quinta-feira, 26 de abril de 2012

As Estrelas São Indiferentes à Astronomia.


O show do Nada Surf ontem, 25/4/2012, no Cine Joia em São Paulo entrou no rol dos cinco melhores da minha vida. Ora, dirão vocês, mas banda da adolescência que tem o verso que define sua vida (que é “I'm just a happy kid stuck with the heart of a sad punk” by the way...) não vale, Daniel. Ora ,digo eu, além das milhões de explicações, uma vigora: o show foi foda.
Ora, dirão vocês, mas daí não explica nada!
Então eu explico:
O show do Nada Surf foi foda por muitos motivos: iluminação ótima, som bem audível, casa boa, público animado, repertório grande e abrangente, etc. Só que tem uma coisa que, sem ela, nem a banda mais profissional com trocentos anos de estrada e um fodilhão de fãs pode fazer um show simplesmente foda: o tesão.
Sim, e isso não faltou. Os já “tiozinhos” do Nada Surf entraram no palco com um sorriso no rosto, um instrumento na mão e uma vontade enorme de tocar. Esse é o grande trunfo das bandas independentes de verdade (e que continuaram assim) que surgiram nos anos 90: a vontade. Posso citar algumas destas bandas que são monstros cultuados por todas as bandas “indies” que a maioria do povo ouve: Superchunk, Guided By Voices, Teenage Fanclub, Grandaddy, Dinosaur Jr., etc. Algumas delas tocaram, ou tiveram membros tocando, no Brasil para públicos pequenos, bem menores do que os das bandas que influenciaram. Essas bandas nasceram com a vontade de bandas de estádio, ouvindo estas bandas e tocando covers delas. Então quando se veem diante de um público de umas 600 pessoas insanas como o show de ontem, eles simplesmente tocam como se tocassem nos estádios como as bandas que os influenciaram. Com a diferença que a proximidade é sensacional.
Fora isso é impossível descrever a sensação de empatia que ocorreu entre os nova iorquinos e público sem recorrer a este emblemático termo: foi foda!
Sem mais.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Canção do Sal


Externa
Fratura das córneas
Modalidade
Canção do sal
nos olhos, a
ardência
a glande do ócio
o amor de ver
seu olho
Escuro
Fratura do sexo
Canção do sal
gosto de
o amor do ócio
vagina exposta
Canção das córneas
Modalidade
Córneas da glande.
Vagina e sal
o amor e ver
Fratura exposta
Modalidade
Escuro
Canção do ócio
O amor no sal
Modalidade
Canção da glande
O amor do escuro
Vagina e sal
Externa
fatura e ócio
Canção do pau
Fratura e ócio
amor e
Canção do

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Dieu Est Mort!


Já faz alguns anos o Carioca Club vem sendo utilizado para shows de médiosporte, especialmente de bandas de metal e punk rock. Não é difícil de imaginar o por quê. Localizado em Pinheiros, o clube que originalmente foi criado para bandas de pagode e samba, o que explica a pista de tábua ( e o motivo principal de os shows de rock quase nunca serem em sábados),  além da excelente localização perto de metrô, trem e ônibus em ponto de convergência de várias regiões, o local oferece uma estrutura que permite os produtores trazerem essas bandas médias com mais frequência sem ter de sofrer grandes riscos de déficit financeiro por falta de público. Além do mais, o local oferece um palco extremamente visível e uma acústica razoável, o que no caso do show do Opeth foi a única desvantagem, visto que o instrumental complexo do grupo ficou difícil de discernir nas músicas mais pesadas, o que é uma pena, mas que não estragou o brilhantismo da noite.
Segunda passagem no Brasil, o único show no país, o Opeth chegou para divulgar o seu mais recente disco, Heritage, que levou o som da banda a uma sonoridade que se aproxima do classic rock, com muitas pitadas de stoner, teclados hammond e riffs de guitarra em pentatônica ad nauseum. Sem mencionar, é claro, as letras mais do que simbólicas sobre a história da banda e o (possível?) abandono dos vocais urrados para os próximos trabalhos.
E é isso que marca grande parte do show dos suecos. Apenas quatro das doze (isso mesmo, doze, as músicas longas e climáticas fizeram com que o show, apesar das duas horas, tivesse um repertório “pequeno”), as canções executadas ressoavam no estilo que os fez conhecido, essa harmonia refinada entre o heavy metal mais pesado com as passagens engenhosas instrumentais (o bate bola de violões folks e guitarras complexas que é característico da guitarrística de Mikael Åkerfeldt).
As canções limpas predominaram, principalmente no repertório do disco em divulgação. Alguns fãs mais fervorosos se enraiveceram dos vocais limpos e chegaram a soltar a ofensiva e estúpida exclamação: “toca música de macho!”, mas a banda, seguindo o protocolo, tocou o repertório que vem sido executado durante a turnê inteira, apesar da insanidade ensurdecedora dos pouco mais de mil metaleiros presentes. solicitando as mais diversas músicas. Aliás, apesar do preço acessível e da casa menor, o Carioca Club não lotou de fato, apesar de ter ficado bem cheio.
Gostaria de fazer uma observação sobre o público. Os fãs de metal são um gênero a parte nas casas de show. O público brasileiro (e sul-americano em geral) é um grande trunfo para o gênero musical em questão, pois não só comparecem a todos os show, mas prestigiam com grande excelência e insanidade seus ídolos. É quase um culto religioso de uma adolescência que nunca acaba, pois se acabar o metal não faz sentido. Mesmo bandas mais complexas e, digamos, adultas como o Opeth, que sempre escapam das eternas listas classificatórias do estilo (é incrível como existe adjetivos para o termo metal, Black, True, Gothic, Sludge, Death, Prog, entre outros), ainda assim fazem parte de uma espécie de clã onde apenas a catarse da total devoção de seus súditos. É um fenômeno que sempre me deixa curioso, principalmente com bandas que se afastaram da metaleza de seu som para algo mais novo (o que chamam por aí de post-metal, ou só progressivo mesmo pela complexidade estrutural que fica implícita), como o Anathema, o Pain of Salvation e o próprio Opeth, que tem seu passado sempre no encalço, fazendo com que fãs, como o mal educado citado acima exija o passado materializado ali num saudosismo irritante até. Não é à toa que Anathema tenha feito discos regravando suas músicas mais pesadas do passado adequadas a sonoridade mais atual da banda.
No entanto, esse é o público que impaciente, apesar do aviso de adiamento de meia hora devido à exaustão da banda que tinha vindo de um show em Buenos Aires no dia anterior, gritava Opeth com muito afinco. Mikael soube aproveitar esse público. Fazendo piadas e distribuindo palhetas, o vocalista, guitarrista, compositor e alma da banda soltava piadas sobre a demora da afinação, sobre a última passagem da banda por aqui e a goteira que caía no palco, e o tempo inteiro brincando com o baixista Martin Mendez, único integrante da formação clássica da banda, até sobre a sua ascendência uruguaia e as relações do grupo com a América do Sul (o antigo baterista tendo nascido no Brasil e, assim como Mendez, ter sido um dos muitos imigrantes sul-americanos na Suécia). Mikael também soube aproveitar a animação do público para fazê-lo cantar o tempo todo e até mudando o tradicional sinal de chifrinho das mãos levantadas para o punho em riste que, segundo Åkerfeldt, era o que se fazia em 1978, quando o Rainbow brilhava, e Ronnie James Dio, o homenageado na canção de speed rock Slither, composta à época da morte do lendário vocalista (o único tão adorado quanto Ozzy no Black Sabbath). Dio, disse Åkerfeldt, foi quem inventara o chifrinho, dizia ele, mas o clima que queria era o clima do rock setentista. Com sucesso, pois não só o público continuou com o punho em riste até o fim do show, como toda a atmosfera permaneceu assim por quase todo o show.
Quase.
Mas falemos do show então. Abrindo com Devil's Orchard, Åkerfeldt deu o moto principal da noite: “God is dead!”. Cantado em coro, o refrão me pareceu deliciosamente irônico no primeiro dia da semana santa. Logo depois, ainda em Heritage, tocaram a enigmática I Feel Dark. Depois uma pequena seção mais calma com a belas Face of Melinda só para culminar na agitada Slither mencionada acima. Duas músicas muito festejadas pelo público foram Windowpane, do disco Damnation que também só possui vocais limpos, e a dramática Burden, também do Heritage. O álbum novo predominou com cinco das doze músicas do repertório (Watershed teve duas enquanto Still Life, Deliverance, Damnation e Blackwater Park, apenas uma. Os outros dois discos nenhuma), com The Lines in My Hand e Folklore encerrando a parte “calma” do show, explicando o “quase”.
Mikael então anuncia que irão tocar uma parte do Opeth que ainda não havia sido mostrada aquela noite, “uma mistura interessante de foxtrot com tango”, brinca, descontraindo para a pedreira das excelentes Heir Apparent e The Grand Conjuration, e terminando o set principal com a simbólica e festejada Drapery Falls (literalmente “as cortinas caem”, com um melodrama a mais se traduzirmos como “as cachoeiras de pano”), única do disco que ainda é uma unanimidade como a obra-prima da banda, Blackwater Park. No bis, como não poderia deixar de ser, o Opeth vem com Deliverance a tétrica canção de treze minutos que termina com o cadenciado riff de guitarra e a letra “libertação, rindo de mim...”, o que para mim é um final perfeito.
Essa é a mensagem que o Opeth tenta nos trazer, a libertação de suas amarras sonoras rindo deles mesmos com o passado gritando enquanto as corinas caem: Deus está morto. Seró o próprio deus de seus fãs, o próprio Opeth? Aguardemos o próximo disco. E a próxima turnê.