certeiro para Deus. Deus sendo o próprio Maravilhamento. O Maravilhamento sendo o êxtase de ser humano, e ser humano como a Força Incontrolável da Natureza de amar. Até a morte. Até a exaustão física, até o sem fim. Joe (Charlotte Gainsbourg) conta a Seligman (Stellan Skarsgård) a história de sua vida sexual (elenco estelar gigantesco) como ninfomaníaca autodiagnosticada que é.  Temos que esperar dia 10 de janeiro para saber o inevitável: este filme é amor.


1.       Embora um deles inclua em um de seus filmes um Adam Sandler sendo impossivelmente Adam Sandler. (ver Embriagado de Amor)
2.       Embora Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças seja do Michel Gondry,  este blog se reserva o direito de presumir que a parceria Jonze/Kauffman (Quero Ser John Malkovich, Adaptação) pode muito bem ter dados frutos para Ela.



quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Amor Moderno












Quando Frances Ha gira, gira, gira ao som de Modern Love o diretor Noah Baumbach resume o filme. 
Obviamente há muito mais a se dizer, mas cinema muitas vezes é não palavras. O estatuto de uma obra de arte é algo paradoxal por ser limítrofe e sem limites ao mesmo tempo.
Ainda bem.
Há tempos escritores tentam dar conta em palavras (ou coisas semelhantes a palavras) de tudo aquilo que constitui outras formas de arte.
Exemplo: na cena citada, a música de David Bowie possui uma letra que é parte narrativa do filme, como no “estranho” bromance que Frances tem com sua amiga Sophie. A canção possui um verso que diz que esse “amor moderno” faz a pessoa, que “nunca irá cair” pelo próprio, chegar “na igreja na hora”, um paradoxo de como as possibilidades criadas na junção de meios (música, cena, (não) palavras) produzem certo efeito narrativo que não é narração e é ao mesmo tempo em que é sensação.
Beleza pura poderia se dizer, pois, no fundo, tudo é técnica. São as palavras não vistas de Greta Gerwich, a Frances,  traduzidas para nós nos seus rodopios capturados pela lente de Baumbach (dono de algumas das não palavras do roteiro também), seu tratamento, sua cor, seu movimento. Movimento que emula as sobreposições artísticas, como num tributo a Nouvelle Vague que nos ensinou sobre camadas.
A montagem de uma cena de cinema também é como uma montagem de uma música como a de Bowie. Os acordes falados pelos instrumentos e as não palavras ditas pela batida ritmada e condizente da bateria é o que é análogo ao paradoxo de possibilidades que vimos na cena que resume, em minha opinião, o filme.  Se juntarmos paradoxo mais paradoxo temos um milhão de possibilidades. Possibilidades? Sim esse é o amor moderno sem fim. Em rodopio eterno.  
Frances Ha é, então, sobre possibilidades. Uma garota de 27 anos em Nova York e as milhões de possibilidades pra continuar vivendo. Frances sofre de dor de cotovelo e de indecisão, os ingredientes perfeitos de um “amor moderno”. O Moderno também é uma definição paradoxal. Ele é e não é. O que é moderno? O que deixou de ser moderno? Talvez o moderno seja a repetição da odisseia narrativa que baseia a ideia do homem ocidental moderno.
Frances Ha questiona o que é ser uma pessoa em tempos modernos, o que é ser moderno, o que é ser. De novo uma montagem em miríade, em loop, girando, girando, girando. Circular como os giros e as peripécias de Frances. As possibilidades paradoxais em uma montagem de não palavras sobre o que é ser moderno em tempos modernos que não são palavras.
Uma possibilidade? Penso na história mais antiga de todas: voltar pra casa. Mas o que é voltar pra casa quando não se sabe o que é sua casa? Na montagem do filme os atos se dão entre os seus muitos endereços. Frances não tem casa. Ela é um Ulisses revigorado por seu eterno vício em rodopiar em torno de uma casa que não é sua. O ser moderno em questão de novo. A questão em loop. Girando.
Girando?
Como o plot:
Frances é bailarina. Frances ama sua amiga Sophie. Frances não tem uma casa. Frances não tem palavras. Na odisseia, Ulisses foi ninguém até que ele pode ser o rei de Ítaca de novo. Como Odisseu, Frances enfrentará desafios e desvios (o casamento de Sophie, Paris de supetão, o retorno de saturno).  Nessa possibilidade que escolhi para as minhas não palavras sobre o filme, essa história é sobre a viagem de Frances pra sua casa. No fim, Frances só pode ser Ha assim que encontrar sua casa.  São os rodopios de Frances.  É seu “amor moderno”. 


Alguns textos bacanas sobre o filme:

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Bom é Ser Feliz com Tineijão!

Olá, hoje preparei um resumo especial da melhor banda linda, o Teenage Fanclub, por que vcs sabem que bom é ser feliz com Tineijão:


Três cantores. 
Curiosamente três tenores. 
Só o Norman é barrigudo, que nem o Pavarotti , que é o mais conhecido dos tenores, assim como o Norman que é o mais conhecido dos Tineiji.



   Não é o músico americano

                                                                      Geral do Amor












                                                                                                                          Respeite os meus cabelos brancos

Teenage Fanclub: Glasgow, 1989. 

Norman Blake (guitarra, voz, cabelos ruivos do mal); 

Gerard Love (baixo, vocais, cientista de foguete); 

Raymond McGinley (guitarra solo, voz, existencialismo fofinho).

Os Bateristas: 

Brendan O’Hare (ex-batera, poser, brinquinho do mal, tem lebre no nome):









Brendan O' Lebre

Paul Quinn (desconhecido):











Desconhecido

Frances McDonald (batera, habilidade de ter tocado em todas as bandas da Escócia, herdeiro do McDonald’s)








Doh.

Outros integrantes: 
Um tecladista de turnê que eu não sei o nome e que provavelmente não tem um nome anyway porque tecladistas são maricas.
David McGowan na verdade...

Fun facts: 

Kurt Cobain disse que era a melhor banda do mundo, item 8: http://www.clashmusic.com/feature/teenage-fanclub-bandwagonesque










                                                                                          Queria seu cabelo Norman...

Liam Gallagher disse que era a (segunda) melhor banda do mundo; 













E tenho dito...

(é a única coisa que ele concorda com o Blur:)

Discos: 

Educação Católica. (1989)

O Rei. (1991) 

Bandavagonesca. (1991)


Treze. (1993)


Grande Prêmio. (1995)


Canções da Britânia do Norte. (1997)


Qualé. (2000)

Palavras de Sabedoria e Esperança. (2002)

Homem Fez. (2005)

Sombras (2010)


Peculiaridades:

Bandwagonesque/Thirteen(1991/1993): Norman ruivo grunge cabeludo









Grand Prix(1995): Norman ruivo cabeludo do mal

SFNB(1997): Norman ruivo cabeludo tiozinho









Howdy!(2000) em diante: Norman ruivo tiozinho barrigudo.

(escoceses envelhecem rápido)

Se bem que o Gerrard sempre foi meio tiozão de olho azul. 





Se bem que o Raymond sempre foi meio tiozão (vide all my life I’ve been so uptight)










O Raymond que é um late bloomer (seu disco é o Howdy!) é sem dúvida o mais tiozão.

(Aliás, ouvir o Raymond cantar I know where I belong na canção Can't find my way home é paradoxalmente belo)

(de novo: escoceses envelhecem depressa. deve ser o uísque)

Norman: canções em sol maior; uh neném, neném, eu sou cabeludão, neném.





Gerard: canções em fá sustenido menor; neném, vamos voar, voar, subir, subir, bem alto no espaço entre as estrelas na velocidade da luz.





Raymond: canções em lá maior, sol maior e dó maior; o que eu sou, eu sou; o que eu fiz, eu fiz.


Your Love is the Place Where I Come From: http://www.youtube.com/watch?v=5Qhd6sTMVto



Resumo: 
Teenage Fanclub é o pagode escocês mais lindo do mundo. OUÇÃO!

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Conta-Gotas.



Quando Juliana resolveu ir embora gotas de chuva brilhavam num efeito estroboscópio. Assemelhavam-se às passadas confusas dos transeuntes que por sua vez reafirmavam suas pernas em movimento duro e resistente cortando o ar úmido do fim de tarde. A garoa era esperada, mas mesmo assim ninguém havia se lembrado de usar um guarda-chuva, muito menos ela. O chiar monótono dos pneus no asfalto molhado servia de consolo para ela que observava os passantes, bolhas solitárias na chuva indecisa. O céu de São Paulo prometia mais indecisão.
Assoviou uma canção sobre não estar apaixonada. Sentiu-se melhor com o ar frio que subia a Rua Augusta. Quis um cigarro, mas lembrou-se que não sabia se fumava ou não. Não tinha nenhum na bolsa. A chuva apertou por meio minuto, mas abrandou de novo assim que ela sentiu uma mecha de seu cabelo grudar no lado esquerdo de seu rosto.
Ainda era feriado para algumas pessoas.
Juliana tinha vinte e cinco anos e era formada em cinema pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Tinha dois gatos (pelo menos até vinte minutos atrás) um chamado Bóris e outro Vladmir. Nada de Vlad, Vladmir mesmo, sem apelidos. Secretamente tinha medo de fantasmas.
Naquela tarde ela viu dois filmes: um francês muito ruim e o novo do Woody Allen. Já havia esquecido o título dois dois logo que a sessão do segundo acabou. Depois de duas cervejas no BH resolveu voltar para a casa. Ainda chovia sem chover de verdade.
Rafael tinha pedido pizza e passado o dia assistindo às versões estendidas da trilogia do Senhor dos Aneis. Quando fechou a porta atrás de si, Juliana viu o namorado sair do banheiro apressado. Fingiu não perceber que ele se masturbava e deu um oi mastigado por uma calma fingida, mesmo que sincera. Ele comentou que tinha pizza de calabresa. Ela aquiesceu se perguntando por que realmente não tinha ido embora. Contou a ele a trama do filme do Woody Allen que Rafael ouviu com uma desatenção previsível. Tirou a roupa e deixou que ele imaginasse que ela sentia falta dele mesmo.
Nua na sala comeu um pedaço de pizza de calabresa sem se importar com o vizinho do apartamento da frente que fingia não espiar pela cortina. Rafael ainda escorria de dentro dela e roncava no quarto ao som da trilha étnica do filme que ainda tocava no DVD. Juliana tinha cinco tatuagens: Um kanji que fez quando tinha 16 anos que podia significar qualquer coisa e que ela sabia que tinha que cobrir. Uma âncora no braço esquerdo logo acima de uma citação de Hamlet (the rest is silence) circulando logo acima de seu cotovelo. No braço direito a Morte de Neil Gaiman e no seio esquerdo as palavras da canção que cantarolava entre mastigadas: We are not in love...
Os gatos dormiam sem saber de nada. Juliana comia em trancos, assim como falava com as pessoas. Rafael dormia sem saber de nada, do mesmo jeito. Ela tinha o disco do Crystal Castles que combinava com a chuva, mas não ia colocar agora.
A chuva ainda brilhava no seu corpo raspando o suor que ainda restava encalacrado nos seus poros. Não deveria lavar o cabelo, mas mesmo assim o fez. Pensou no filme em que estava trabalhando como estagiária. Ela não acreditava naquilo tudo. Pensou em seus roteiros guardados em algum lugar na casa dos pais. Também não acreditava naquilo tudo. Juliana tentava imitar Robert Smith no chuveiro. A voz saía fanha demais, pois nunca tinha conseguido enrouquecer a voz aguda e vacilante, mesmo depois dos dois anos de fumante obsessiva. Talvez não devesse ter largado. Um cigarro agora seria perfeito. Um cigarro e uma cagada. Rafael ficaria puto se a visse empesteando o banheiro. Nerd filha da puta.
As gotas caíam dos seus olhos como as da chuva indecisa que ainda punia São Paulo por ser São Paulo. Juliana não sabia disso, pois não conseguia ouvir a rua por causa da água do chuveiro que ainda caia mesmo que ela não se decidisse em levantar da privada para se limpar e terminar o banho. Já tinha encharcado todo o chão do banheiro e ele fedia a ela mesma ressentida e ressabiada por tudo que queria exatamente naquele momento. Juliana se sentia molhada, mais molhada do que nunca. Como conseguia discernir isso no meio de toda aquela água era o que a fazia cantar a canção mais uma vez. Retornou ao banho e se masturbou, pois não acordaria o namorado para trepar mais uma vez. As gotas caíam de sua vagina como se fossem fantasmas da água encanada, aquecida em resistência inútil. Ela usou só um dedo, o indicador. 

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O Longo Adeus Da Greve de Fome (uma reflexão sobre o final de Breaking Bad)




E no fim Walt venceu. Num plottwist tight, tight, tight, como diria Tuco Salamanca, Breaking Bad encerrou seus trabalhos num final ironicamente feliz. Se invertermos as polaridades negativas temos enfim que:
Flynn ficou rico
Gretchen e Elliott vão ser filantropos contra um nemesis, o que ajuda bastante nos negócios, devemos dizer.
Saul ganhou um spinoff.
Badger e Skinny Pete, um finale.
Marie conseguiu virar a chefa de família que sempre quis
Skyler ganhou na “loteria”
Hank ganhou uma medalha de herói. (presumindo que após encontrado, seu corpo será tratado como um pelo protocolo não?)
Jesse ganhou sua liberdade (num teaser de Need for Speed, filme em que o ator Aaron Paul estrelará(veja o trailer abaixo)?)
Walt se reuniu com o amor da sua vida.
Sim, o baby blue, como sugere a bela canção do subestimado Badfinger ironicamente fechando a série. Não tem muito mais o que dizer sobre Breaking Bad além de que a série provou não ser sobre redenção, punição ou absolvição. A série é sobre a obra-prima de um homem genial. Ironicamente azul como o céu, essa obra-prima encontra acidentes de percurso, como a sua família, seu emprego frustrante, sua capacidade negligenciada, seu orgulho ferido. Acidentes que apenas fazem acelerar o ritmo do trem de carga poderoso que é Walter White rumo ao beijo final.
O reencontro com a metanfetamina era tudo que Walt queria, ele pagou seus deveres:
Flynn e Holly vão ter um futuro,
Marie vai enterrar seu marido,
Skyler tem seu bilhete de loteria para fora da prisão
Jesse tem a sua liberdade até onde a sua capacidade puder leva-lo.
Walter White é Heisenber quando precisa ser, ele não é atormentado por um fantasma maléfico. Ele é e também é Walter White. Obviamente ele ama sua família, mas ela não devia ser sua família. Ela não devia existir. Ele devia ser grande, ele sabia que podia ser grande. Ele não foi. A Grey Matter virou sua maior frustração. Nada mais natural que ela seja a catalisadora de sua obra.
No fim, o que restou foi o seu amor, o último adeus. Não confundam com o amor com próprio ego. Vai além. É o amor ao método, à possibilidade. Ele pode fazer o céu azul e o fez. Isso basta. É triste que ele tenha arrastado todo mundo para o poço sem fundo com isso, mas ainda o fez.
Walter White talvez vivesse se escapasse do confronto final a la Western dos bons (ironicamente o final showdown entre ele e Jesse é mais simbólico e talvez a única porrada moral que Heisenberg leva durante o finale inteiro).  Ele talvez vivesse, mas possivelmente não o suficiente pra ver seu filho tomar para si seu legado em dinheiro.
Não importa. Walt venceu, ele reuniu-se ao significado de sua vida. Sua baby blue.
Há uma canção de Aimee Mann que fala sobre ter um amor que consegue te salvar da fileira dos malucos que não conseguem amar ninguém além dos malucos que não conseguem amar ninguém.
O longo adeus da greve de fome:














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