sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Entre los Ojos

“Entre los ojos

Entre los putos ojos”

Me dizia certa vez um mexicano que

me chamava de “cabrón”

Eu,

aflito,

dizia:

“Yo no sé hablar Español, amigo,

No lo sé como encontrar

Las Palabras!”

E ele,

peremptório,

respondia:

“Cabrón

Entre los ojos,

Entre los putos ojos!”

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Entre Medidas (Uma Análise entre Lovely Bones & Cracks)

Assisti a dois filmes ontem que me fizeram escrever este post. Um é o último Peter Jackson, Lovely Bones, inspirado no romance da escritora americana Alice Sebold. O outro é o inglês Cracks, com a bela Eva Green. Acho que os dois dão uma boa comparação, especialmente porque o segundo é melhor que o primeiro.



Lovely Bones não é um filme ruim. É um filme ingênuo. Adaptado do romance homônimo de Alice Sebold, ele conta a história de Susie Salmon (eu adoro esse nome!), uma garota de 14 anos que nos conta, a partir de sua perspectiva pós-morte, a história de seu assassinato e as implicações que de lá nasceram. Está aí uma boa história, um bom motivo para se fazer um livro ou um filme, e é verdade. O problema é que não é só a história que os faz bons. De fato o filme é bem contado, tem a marca de Jackson nas cenas de suspense, nos belos cenários e efeitos especiais; ele possui também algumas boas atuações, como as de, Rachel Weisz, Susan Sarandon e da surpreendente atriz Saoirse Ronan (a Susie). Por esses motivos o filme tem qualidades, além de certo lirismo sobre os laços que mantém a personagem na terra em contato com sua família, numa espécie de busca pela resolução de seu assassinato. O que realmente acaba com a sutileza do filme é a representação do assassino de Susie, o frio mr. Harvey, que, embora tenha uma boa interpretação de Stanley Tucci é um personagem muito estereotipado, sem humanidade alguma e alguém maquinal, o que se torna inverossímil. Não que assassinos não sejam frios, mas eles são bem mais complicados do que vilões de desenho animado, e no caso é exatamente o que parece. Esse fato deixa o filme ingênuo como se tratasse apenas de uma luta contra o mal e não de pessoas. É claro que, há uma sutileza, especialmente por causa de um final que nos surpreende um pouco, mas esta também se estraga pelo exagero de justiça para com o “vilão”, e aí o filme falha.



Cracks é um filme bom, mas não é ótimo por uma razão, e aí ele se parece com o filme de Peter Jackson, há um exagero em sua “injustiça” mostrada no final do filme. Talvez isso seja culpa dos parcos 90 minutos que o diretor Jordan Scott teve para contar a história, o que pode tê-lo feito correr um pouco depois da primeira hora do filme, deixando o enredo um tanto sem ritmo. Cracks se passa em um colégio interno feminino numa cidadezinha inglesa perdida no norte nos anos 20. Uma professora de educação física jovem (a linda Green) e moderna desfila seus modelos Chanel e suas histórias tão fantásticas como se escritas por grandes autores para suas alunas, uma espécie de patotinha de elite onde as garotas se destacam das outras pela preferência da professora. Elas se perdem entre os mergulhos da teórica equipe de mergulho e as histórias e pequenos prazeres fornecidos pela treinadora, a miss G., a enigmática professora. Entre elas são formados padrões e rivalidades, especialmente na figura da mandona Di, que é a preferida da professora até a chegada da espanhola Fiamna (a cute cute Maria Valverdes), uma espanhola aristocrata educada, viajada e um tanto melancólica que vai incitar a inveja em Di, principalmente pela insistência da novata em permanecer independente frente ao grupo de meninas, e, é lógico, por se tornar a queridinha da miss G. Fiamna é frágil física e sentimentalmente e entrará em conflito contras as vontades e poderes dos atuantes da história. Porém o que poderia ser um clichê se torna uma história sutilmente contada sobre os segredos íntimos e vontades perpetuados pela dinâmica do poder e da aparência. É uma história humana que só não é perfeita pelo fato de o final destoar do clima sutil do resto do filme. Não que seja ruim, apenas não teve o mesmo impacto.



No geral, as duas histórias surpreendem por fugirem aos lugares comuns que seus temas principais nos trazer. Em Lovely Bones, apesar da tradução oportunista do nome para Um Olhar do Paraíso feito para incitar o mercado de filmes espíritas que aqueciam o cinema na época de seu lançamento, prevalece a idéia de que se trata de uma história de fantasmas e de amor. Em Cracks, cujo título em português, Sedução, também é um tanto forçado, mas que busca traduzir mais o significado do filme (afinal cracks pode ser as risadas irônicas das meninas, o som de corações quebrando, o barulho das mergulhadoras na água, representar algo velho e que se deteriora, assim como os personagens do filme). E aí há um trunfo, os dois tentam representar o lado humano das histórias, embora em sintonias diferentes. Lovely Bones poderia ser uma história espírita a la Nosso Lar e Amor Além da Vida, mas é simplesmente uma história de fantasma e humanos que exercem seus desejos, mesmo que hediondos. O problema é que essa visão é maniqueísta e simplista, tentando apenas retratar o bem e o mal, e isso torna o filme muito ingênuo. Já Cracks poderia ser mais um filme sobre repressão e sexualidade e no fim ele foge do estereótipo, mostrando o que os desejos humanos levam as pessoas a fazer, e, claro, o que as esferas sociais as permitem fazer, e por isso se torna um filme mais inteligente do que o outro, pois, afinal a repressão ali só serve de coadjuvante, onde os valores só servem à aparência e aos propósitos lucrativos. É claramente uma história pós-freud e pós-marx enquanto Lovely Bones poderia muito bem ter sido escrita por um autor romântico do século XIX. Entre medidas se encontra o mesmo propósito inversamente proporcionais.

sábado, 21 de agosto de 2010

Claustrofobia Pós-moderna


Às vezes acho que todos nós somos claustrofóbicos. Ficamos tão imersos em nós mesmos, no nosso próprio egoísmo, que nos sentimos sufocados e precisamos de outras pessoas para nos ouvir. Daí as redes sociais, e os meus minicontos...


Fosse quem fosse, não abriria a porta. Estava fechado para o mundo. Com a chave no bolso e o zíper quebrado.


Venta frio. Fecha a Janela. Sobra o imenso vazio do mundo que é maior do que o de fora. Melhor seria fechar os olhos.


Faltou-lhe ar. Abriu a janela. Deu de cara com uma parede de concreto. Claustrofobia pós-moderna. Soca o chão pra ver se abre.


Melhor socar o coração pra ver se abre.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Ah! A beleza do prosaico...


Ah a beleza do prosaico. Dirão vocês, mas que coisa chata! E eu digo, e daí? As filosofias do linóleo são as melhores. Ninguém leva a sério um cara bêbado no chão balbuciando “verdades universais” grogues, mas todo mundo lembra a sensação, não é? A não ser que seja uma pessoa careta chata que nunca se encontrou nessa situação... Opa quem é chato agora?
A verdade é que todos nós queremos viver nesse frenesi de por um momento na vida saber todas as respostas mesmo que elas não sejam resposta nenhuma. É só ver todas as sextas os bares cheios.
Não, não estou falando do escapismo absoluto. Da perda de consciência através de substâncias. Não, não amigo. Simplesmente aquele estágio entre sonho e realidade que se atinge num estado de cansaço mental limite e um ar inebriante com a mais pura possibilidade. Uma twilight zone onde até o apoio da cerveja é a coisa mais linda do mundo. Olha só quantos escritores, músicos, poetas, dramaturgos, filósofos e bêbados (sim, por quê não!) adoram falar sobre o nada. Vide a obra inteira de Tchekov, ou se não quiser ir tão longe Seinfeld. E é por isso que eu digo:
Ah, a beleza do prosaico...

Franny & Zooey


Franny Glass não sabe o que quer fazer da vida, muito menos Zooey. Zooey Glass é manipulador e dramático, o perfil do ator excelente, charmoso e cafajeste. Zooey é dramática também. Também é atriz. De fato ela é a verdadeira Drama Queen. Seriam os gêmeos perfeitos se fossem gêmeos. A novela e o conto de Salinger se apóiam ai, nessas duas personagens. O que os torna geniais? Quem as escreveu foi Salinger!
A essencialidade da narrativa ilusionista do autor americano é perfeita. Você nunca sabe o que concluir dos personagens porque eles são excelentemente construídos. E a construção deles é uma das coisas mais lindas, e o motor da história. Afinal são duzentas e tantas páginas passadas em apenas um intervalo de algumas horas.
Li Franny & Zooey nos intervalos de um fim de semana corrido cheio de estudos e atividades. E a cada página eu me surpreendia com alguma genialidade do livro. Nunca havia lido Salinger, mas conheço todo o mito em cima da história do autor. Não sei nada sobre Catcher in the Rye, sério mesmo. Gosto de deixar os livros completamente inéditos para mim. Não leio nem resenha. Quero ter opiniões próprias. Por isso decidi ler Franny & Zooey primeiro. E agora mal posso esperar para ler Seymour (uma espécie de pé da história da família Glass). O livro nem me passou nenhuma mensagem revolucionária nem cenas das mais variadas ou dramas psicológicos, na falta de um adjetivo melhor, mindblowing. Melhor que isso me fez rir e chorar com uma naturalidade admirável por ser um livro simplesmente sem nenhuma ação de verdade.
Mas é aí que está a genialidade: entre um banho demorado e uma soneca na sala Salinger prova que uma história pode ser gigantesca sem extrapolar uma quantidade de páginas. Sem deixá-la se afogar em um mar de páginas ignóbeis e sem sal. Ao mesmo tempo escreve uma história gigantesca de duas vidas extremamente peculiares, para não dizer encantadoras (Franny e Zooey são alguns dos personagens mais interessantes da história da literatura) na essencialidade de uma narrativa plural. Prova que para escrever tem que ser bom não parcimonioso ou prolífero ou técnico ou poético. Apenas pegue uma excelente história dos pontos de vistas mais interessantes e conte como se fosse você ouvindo. Ou lendo.