quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Sinfonia do Reino do Luar

Wes Anderson trabalha Moonrise Kindom como se regesse uma sinfonieta. A sinfonieta de Purcell ou a suíte de Desplat lhe servem como metáfora para a estrutura de seu filme. Um sinfonia, para quem não sabe, é um conjunto de peças musicais que, ligadas pelos mesmos motivos musicais (sejam eles melodias, tonalidade musicais, temáticas ou até efeitos narrativos como na Sinfonia Fantástica de Berlioz) integram uma única estrutura musical. Geralmente a sinfonia é dividida em quatro movimentos (as peças musicais separadas, embora algumas sinfonias não façam pausas entre estas), são eles: 

          um primeiro movimento introdutório no qual os temas principais serão apresentados. Este movimento é marcado pelo seu andamento rápido, porém de caráter mais vivo do que ágil. O primeiro movimento é marcado, até por ser uma introdução aos trabalhos da sinfonia, principalmente pela sua complexidade estrutural; 

          o segundo movimento é quase por regra um movimento lento, podendo ser um adágio (movimento com mais característica de canção sendo, como a palavra diz, um lamento) ou um largo (andamento que reproduz um tom mais marcial e tétrico ao movimento, geralmente usados para temas mais religiosos ou contemplativos). 

       o terceiro movimento é, em geral, o famoso scherzo que em italiano quer dizer simplesmente "brincadeira". O scherzo ou outros variantes do terceiro movimento requerem andamentos ágeis e melodias se não mais leves, mais ansiosas. O terceiro movimento é uma espécie de descarga emocional da complexidade e profundidade de seus antecessores.

         o quarto movimento é o movimento final. Na sinfonia romântica isso significa a apoteose da sinfonia, o lugar onde todas as suas temáticas irão se encontrar num arroubo musical. Geralmente, assim como no primeiro movimento, o andamento é rápido e vivo e menos ágil que o terceiro movimento e seu presto (rápido em italiano). Um ótimo exemplo é o da Sinfonia Novo Mundo de Dvorák.

Há, obviamente, variações mil desta configuração, mas esta é a sinfonia clássica, criada no classicismo e elevada no romantismo. A estrutura é bem visual. Uma sinfonieta seria uma pequena amostra desta estrutura. Em Moonrise Kingdom, sua metáfora é essencial.

No teatro clássico há também a divisão de sua estrutura em atos. São cinco e representam: a introdução; a apresentação do conflito e sua ascensão, o clímax, a ação reconciliadora e o denouément, o esvanecer do conflito com as considerações finais.

Nesse sentido Wes Anderson situa Moonrise Kingdom em esquemas bem clássicos narrativos. De forma que a estrutura é simples e singela, mas a história é poderosa. A sinfonieta que já citei acima resignifica todo o movimento musical da sinfonia sem de fato descaracterizá-la. É como se buscássemos o maior pelo menor.

Em figura de linguagem podemos chamar isso de metonímia, a parte pelo todo. Moonrise Kingdom é metonímico. É o filme que ambienta todos os filmes de Wes Anderson de uma vez só. Ele o faz através da estrutura simples tão didática e amorosa quanto às explicações dadas pelo pequeno vinil que nos ensina a dividir às famílias de uma orquestra. A divisão clara da estrutura reconfigura todos os elementos estéticos trabalhados pelo diretor até agora: o estranhamento, o ludismo e o simbolismo quase naturalista dos elementos do mundo para com o mundo.

Estética indie, muitos diriam. Em Life Aquatici, Wes foi mais corajoso estruturalmente. Um filme remendado até, mas brilhantemente. Em Moonrise Kingdom e seus 90 minutos Wes se vale do mais simples, do mais banal para fazer sua obra prima até o momento: uma história de amor clássica entre desajustados perdidos numa ilha qualquer, tendo o mundo como o adversário.

Wes consegue se superar ao mostrar domínio da estrutura ao ponto de transformá-la na singeleza do filme. A estrutura familiar, social e hierárquica de uma ilha que não tem nada mais do que pessoas para fazê-la girar. Nada importa, nem raios podem derrubar, se essa estrutura não significar nada mais que o bom e velho amor.