quarta-feira, 28 de março de 2012

Luísa Geisler - Contos de Mentira

Não é preciso muitas linhas para saber que Luísa Geisler é uma grande escritora. A jovem gaúcha de Canoas tem aquela excelente, e rara, qualidade de escrever narrativas que unem temática, técnica e legibilidade. A escrita é macia, é deliciosa. Parece nos acariciar com seu carisma único. Antônio Cândido uma vez escreveu sobre a escrita de Edgard Telles Ribeiro descrevendo-a como “de melhor qualidade, sobretudo porque sabe trabalhar a linguagem como se ela fosse finalidade antes de ser veículo”. Acredito que esta descrição se encaixe perfeitamente em Luísa. Nos seus Contos de Mentira fica clara a obsessão da menina pela estrutura e as narrativas aparentemente fáceis escondem maquinações Borgianas, reflexões Kafkianas. A inelutável modalidade do visível de Joyce está na obscenidade de sua narrativa nova. A linguagem de Luísa é a linguagem do século XXI, ela é sim uma voz do segundo milênio, e é isso que a sinceridade de suas história nos diz. Não é de se admirar se pensarmos que Luísa tem apenas 19 anos. No entanto, é preciso dizer que, apesar da ordem caótica e de algumas escapadas erráticas, Geisler não é um autora de futuro. Ela não é promissora. Luísa é uma autora e ponto. Se lhe falta experiência de vida lhe sobra compreensão de literatura. O resto é bônus. Imperdível.


Editora Record – R$ 27,90

segunda-feira, 26 de março de 2012

Felicidade Mais ou Menos

O ano de 1999 é um marco zero para mim. Nesse ano o Pearl Jam excursionava o excelente Yield e Do the Evolution tocava adoidado na MTV. Outra que tocava que nem louca era Coffee & TV do Blur, do recém-lançado disco autobiográfico 13. O Pavement terminava pela primeira vez, após o lançamento de Terror Twilight e o Pinkerton do Weezer ainda ressoava na cabeça das pessoas antes do declínio. Era um ano de términos. O Radiohead ainda soava esquisito com o OK Computer, mas nem um tanto esquisito como soaria com Kid A. Eles sabiam, eles anunciavam o fim. O Milênio terminava e eu tinha quatorze anos e aprendia a tomar vinho barato e 51 com coca-cola. Aprendia a ver filmes como Trainspotting, Taxi Driver e Pulp Fiction. Tinha alguma coisa ali, talvez naquela mistura meio ácida meio sem graça, naquele mar de horas que a gente matava não indo às aulas, talvez mesmo naquelas aulas mesmo, assépticas, irônicas, que a gente sabia que não tinha mais volta. Ainda assim, um lado meio sonhador em mim ouvia canções como Live Forever, The Universal, Fake Plastic Trees, etc. como algo que já não era meu, mas ao mesmo tempo era de meu direito apropriar-se. Em 1999, ainda tocava por aí intacta em seu sucesso as canções do terceiro disco de uma banda inglesa que insistia ainda em ser Britpop. O Verve, assim como seu próprio nome diz, tinha em Urban Hymns toda a vertiginosa sonoridade para você se sentir jovem. Toda aquela vontade de voar que o Oasis nunca conseguiu expressar de verdade. A canção que eu mais ouvia em 1999? Lucky Man.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Dislexia Política: A Terra de Ninguém.

Está aí para todo mundo ver: mais um ataque de intolerância, mais uma reação de um governo que culminou na morte do terrorista. Sim, você leu bem: mais uma. Rápida, limpa e eficiente, foi uma execução asséptica quase. Longe dos olhos públicos, mas perto do coração selvagem da retaliação.

Há um ano mais ou menos, uma operação americana dava cabo de Osama Bin Laden de um forma bem parecida à dos padrinhos espirituais franceses com o rapaz de nome curiosamente árabe. E a palavra que nos vem à cabeça é eficiência.

Nove anos antes de sua morte, Osama inaugurava os novos tempos com a destruição sanguinária dos baluartes do velho capitalismo como se comemorasse um gol com o psiu para a torcida adversária cheia de Fukuyamas. Com isso e com a execução, não tão limpa e velada, de Sadam Hussein, quatro anos depois da ação no Iraque e dois depois de sua reeleição, Bush salvou-se do impeachment que lhe era de direito. Seu sucessor provavelmente se reelegerá em cima da captura do demônio mitológico inventado por W., cuja linha política Obama (quase escrevo Osama, só pra constar) criticou duramente para se eleger em 2008.

Curiosamente, Osama foi treinado, equipado e comissionado por presidentes americanos, começando curiosamente pelo democrata Jimmy Carter, que curiosamente ganhou um Nobel da Paz como curiosamente também o fez Barack Hussein Osama, digo Obama, e terminou no governo do republicano Bush Pai, que não conseguiu pegar o Sadam, que também é Hussein, deixando a tarefa para o Junior que inventou Obama, digo Osama, perdoem minha dislexia por favor.

Troca-letras à parte, a mesma França que doou a Estátua da Liberdade para os EUA agora tem um presidente que quer brincar de se reeleger também e algo me diz que a execução asséptica de Mohammed Merah o ajudará assim como Osama o fez com Júnior e provavelmente o fará com Mr. B.

O modelo bipartidarista americano parece ter influenciado o mundo que se bipartidariza entre terroristas (leia comunistas orientais e árabes fundamentalistas) e presidentes americanos (leia modelos de oportunismos políticos) influenciando a “política” internacional. Maniqueísmos à parte, ninguém é santo, e o que espanta de verdade é essa “reformação” do mundo numa hegemonização do simplismo do eixo bem e do mal. Não faz tempo eu vi a Ana Maria Braga citar descontextualizadamente Nietzsche e dizer em TV aberta que ele já não cabia, estava errado. A frase era: "Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal." . Com a ajuda de seu orientando Louro José, Ana Maria Braga discordou e disse que não, que tem gente que mata por amor e portanto Nietzsche estava errado, ou pelo menos errado para o nosso tempo. “Os tempos são outros”, afirmou.

Os tempos são outros. O que a nossa querida filó (te cuida Chauí!) nos disse é que simplesmente não se entende mais a analítica envolta em toda essa afirmação. Ao afirmar que existe o mal no que se faz por amor, a apresentadora simplesmente não entendeu a complexidade de raciocinar o amor como pathos e todas as implicações que daí vem. O moralismo comprado e o simplismo reflete então o sinal dos tempos.

Ah o sinal dos tempos...

No Brasil, uma notícia deu paz a alguns internautas como eu contando que dois possíveis terroristas foram presos por suas ameaças de intolerância. Assim como Mohamed Merah, os dois planejavam ataques que não levaram a cabo. Apenas depois de quase 70,000 denúncias do site onde propagavam suas mensagens de ódio os dois foram presos. Demorou, mas aconteceu. Felizmente antes que algo mais grave tivesse acontecido. No entanto, fica a pergunta: por que é que esse neo nazismo contagiou-se de forma tão contundente pela internet? Será que o discurso, esse esvaziamento total de significado do excesso de informação pela rede, por essa própria característica, se vê tomado por uma racionalidade extrema, que é tão asséptica quanto às ações governamentais mencionadas acima, distante do corpo, mas é curiosamente tão simplista atrai por sua promessa de explicação fácil do mundo?

Não é fácil entender a diferença. Não é fácil pensar. Pensar é complexo e exige ponderação e principalmente entendimento. A globalização traz a identidade, mas também traz a diferença, então quando o mundo ganha comunicabilidade, a periferia vai gritar na cara de todo mundo que existe e isso incomoda o sistema estruturalmente fechado, encalacrado num preconceito com o que é diferente, um medo latente de não ser tão importante. O que não somos mesmo.

Ora, a heterogeneidade é importante num sistema capitalista quando ela é mercadoria e gera lucro, portanto, o embate movimentador dos choques culturais é importante num mundo globalizado, mas a essencialidade da identidade diferente não interessa a quem necessita de um estilo de vida padronizado para poder propagar o consumo como preceito moral. Então a homogeneidade de uma cultura é importante para os conservadores que querem, antes de tudo, estar no poder. A possibilidade de um mundo plural não é apenas não lucrativo (e o conservador honesto é aquele que admite isso como seu propósito verdadeiro), mas também indesejada. É necessário que o modelo da família enlatada perdure para que o sistema de lucros continue. O problema é que nem todo mundo é frio e calculista. Quando você biparte o mundo entre os mocinhos e os bandidos você força o mundo a vendar-se contra a realidade gritante, fazendo aparecer sujeitos que optam pela saída mais simples que geralmente é a mais cruel. Vide o caso do rapaz negro morto por ser “suspeito” e seu assassino que é defendido por uma lei que garante a liberdade de quem mata, a tal lei “Stand your Ground” no estado da Flórida nos EUA.

No entanto, a homogeneidade de massas é maior quando há o tom asséptico de tudo. O oportunismo governamental em cima dos terroristas é lucrativo nas eleições, portanto desbipolarizar o mundo não é válido para eles.

O mundo que tínhamos na Guerra Fria era assustadoramente físico. Há uma frase de Canetti que define a massa como um sujeito, um pretume de gente, nem todos sabendo exatamente o motivo daquilo, mas que em segundos se reúne num pretume de gente. Ora, essa massa Canettiana tem seu valor político. A chamada Voz do Povo, no entanto, também pode ser controlada. De um lado temos os muçulmanos queimando bandeiras norte-americanas, de um outro uma massa de pessoas querendo impedir que uma mesquita seja aberta em frente às ruínas do WTC. Ambos cegos não percebem que essa briga favorece os líderes que mais habilmente conseguirem manipular os meandres do Será que?.

No entanto essa massa hoje não é física, e portanto, de alguma forma um pouco mais assustadora. É aquela velha história das guerras, uma coisa é quando a morte entra no imaginário das pessoas que viram colegas e inimigos (que no fundo, quando confrontados cara a cara, eram iguais a eles) sendo destroçados no campo de batalha, outra coisa é a guerra de videogame travada a não sei quantos quilômetros de distância matando sem a experiência real de matar, a fisicalidade do sangue jorrando da jugular de soldados e por que não civis e crianças? Se matar é tão fácil, tão essencial e obviamente seguro e asséptico por que não o fazer com um pouco mais de emoção quando tudo fica tedioso. É só pensar no soldado americano que chacinou crianças numa casa no Afeganistão.

Esse tom asséptico do envolvimento das massas, dos soldados, da opinião publica e das pessoas (são pessoas ainda não?) tão conectada parece resvalar numa espécie de padronização do pensamento quase tão lógico como o nazismo, provavelmente até mais frio, mais distante, mas o mais assustador: mais conectado. A massa como um corpo físico tem seus limites. A heterogeneidade como uma imposição geográfica também. Agora a comunicabilidade integrada por um pensamento assepticamente simplista pela sua virtualidade assusta por não conhecer limites físicos. Quando isso chega ao Brasil, onde o conservadorismo sempre foi hipócrita, o terrorismo latente predicado pelo protecionismo muitas vezes jurídico isso explode de uma forma bem feia. Aqui o termo Liberdade ainda luta de tal forma com o termo Repressão que quando dá de encontro com essa Terra de Ninguém chamada internet a liberdade vem contaminada com esse desejo latente de reprimir. A liberdade é confundida com a liberdade daqueles que oprimem para oprimir mais. É engraçado como o Brasil continua fora do lugar. No final das contas Schwarz ainda é atual.

terça-feira, 20 de março de 2012

A Slumber Did My Spirit Seal (De Profundo, A Minh'alma, O Sono Selou)






De profundo, a minh'alma, o sono selou,

e tirou-me os humanos temores:

Ao toque, o semblante que por fim traçou,

do tempo, aliviou dessabores.


Não move agora, sem vida;

Ela não vê, nem escuta;

Envolta no curso diurno da lida;

Entre a rocha, e a pedra e a gruta.



Imagem de Julie Hutchings com o mesmo nome.




sexta-feira, 16 de março de 2012

Escafandristas


Chico envelheceu bem. Eu sempre digo que suas melhores musicas são as mais recentes, embora eu corra o risco de ser apedrejado por essa afirmação. O que eu quero dizer é que o Chico que o Chico sempre procurou se encontrou na maturidade. E esse Chico, que a gente vê em um vislumbre na sua juventude, muito forte em seus primeiros discos, é o Chico quase Baudelaireano do malandro contemplativo. Aquele tipo quieto que olha a vida com olhos argutos e se injuria com o mundaréu estonteante de gente tentando levar o mundo nas costas quando o contrário é que seria o certo. E talvez por conseguir ver tudo em câmera lenta o escrutínio seja certeiro. É como o próprio diz na sua canção (que é a minha favorita) Futuros Amantes: “Não se afobe, não/Que nada é pra já/O amor não tem pressa/Ele pode esperar em silêncio/Num fundo de armário/Na posta-restante/Milênios, milênios/No ar”.

E é isso que Chico pede de nós. Não nos afobemos. Manso, ele vem de fininho ao palco, sem muito se mexer e emenda música atrás de música com uma pressa desafobada e uma timidez sufocante como se pedisse para nós encorporássemos os escafandristas da canção de Paratodos, disco de 93, a explorar esse rio de amor submerso, preservado pela naturalidade de suas canções. Sua banda, talentosa e minimalista, parece acompanhar tudo com uma visão plural digna da maturidade do cancioneiro: Jazz, Bossa, Samba, Flamenco, entre outras numa sonoridade única que só um canção Buarqueana pode ter.

No entanto, assim como na canção de Tom, o público e a casa de show parece refletir bem o verso “esse Rio de amor que se perdeu...”. A casa não tem acessibilidade nenhuma para quem não possui carro, tendo a estação de trem mais próxima a 20 minutos de caminhada. A acústica do HSBC é duvidável, sendo possível até, dependendo do show, ter grandes problemas. O show marcado para às 21:30, começou com no mínimo quinze minutos de atraso (numa quinta-feira!) devido principalmente ao público muito atrasado que continuou a chegar até 20 minutos depois do show começado. A casa, com mesas dispostas para bar, além de ter preços caríssimos não cumpriu o requisito de parar de servir durante o show e então tivemos garçons passando o tempo todo na frente das pessoas, atrapalhando de verdade. Além disso, o desrespeito do público me embasbacou, me incomodei de verdade com a dupla de garotas que não parava de conversar atrás de mim, me pondo mais em dúvida sobre o real interesse do público na arte de Chico.

Porém, a despeito do público Chico se mostrou um artista inteligente e cantou com a beleza de sua voz melancolicamente desafinada um repertório que pode ser dividido em três partes muito bem esquematizadas:

A primeira contou com músicas que brincam com o fato de estar voltando mais uma vez ao palco depois de tanto tempo, mesmo que ninguém acreditasse mais, e aquelas introdutórias, que encarnam o clima do samba e do Desalento. Acenda o refletor, apure o tamborim, por que Chico e tem charme e as mulheres perceberão isso na

Segunda parte que é dedicada totalmente às suas canções com voz feminina. E aí as mulheres todas se esbaldaram e houve uma comoção catártica já esperada. Ana de Amsterdam, Teresinha, Anos Dourados entre outras formaram a parte mais “popular” do show. Esta segunda parte terminou com um musica que a encerra e inicia o final da segunda parte com maestria: Geni, que para mim é a canção de Chico mais expressiva de todas as suas facetas. Estão ali o Chico político, mulher, malandro, romântico, sambista, e inovador.

E então a terceira parte começa e ela é uma homenagem ao Brasil, como Geni já nos anuncia, essa pátria puta, essa pátria mãe. Músicas como Baioque, Cálice (com rap em homenagem a Criolo emendado com a versão do próprio da canção e a do próprio Chico) e a ótima nova música Sinhá, que termina este primeiro set. Houve até uma bela interpretação de Tereza da Praia, musica imortalizada pelos “rivais” Dick Farney e Lúcio Alves, nessa versão cantadas por Chico e seu “personal drummer” Wilson das Neves, malandro nato que, enquanto Chico trocou o “Lúcio” da letra por Das Neves, ele o faz, substituindo o “ô Dick” por um delicioso “chefia”.

O bis é coroado, como eu já disse, pela minha favorita “Futuros Amantes”, além de mais duas, finalizando o segundo bis com Na Carreira.

E é isso. Sem muitas firulas (mesmo o desajeitado aperto de mãos coletivo com a plateia no final) Chico nos pede em pouco mais de hora e meia de show que vistamos o escafandro, e quem o fizer vai entender o repertório escolhido a dedo de quem tem quase 50 anos de carreira com musicas como Construção, Roda Viva, Não Sonho Mais, Funeral de um Lavrador e mesmo assim as deixa de lado para nos mostrar a faceta de quem ele realmente é, apesar da timidez, um amante da arte (as telas, inclusive uma de Portinari, na decoração do palco gritando isso) e um poeta acidental que queria ser escritor e nos contar histórias.

Mergulhemos

segunda-feira, 12 de março de 2012

There is no point saying this again, but I forgive you.


Não há como não entrar num frenesi catártico em refrões que gritam no seu coração (que estranhamente bate na unha encravada do seu dedão do pé esquerdo sendo pisado pela moça à sua frente na pista) que “você cale sua boca, como pode dizer que faço as coisas do jeito errado, sou humano e preciso ser amado, assim como qualquer um é?” ou “Morrer ao seu lado, bem, o prazer e o privilégio é meu” (ambas traduções livres minhas dos famigerados versos de How Soon is Now? e There is A Light That Never Goes Out), mas é bom deixar claro, este não é um show dos Smiths, e sim um show de um rapaz de coração partido chamado Morrissey.

Morrissey é marrento, e com a idade se tornou parrudo e mal encarado, mas o que mais assusta não é seu tipo físico e cara de mau. Assim como os grandes artistas do Rock 'n' Roll dos anos 50, os quais tanto o influenciaram, o nascido Steven Patrick mostra a elegância e o lirismo romântico que mesmo aos 52 anos ainda não perdeu. É quase como se Morrissey pedisse para você pedir desculpas por fazê-lo se apresentar para você e nisso está todo os eu charme.

Como diz título do post (retirado da canção You Have Killed Me) não há sentido em dizer isso de novo, mas eu lhe perdoo. E é o que parece fazer Morrissey para o público de São Paulo.

Sem alterar o bem elaborado set das Américas, ele praticamente repete todo o roteiro do show bem esquematizado, montado e politizado. Sim, porque, Morrissey não é só ácido quando canta sobre seu lugar no mundo, mas também sobre o mundo. A sua banda de apoio (que um jornal chamou de profissionais demais, o que é verdade, mas não significa algo ruim ao meu ver) tocam um show inteiro com a camiseta mais do que obviamente ativista com os dizeres: Assad is Shit (Assad é Merda), referindo-se ao ditador Sírio que resite no poder mesmo depois de todo o movimento da primavera árabe. A respeito de ditaduras, Morrissey discursa repetindo um enfático NO! NO! NO! às ditaduras remanescentes do mundo, após ter nos aconselhado a evitar que o príncipe Harry (em visita ao país) roube nosso dinheiro. Mas o momento mais crucial do seu ativismo no show talvez tenha sido a execução da clássica musica dos Smiths, Meat is Murder, acompanhada por imagens de abatimentos e castrações animais no telão ao fundo. Embora isso não tenha impedido as barracas de churrasco e cachorro quente na saída do show, Morrissey grita “assassinato” para o abatimento de animais, o que não está errado em conceito, embora pareça ignorar todos os fatores sociais e culturais que provém do consumo de carne no mundo.

Mas não é só de ativismo o show, ou talvez possamos chamar de um ativismo do lirismo. Com uma introdução primeiro da talentosa Kristeen Young (uma mistura de Bjork com Amanda Palmer). Muito performática, a americana desfilou canções intimistas e de uma cacofonia lírica interessantíssimas. Assim como seu “padrinho” de turnê, Young tem elegância e um domínio de tessitura vocal impressionante, além de muito carisma. Profissionalíssima, tocou a meia hora tolerável para um público em sanha para ver a atração principal, arrancando até alguns suspiros dos mais incautos na plateia.

Então, pontualíssimo, Morrissey adentra ao palco às 9 cravado, após uma exibição de vídeos de sua influência, como Brigitte Bardot, Françoise Hardy, passando por Rockabillies e Glam Rocks do NY Dolls à curiosa banda desconhecida The Sparks, culminando na caída do pano branco que cobria o palco e a entrada da banda com First of the Gang to Die.

O set é o conhecido, predominado pela carreira solo do cantor, principalmente dos discos mais recentes como o excelente Years of Refusal, com a ótima I'm Throwing my Arms Around Paris, ele tocou grandes musicas como Alma Matters, You have Killed me, I See you in Far Off Places, You're the One for Me, Fatty, Everyday is like Sunday, todas cantadas em coro pelo público de 10000 pessoas do Espaço das Américas, ambiente que foi reformado desde a última vez que fui lá(há muito tempo atrás, numa galáxia bem, bem distante...) e que melhorou bastante. Houve espaço até para 6 músicas dos Smiths, mas, além dos hinos obrigatórios, There is a Light That Never Goes Out e How Soon is Now?, sem os quais o público o lincharia, Morrissey escolheu apenas aquelas que mais lhe apetecia como as reflexivas e doloridas I Know it's Over e Please, Please, Please Let me Get What I Want? (sardônico não?) e as mais politizadas Still Ill e, a já citada, Meat is Murder. Embora tenha sentido falta de Suedehead, o crooner inglês que mesmo com o topete característico raleado pela falta de cabelo natural, não perdeu o topete e mostrou a que veio com um repertório original.

E o público aprovou, pois, o coro, me parece, foi uma constante,úbli com mais ou menos intensidade, mas sempre desfilando seu conhecimento, macarrônico ou não, do inglês classudo e lírico de quem tem sempre Wilde ao seu lado. E essa receptividade parece ter mexido com o cantor que nos forneceu algumas faíscas de simpatia, soltando alguns comentários irônicos às letras já tão irônicas de suas letras (o que para mim foram as cerejas do bolo), com alguns I love you Brazil, e Loves soltados ao léu como crianças órfãs abandonadas à própria sorte. Houve espaço até para a tradicional bandeira brasileira amarrada como saia na última canção One Day Goodbye will be Farewell, a última do set (que um fã esperançoso queria muito que, por causa do calor do público, não fosse a única do bis, mas sem sucesso), na qual Morrissey parecia nos dizer mais uma vez: There is no point saying this againg, but I forgive you, I forgive you, I forgive you....


(em relação à estrutura do lugar leia o artigo do R. Levino na Folha, pois estando perto do palco não pude reparar em todos os problemas que houveram. Retirei a foto de lá também.)

quarta-feira, 7 de março de 2012

O Efeito Soninha


Como tudo na vida (ou como na canção do Radiohead), I might be wrong, mas eis uns pensamento forte sobre as treta da mina sonsinha. O Efeito Soninha:

Um grande rancor que o conservadorismo tem com o Marxsismo/materialismo é que a função deste é explodir as engrenagens enferrujadas do outro. Daí, exposto o caráter funcional quase absurdo, (quase um caráter psicossomático, na minha opinião...) a imagem do duplo refletido no espelho assusta.

Só que ao invés de levar o cidadão a repensar sua vida, muitas vezes leva a uma reação contrária, religiosa e violenta.

Muitas vezes, a própria postura marxsista leva o sujeito a perceber sua própria alienação. Mas ao invés de ele entender isso como parte do caráter sistêmico da sociedade que ele faz parte, portanto, sendo normal reconhecer-se alienado para que se possa criticar com mais propriedade e clareza, o sujeito parece tentar justificar-se e reafirmar a própria alienação como algo religioso.

Daí é aquela coisa: o sujeito que sempre foi de esquerda, de repente pregando tudo como de direita como se essa fosse a resposta e não a crítica à esquerda podre e à direita. E como vemos, essa atitude "bandeirinha", além de ser maniqueístamente conflituosa, revela uma deformação política que fica martelando na cabeça do próprio sujeito que fica repetindo quase como uma ladainha religiosa esse seu "novo" ponto de vista como "verdade" que ele vê por deixar de ser cego.

Isso a gente podia chamar de efeito Soninha Francine, na minha opinião.

A gente pode pensar nessa citação de Bolaño e tirar as conclusões de qual posicionamento faz mais sentido. (numa tradução bem porca) Bolaño, a respeito de seu posicionamento político, comentando que não gostava d': “a unanimidade sacerdotal, clérica, dos comunistas. Sempre fui de esquerda e não iria virar de direita por que não me encantava com os clérigos comunistas, então virei trotskista. Acontece que logo, enquanto estive entre os trotskistas, tampouco me encantava a unanimidade clerical dos trotskistas, e acabei virando anarquista […] já na Espanha encontrei muitos anarquistas, e comecei a deixar de ser anarquista. A unanimidade me incomoda muitíssimo.


O original pra quem quer ler: "la unanimidad sacerdotal, clerical, de los comunistas. Siempre he sido de izquierda y no me iba a hacer de derechas porque no me gustaban los clérigos comunistas, entonces me hice trotskista. Lo que pasa que luego, cuando estuve entre los trotskistas, tampoco me gustaba la unanimidad clerical de los trotskistas, y terminé siendo anarquista [...]. Ya en España encontré muchos anarquistas y empecé a dejar de ser anarquista. La unanimidad me jode muchísimo"

terça-feira, 6 de março de 2012

Minha Tristeza Claustral


Agambem atribui a uma releitura patrística da literatura medieval a respeito da dupla polaridade da tristeza-assídia (preguiça) como uma revalorização do sentimento atrabiliário nos valores renascentistas e daí, uma espécie de tradução na melancolia característica a tantas formas de artes, como o famigerado spleen de Baudelaire. Agambem diz, referindo-se à natureza clérica dessa melancolia medieval, que “submetida a um gradual processo de moralização, se apresentava, por assim dizer, como a herdeira laica da tristeza claustral.”

Ora, às vezes me pergunto qual a minha necessidade extrema de me esconder. Como não há muito o que acrescentar (a não ser que leiam o ensaio sobre o demônio meridiano do G.A.), gostaria de descrever minha própria tristeza claustral: é um sentimento físico, quase como se o silêncio te rodeasse. Então qualquer ruído é uma violência, uma agressão. Não é a mera imersão em si mesmo, mas um movimento de reconhecimento de si. De repente, tudo no seu corpo começa a funcionar e se retrair, há um movimento do intestino (quando eu era criança o resultado era óbvio), e o remeximento da famigerada bile (que digam os médicos da antiguidade, eis sua prova!). A tristeza é muito parecida com um orgasmo, os pelos se arrepiam, o corpo se retrai, e muitas vezes há a ereção. A cabeça então funciona e de repente você vê a solução para todos os seus problemas e, como se o demônio meridiano lhe amordaçasse uma indisposição imensa para percorrer o caminho que levará à felicidade lhe abocanha e não lhe resta nada senão sonhar.


sexta-feira, 2 de março de 2012

Uma breve reflexão sobre a mente de P. I


Thomas Pynchon publicou Gravity's Rainbow em 1973, deve ter escrito durante os 60.

Margaret Thatcher subiu ao poder em 1979 e proferiu o seu slogan favorito, o TINA (There Is No Alternative), para referir-se à crise iminente da ideologia com oportunismo e criar eu, você e todo mundo com 30 anos ou menos nesse mundo cocô que a gente vive.

Nos anos 90, com a derradeira queda do "comunismo", Fukuyama proferiu uma espécie de variação com a famigerada "fim da história".


Em 73 Pynchon era um hippie quase na meia idade que escrevera livros palavrosos demais, imagéticos demais, verborrágicos demais (a.k.a. cheio de informação tipo uma coisa chamada internet, conhece?). Mesmo assim Gravityt's Rainbow se tornou um clássico instantâneo. Por que? Muitas razões, mais uma delas eu gostaria de apontar. Nos primeiros parágrafos (deve ser no 13o., 14o.), o antepenúltimo antes do fim da introdução do livro que nos mostra uma grande massa de pessoas, numa espécie de realidade alternativa de destruição pós-guerra, sendo afuniladas em sua fuga a uma prisão maior, um paradoxo da fuga para o aprisionamento; nesse parágrafo Pynchon nos apresenta o assunto do livro e as 5 primeiras palavras são:


There Is No Way Out.