terça-feira, 29 de junho de 2010

Ah! A beleza do prosaico...


Ah a beleza do prosaico. Dirão vocês, mas que coisa chata! E eu digo, e daí? As filosofias do linóleo são as melhores. Ninguém leva a sério um cara bêbado no chão balbuciando “verdades universais” grogues, mas todo mundo lembra a sensação, não é? A não ser que seja uma pessoa careta chata que nunca se encontrou nessa situação... Opa quem é chato agora?
A verdade é que todos nós queremos viver nesse frenesi de por um momento na vida saber todas as respostas mesmo que elas não sejam resposta nenhuma. É só ver todas as sextas os bares cheios.
Não, não estou falando do escapismo absoluto. Da perda de consciência através de substâncias. Não, não amigo. Simplesmente aquele estágio entre sonho e realidade que se atinge num estado de cansaço mental limite e um ar inebriante com a mais pura possibilidade. Uma twilight zone onde até o apoio da cerveja é a coisa mais linda do mundo. Olha só quantos escritores, músicos, poetas, dramaturgos, filósofos e bêbados (sim, por quê não!) adoram falar sobre o nada. Vide a obra inteira de Tchekov, ou se não quiser ir tão longe Seinfeld. E é por isso que eu digo:
Ah, a beleza do prosaico...

Franny & Zooey


Franny Glass não sabe o que quer fazer da vida, muito menos Zooey. Zooey Glass é manipulador e dramático, o perfil do ator excelente, charmoso e cafajeste. Zooey é dramática também. Também é atriz. De fato ela é a verdadeira Drama Queen. Seriam os gêmeos perfeitos se fossem gêmeos. A novela e o conto de Salinger se apóiam ai, nessas duas personagens. O que os torna geniais? Quem as escreveu foi Salinger!
A essencialidade da narrativa ilusionista do autor americano é perfeita. Você nunca sabe o que concluir dos personagens porque eles são excelentemente construídos. E a construção deles é uma das coisas mais lindas, e o motor da história. Afinal são duzentas e tantas páginas passadas em apenas um intervalo de algumas horas.
Li Franny & Zooey nos intervalos de um fim de semana corrido cheio de estudos e atividades. E a cada página eu me surpreendia com alguma genialidade do livro. Nunca havia lido Salinger, mas conheço todo o mito em cima da história do autor. Não sei nada sobre Catcher in the Rye, sério mesmo. Gosto de deixar os livros completamente inéditos para mim. Não leio nem resenha. Quero ter opiniões próprias. Por isso decidi ler Franny & Zooey primeiro. E agora mal posso esperar para ler Seymour (uma espécie de pé da história da família Glass). O livro nem me passou nenhuma mensagem revolucionária nem cenas das mais variadas ou dramas psicológicos, na falta de um adjetivo melhor, mindblowing. Melhor que isso me fez rir e chorar com uma naturalidade admirável por ser um livro simplesmente sem nenhuma ação de verdade.
Mas é aí que está a genialidade: entre um banho demorado e uma soneca na sala Salinger prova que uma história pode ser gigantesca sem extrapolar uma quantidade de páginas. Sem deixá-la se afogar em um mar de páginas ignóbeis e sem sal. Ao mesmo tempo escreve uma história gigantesca de duas vidas extremamente peculiares, para não dizer encantadoras (Franny e Zooey são alguns dos personagens mais interessantes da história da literatura) na essencialidade de uma narrativa plural. Prova que para escrever tem que ser bom não parcimonioso ou prolífero ou técnico ou poético. Apenas pegue uma excelente história dos pontos de vistas mais interessantes e conte como se fosse você ouvindo. Ou lendo.