sexta-feira, 9 de novembro de 2012

The Lass of Aughrim.



(Nora - 2000 - Pat Murphy)

Todo bom filme britânico tem um roteiro amarrado em estranhamentos causadas pelo polido silêncio dramático bem característico da ilha.
Este filme não é britânico, é verdade, mas assim como Joyce, tomou as formas de seu colonizador como suas para expressar seus próprios sentimentos.
A Irlanda é, no entanto, como o próprio Giacommo a descreveria, um país paralisado no seu próprio medo. A Irlanda é Eveline na barreira do porto olhando seu futuro como um animal acuado; é o murmúrio frustrado de Araby; é a confissão matutina semiconsciente que traz Os Mortos de volta, senão à vida, ao cenário: em paralisia.
Pontuado pelos vários temas de que Joyce se vale no seu “Gente de Dublin” (o bom e delicioso Dublinenses como é conhecido em Portugal, de onde a legenda do filme que vi ontem provinha), Nora se passa na morosidade ansiosa destes anos de produção do primeiro livro do autor irlandês. O ponto de vista é o de Nora Barnacle. Seu silencioso e paralítico amor pelo filho mais exilado/amado da Irlanda. A linha reta é tênue, mas se mantém nos silêncios. Um cronológico breu de palavras entre 1904 e 1913.
O drama é simples, porém perene. Não se rende aos melodramas. Joyce é um bêbado atormentado por fantasmas como gafanhotos apocalípticos pululando das palavras que o atormentam. Nora é a simplória e inteligente arrumadeira que fode sem medo. Aliás, o sexo é o caminho entre a paralisia e a morte total. A fuga perfeita da grande Ilha para a Ilha de Nora. O filme se sustenta nessas sutilezas do amor pleno que há entre Nora e James. É irrefutável. Qualquer um que disser o contrário nunca entendeu o que é amor.
O filme é bom, sem ser ótimo. Há pequenas falhas, pequenas vulgarizações que nem valem a pena comentar. A trilha sonora é linda. De fato, as canções irlandesas enchem o silêncio com mais silêncio belo. A canastrice d’um Ewan McGregor cantor imediatamente pós-Moulin Rouge aqui parece certo. Como a canastrice do próprio Joyce, sua inabilidade musical e seu orgulho ferido. O Joyce de McGregor é um pouco canastrão demais, o que é bom, mas talvez bonito e sedutor demais, o que já não me agrada tanto. Susan Lynch, a Nora, está perfeita. Seus grandes olhos castanhos não mentem. Seus gemidos dizem mais que as palavras roubadas de Joyce para incrementar o roteiro. Talvez a canção The Lass of Aughrim, interpretada pelos dois, Joyce e Nora, Ewan e Susan, seja uma das coisas mais belas que eu já vi.