sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Reflexões Sobre a Importância dos Nomes, parte I – Vermelho Amargo.




Reflexões Sobre a Importância dos Nomes (os livros do prêmio são paulo de literatura 2012)
A morte e o corte

Eu gostaria de fazer um filme de Vermelho Amargo de Bartolomeu Campos de Queirós. Não conheço nenhum outro livro de sua obra, mas não sei se preciso conhecer. Talvez sim. Talvez não. Se este não fosse seu último romance, se Bartolomeu tivesse vivido para ver ser indicado ao prêmio, se não maior, o mais bem remunerado do país, talvez eu começasse estas reflexões de forma diferente. Talvez eu tivesse contextualizado sua obra, partindo do fato que Vermelho é um romance autobiográfico como é indicado na biografia de Queiroz ao fim da bela edição da Cosac & Naiffy. Mas talvez não importasse.

O que importa é a morte.

Bartolomeu morreu em Belo Horizonte no início deste ano aos 67 anos de idade assim como o corte de seu último romance. 67 anos é muito tempo que se traduz em um piscar. Já 60 e poucas páginas são muito breves para o que se traduz numa vida.

Toda autobiografia é um espelho. Todo autobiografado tem um doppelganger de tinta preta (ou vermelha) a lhe rir da própria autoindulgência de se contar. O narrador de Vermelho Amargo mente e assim o diz nas primeiras palavras do romance. Mentir é também espelhar-se com palavras de dobra. Mentir é ausência pela presença. A presença da ausência que o Vermelho nos diz no livro.

Quando dum almoço o jovem Antônio Cândido sugeriu a um já velho e cansado Oswald de Andrade que escrevesse suas memórias, o poeta miramar de pinto calçudo fez o que soube de melhor: troça. Um Homem Sem Profissão é a anedota de sua vida jovem, o verdadeiro Retrato do Artista Quando Jovem e Inconseqüente. Mas Oswald não tinha espaço para conseqüências. Morreu logo depois de publicar o primeiro livro de uma série de cinco. A velhice não parece lhe cair bem.

Tem alguma coisa na infância de ausência que se faz presente.

Graciliano, não o cronista de sua própria prisão, mas o prosador de sua meninice talvez dotasse às memórias de Bartolomeu Campos de Queiróz mais semelhança. Prosou do verdadeiro tempo o qual nunca se libertou. A seca, as pessoas, a carne tostada da mulher queimada no incêndio acidental

O que importa é a morte.

E o corte.

O cinema é corte. Por isso faria um filme de Vermelho Amargo. Gostaria de fazer sentir o cheiro da carne queimada da infância de Graciliano na carne que foi o menino narrador deste romance.

Agudeza.

Poesia é agudeza, é a faca que corta o tomate vermelho e amargo e as agulhas da irmã do narrador. É o vidro mastigado e a dor, a dor, a dor. O amor amora que é aroma. Cortes. Em pequenos cortes Bartolomeu narra morte. A morte de sua mãe. A morte de sua família. A sua própria morte. Se lê tudo num corte. É uma pequena morte, certeza...

Cinema é corte, mas também é movimento como a morte.