segunda-feira, 14 de maio de 2012

Sons da Minha Caixa Torácica.








Houve um determinado momento no show do Mogwai em que literalmente os baixos da caixa de som nos empurravam para longe. Sem brincadeira, eu senti o vento emanado pelo boost destruidor como nunca senti em nenhum show de banda de metal, o mais pesada que fosse. Foi um momento surreal onde senti a banda tocando dentro da minha caixa torácica. Não, não se empolguem com uma imagem bonitinha de a banda estar tocando no meu coração. Não. Era físico. Meu coração já tinha implodido faz tempo. É inexplicável. Seria preciso estar lá. Em determinado momento precisei me focar em imagens e gestos para não deixar que a música me arrastasse para longe dali. Não, não internamente como uma viagem psicodélica, mas sim fisicamente com o poder dos decibéis vibrando o ar. Sim. Olhava para trás a procura de alguém conhecido. Nunca me senti tão sozinho comigo mesmo como naquele momento. Foquei em pequenos detalhes: as luzes do palco, os vídeos esporádicos, os gestos que as pessoas faziam, a menina bonita na minha frente. Não adiantava. Olhei para as guitarras e os rostos quase impassíveis que as empunhavam. De vez em quando, um sorriso de aprovação pelos membros da banda ao invés de me fazer sentir em terreno seguro me causava uma euforia tão gigantesca que eu firmava ainda mais meus pés no chão com medo de dobrar os joelhos em posições dolorosamente esquisitas. Mas enfim acabou. Quase uma hora depois, cordas quebradas, microfonias e distorções mil, finalmente as luzes se acendiam e eu sentia como se quisesse mais. Poucas vezes na vida fui à shows que me arrebatassem tanto. Não gosto de beber em shows por que quero que a sensação violenta que a bebida causa seja causada pelo som da banda que vou ver. Quase nunca o efeito é cem por cento. Com o Radiohead foi assim. Com o Mogwai também. Difícil dizer. Muitos me crucificaram por ter ido ao Sónar apenas para ver a banda escocesa, mas eu pergunto: como assistir qualquer outra coisa?

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Adriana Armony - Estranhos no Aquário


Foi difícil falar sobre Estranhos no Aquário de Adriana Armony. Por uma razão simples: não consigo decidir se gostei ou não do livro.
Talvez essa seja a característica mais marcante do romance: ele é irregular, talvez não na sua feitura, mas no seu efeito incial.
A história. Um garoto sofre um acidente na virada do milênio e perde as funções motoras e a memória recente. Afásico, ele irá se recuperar durante as peripécias do romance. Os pontos de vistas definem os estranhos: a mãe que se embrenha no doutorado sobre Espinosa; o pai médico que foi ausente e indiferente nos últimos anos; o rapaz ferido entre intervenções em primeira pessoa da cabeça dessintonizada dele (aliás, as melhores partes) e narrativas comuns. Ocasionalmente narrativas dos coadjuvantes que dão o desenlace da problemática.
No todo, o romance da autora carioca, autora de dois outros romances (Judite no País do Futuro e A Fome de Nelson, ambos publicados pela Record), tem a sua coesão na temática, na estrutura e na história, mas há algo ali que não casa totalmente.
Não é uma crítica negativa. Há momentos em que nos empolgamos a valer na narrativa, mas acredito que o projeto filosófico da escritora às vezes quer sobrepor ao projeto romanesco. Não levem a mal, mas por vezes as narrações soam fakes ao ponto de perdermos a ilusão de que estamos naquele romance e não numa ilustração de um debate sobre Espinosa. Em certos momentos há a impressão que o romance descambará num simplismo um tanto maniqueísta, o que se percebe ao final como inverdade ao vermos o uso que autora se faz de motivos machadianos. O que me faz pensar se talvez numa releitura eu descubra pequenas armadilhas intencionais.
O importante é que o romance cumpre a que veio. Com certas ressalvas é um livro interessante e boa dica para quem procura autores nacionais. Vale a pena das 200 páginas.


Poema 13


Foda.

Te chutamos a boca
Teus dentes voaram
Eram miríades de sangue

Te chutamos a cabeça
Eras um Bobblehead Bufônico
Tuas orelhas, gangorras

Ri agora, filho da puta.
Dissemos,
Desdentado, obedeceu

Sentimos os ossos e
O estraçalhamento do couro
com couro
das nossas botas
Contato
Teu corpo era só carne
E a carne é amor
O contato é sexo

Te surramos como fodemos nossas garotas

Agora temos que te enterrar.





Imagem: Travis Smith