terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Do Amor


Liguem o Barry White e abram as garrafas de champanhe que este blog falará sobre o amor. Sim, por que o amor permeou o cinema de grandes diretores nos últimos dois anos direta ou indiretamente. O amor inspirou algumas das mais belas histórias que já nos foram contadas e este blog se disponibilizou a refletir sobre sete desses filmes, cinco já lançados, dois ainda a serem reproduzidos nas salas de cinema do mundo.
Este blog se reserva o direito de comentar dois filmes ainda não vistos pela pessoa que vos fala pelo simples fato do prazer da narrativa deste texto (e é claro uma escolha pessoal por que não?). Este blog também se reserva o direito de adotar uma linha narrativa não muitas vezes coerente com padrões numéricos ou organizacionais, mas sim conceituais, para que os objetivos deste texto que não são nada mais que a tentativa sutil de falar sobre o amor, artigo tão raro e tão mal compreendido quanto superexpostos nas milhões de mídias que temos hoje em dia, sejam atingidos.
Dentre os nomes ilustres estão Noah Baumbach, Paul Thomas Anderson, Abbas Kiarostami, Terrence Malick, Michael Haneke, Spike Jonze e Lars Von Trier. Todos eles diretores renomados e assim o são, devemos lembrar, por histórias que, bem, certamente não figurariam o Ben Stiller sendo fofinho. *1
Por que então escolher sete diretores tão diversos entre si que sua única semelhança é ser controverso e por muitas vezes macabros ou obscuros em suas histórias? O porquê está nos comentários a seguir.

Frances Ha, de Noah Baumbach (2012).

O filme é uma história de amor, embora ninguém se beije ou faça amor. É a história do amor esquisito, ou amor moderno como a música de David Bowie sugere na narrativa do filme, que a protagonista Frances (Greta Gerwig) nutre para com sua melhor amiga Sophie (Mickey Summer). Sophie é a melhor roommate, a melhor amiga, a melhor tudo. Sophie vai embora e Frances fica perdida em Nova York tendo que crescer a força. Frances só vai superar sua insegurança quando superar seu amor por Sophie e aprender a amar de verdade.

O Mestre (The Master), de Paul Thomas Anderson (2012).

O amor grego é o amor aqui. O bromance mais bonito da história do cinema. O sacerdote Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), uma espécie de paródia ao inventor da cientologia, L. Ron Hubbard, encontra pelo caminho a Força Incontrolável da Natureza Freddie Quells (Joaquin Phoenix) e se encanta pelas bebidas caseiras nada ortodoxas que o veterano da marinha perdido no mundo sabe fazer. Numa espécie de narrativa pynchoniana (com trilha radioheadiana de Jonny Greenwood), o diretor P.T.A. nos leva pelos anos de relacionamento entre protetor e protegido sem nunca nos revelar de fato quem é quem. Porém, fica claro que Freddie Quells que nunca consegue se assentar em nenhum lugar é o Aquiles em eterna hubris e Lancaster Dodd é seu fiel Patroclo em eterno sacrifício. O Mestre aqui é aquele que não sente culpa de não se refrear diante do amor que sente. O amor de viver incondicionalmente atropelando tudo. O que Freddie, em atuação brilhante de Phoenix, sempre demonstra é a certeza de seguir em frente em seu destino. O ensinado é o sacerdote que no fim só encontrou deus no amor fraterno e sincero a esta força incontrolável da natureza e não na racionalidade de sua religião. A religação só existe no espiritual. E o amor é o que mais há de espiritual.

Um Alguém Apaixonado (Raiku Samuwan In Rabu), de Abbas Kiarostami (2012).

Em Embriagado do Amor, P.T.A. já desenvolve um pouco o conceito d’A Força Incontrolável da Natureza ao nos transportar para a experiência sensorial de alguém apaixonado com sua trilha esquizofrênica, jogo de luzes cegante, surpresas inesperadas. O diretor iraniano Abbas Kiarostami faz isso a seu próprio estilo nessa fábula que tem um quê de filme de terror. Só que ele o faz através do silêncio que o medo de perder violentamente a quem se ama proporciona pra quem o sente. A jovem prostituta Akiko (Rin Takanashi) se envolve com ternura com um cliente mais velho, o tradutor idoso Takashi (Tadashi Okuno). Após uma noite de sonhos intranquilos (pra usar o clichê mesmo), o carinho estranhamente paterno que ele nutre por ela o faz protege-la de todos os meios que possui de seu namorado violento (uma outra representação d’A Força Incontrolável da Natureza) Noriaki (Ryô Kase). Obviamente, tudo pode dar errado.

Amor (Amour), de Michael Haneke (2012).

A Força Incontrolável da Natureza é o amor que perdura também. Os octogenários Anne e Georges são a construção perfeita do amor. Até que Anne sofre um derrame e lentamente definha para o inevitável. Haneke entre planos claustrofóbicos desenha para nós o apartamento dos últimos dias do amor do casal. Georges está sozinho e o amor solitário não é amor, é sacrifício. A Força Incontrolável da Natureza é perdurar, mas também é libertar. O amor aqui é a vida e a morte. A decisão de Georges é que vai provar seu amor e dar ao título do filme todo o significado. O que é o amor diante da Força Incontrolável da Natureza?

Amor Pleno (To the Wonder), de Terrence Malick (2012)

O que é o amor diante da Força Incontrolável da Natureza? Segundo Malick é o Maravilhamento (o to the wonder, rumo ao maravilhoso do título original).  Um casal de estrangeiros (Neil (Ben Affleck) em Paris conhecendo-a, Marina (Olga Kurylenko) vindo morar nos EUA com ele, conhecendo-o) se desencontra no amor. Ele analisa riscos para casas, mas não encontra a casa que quer ter (os planos de casas vazias, a desolação, as paisagens). Ela não tem casa mais, pois se desraigou para ele (sempre pulando). Ele encontra outra, Jane (Rachel McAdams) que não o encontra. O amor é a natureza dele que é errática, uma rima do Freddie Quells de O Mestre. Contra o dia, como sugeriu uma vez André de Leones, também citando Pynchon. Não há casa que não tenha riscos no caminho do Maravilhamento. A casa de Deus tbm é uma Força Incontrolável da Natureza. Malick discutiu Deus em Árvore da Vida. Em Amor Pleno ele o discute através da sua falta. Mas a falta de Deus no padre (Javier Barden) que o procura também é a falta de Deus na procura eterna pelo Maravilhamento que é o Amor Pleno que o título em português sugere. O que é o amor pleno? Por que cavalgamos a força incontrolável da natureza e gastamos nosso amor fraterno, nosso amor moderno e todo o resto em busca dele?

Ela (Her), de Spike Jonze (2013)

Joaquin Phoenix de novo. De bigode. Freddie Quells de novo? Dessa vez um Freddie Quells às avessas. Theodore (Phoenix) é um escritor solitário que encontra conforto e amor em Samantha, a Inteligência Artificial com a voz de Scarlett Johansson que o acompanha pela história. Spike Jonze parece mostrar que aprendeu muito com o Charlie Kauffman sobre roteiros esquisitos, e sobre o amor em situações impossíveis e estranhas. *2 O que Jonze vai nos dizer sobre isso só saberemos no dia 17 de janeiro quando estreia o filme por essas praias, mas pensando na trilha do Arcade Fire, que utiliza músicas de seu último disco que é praticamente todo baseada em  Orfeu e Eurídice é que, como na lenda, o amor como Força Incontrolável da Natureza pelo Maravilhamento da música (ou da voz da Eurídice/Samantha) e do enfrentamento do inferno (depressão) pela amada ressoa os outros filmes já mencionados.

Ninfomaníaca (Nymphomaniac), de Lars Von Trier (2013).

Daí é Lars Von Trier. E Lars Von Trier é todinho a Força Incontrolável da Natureza versus o mundo real (leia-se a realidade instituída como real). No caso específico estamos falando do Maravilhamento pelo orgasmo. Na humilde opinião deste blog o orgasmo não é um Maravilhamento tão diferente da música, da voz, da fraternidade ou de Deus. Na verdade, o orgasmo, assim como os outros Maravilhamentos já citados, é o caminho mais certeiro para Deus. Deus sendo o próprio Maravilhamento. O Maravilhamento sendo o êxtase de ser humano, e ser humano como a Força Incontrolável da Natureza de amar. Até a morte. Até a exaustão física, até o sem fim. Joe (Charlotte Gainsbourg) conta a Seligman (Stellan Skarsgård) a história de sua vida sexual (elenco estelar gigantesco) como ninfomaníaca autodiagnosticada que é.  Temos que esperar dia 10 de janeiro para saber o inevitável: este filme é amor.


1.       Embora um deles inclua em um de seus filmes um Adam Sandler sendo impossivelmente Adam Sandler. (ver Embriagado de Amor)
2.       Embora Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças seja do Michel Gondry,  este blog se reserva o direito de presumir que a parceria Jonze/Kauffman (Quero Ser John Malkovich, Adaptação) pode muito bem ter dados frutos para Ela.



quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Amor Moderno












Quando Frances Ha gira, gira, gira ao som de Modern Love o diretor Noah Baumbach resume o filme. 
Obviamente há muito mais a se dizer, mas cinema muitas vezes é não palavras. O estatuto de uma obra de arte é algo paradoxal por ser limítrofe e sem limites ao mesmo tempo.
Ainda bem.
Há tempos escritores tentam dar conta em palavras (ou coisas semelhantes a palavras) de tudo aquilo que constitui outras formas de arte.
Exemplo: na cena citada, a música de David Bowie possui uma letra que é parte narrativa do filme, como no “estranho” bromance que Frances tem com sua amiga Sophie. A canção possui um verso que diz que esse “amor moderno” faz a pessoa, que “nunca irá cair” pelo próprio, chegar “na igreja na hora”, um paradoxo de como as possibilidades criadas na junção de meios (música, cena, (não) palavras) produzem certo efeito narrativo que não é narração e é ao mesmo tempo em que é sensação.
Beleza pura poderia se dizer, pois, no fundo, tudo é técnica. São as palavras não vistas de Greta Gerwich, a Frances,  traduzidas para nós nos seus rodopios capturados pela lente de Baumbach (dono de algumas das não palavras do roteiro também), seu tratamento, sua cor, seu movimento. Movimento que emula as sobreposições artísticas, como num tributo a Nouvelle Vague que nos ensinou sobre camadas.
A montagem de uma cena de cinema também é como uma montagem de uma música como a de Bowie. Os acordes falados pelos instrumentos e as não palavras ditas pela batida ritmada e condizente da bateria é o que é análogo ao paradoxo de possibilidades que vimos na cena que resume, em minha opinião, o filme.  Se juntarmos paradoxo mais paradoxo temos um milhão de possibilidades. Possibilidades? Sim esse é o amor moderno sem fim. Em rodopio eterno.  
Frances Ha é, então, sobre possibilidades. Uma garota de 27 anos em Nova York e as milhões de possibilidades pra continuar vivendo. Frances sofre de dor de cotovelo e de indecisão, os ingredientes perfeitos de um “amor moderno”. O Moderno também é uma definição paradoxal. Ele é e não é. O que é moderno? O que deixou de ser moderno? Talvez o moderno seja a repetição da odisseia narrativa que baseia a ideia do homem ocidental moderno.
Frances Ha questiona o que é ser uma pessoa em tempos modernos, o que é ser moderno, o que é ser. De novo uma montagem em miríade, em loop, girando, girando, girando. Circular como os giros e as peripécias de Frances. As possibilidades paradoxais em uma montagem de não palavras sobre o que é ser moderno em tempos modernos que não são palavras.
Uma possibilidade? Penso na história mais antiga de todas: voltar pra casa. Mas o que é voltar pra casa quando não se sabe o que é sua casa? Na montagem do filme os atos se dão entre os seus muitos endereços. Frances não tem casa. Ela é um Ulisses revigorado por seu eterno vício em rodopiar em torno de uma casa que não é sua. O ser moderno em questão de novo. A questão em loop. Girando.
Girando?
Como o plot:
Frances é bailarina. Frances ama sua amiga Sophie. Frances não tem uma casa. Frances não tem palavras. Na odisseia, Ulisses foi ninguém até que ele pode ser o rei de Ítaca de novo. Como Odisseu, Frances enfrentará desafios e desvios (o casamento de Sophie, Paris de supetão, o retorno de saturno).  Nessa possibilidade que escolhi para as minhas não palavras sobre o filme, essa história é sobre a viagem de Frances pra sua casa. No fim, Frances só pode ser Ha assim que encontrar sua casa.  São os rodopios de Frances.  É seu “amor moderno”. 


Alguns textos bacanas sobre o filme:

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Bom é Ser Feliz com Tineijão!

Olá, hoje preparei um resumo especial da melhor banda linda, o Teenage Fanclub, por que vcs sabem que bom é ser feliz com Tineijão:


Três cantores. 
Curiosamente três tenores. 
Só o Norman é barrigudo, que nem o Pavarotti , que é o mais conhecido dos tenores, assim como o Norman que é o mais conhecido dos Tineiji.



   Não é o músico americano

                                                                      Geral do Amor












                                                                                                                          Respeite os meus cabelos brancos

Teenage Fanclub: Glasgow, 1989. 

Norman Blake (guitarra, voz, cabelos ruivos do mal); 

Gerard Love (baixo, vocais, cientista de foguete); 

Raymond McGinley (guitarra solo, voz, existencialismo fofinho).

Os Bateristas: 

Brendan O’Hare (ex-batera, poser, brinquinho do mal, tem lebre no nome):









Brendan O' Lebre

Paul Quinn (desconhecido):











Desconhecido

Frances McDonald (batera, habilidade de ter tocado em todas as bandas da Escócia, herdeiro do McDonald’s)








Doh.

Outros integrantes: 
Um tecladista de turnê que eu não sei o nome e que provavelmente não tem um nome anyway porque tecladistas são maricas.
David McGowan na verdade...

Fun facts: 

Kurt Cobain disse que era a melhor banda do mundo, item 8: http://www.clashmusic.com/feature/teenage-fanclub-bandwagonesque










                                                                                          Queria seu cabelo Norman...

Liam Gallagher disse que era a (segunda) melhor banda do mundo; 













E tenho dito...

(é a única coisa que ele concorda com o Blur:)

Discos: 

Educação Católica. (1989)

O Rei. (1991) 

Bandavagonesca. (1991)


Treze. (1993)


Grande Prêmio. (1995)


Canções da Britânia do Norte. (1997)


Qualé. (2000)

Palavras de Sabedoria e Esperança. (2002)

Homem Fez. (2005)

Sombras (2010)


Peculiaridades:

Bandwagonesque/Thirteen(1991/1993): Norman ruivo grunge cabeludo









Grand Prix(1995): Norman ruivo cabeludo do mal

SFNB(1997): Norman ruivo cabeludo tiozinho









Howdy!(2000) em diante: Norman ruivo tiozinho barrigudo.

(escoceses envelhecem rápido)

Se bem que o Gerrard sempre foi meio tiozão de olho azul. 





Se bem que o Raymond sempre foi meio tiozão (vide all my life I’ve been so uptight)










O Raymond que é um late bloomer (seu disco é o Howdy!) é sem dúvida o mais tiozão.

(Aliás, ouvir o Raymond cantar I know where I belong na canção Can't find my way home é paradoxalmente belo)

(de novo: escoceses envelhecem depressa. deve ser o uísque)

Norman: canções em sol maior; uh neném, neném, eu sou cabeludão, neném.





Gerard: canções em fá sustenido menor; neném, vamos voar, voar, subir, subir, bem alto no espaço entre as estrelas na velocidade da luz.





Raymond: canções em lá maior, sol maior e dó maior; o que eu sou, eu sou; o que eu fiz, eu fiz.


Your Love is the Place Where I Come From: http://www.youtube.com/watch?v=5Qhd6sTMVto



Resumo: 
Teenage Fanclub é o pagode escocês mais lindo do mundo. OUÇÃO!

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Conta-Gotas.



Quando Juliana resolveu ir embora gotas de chuva brilhavam num efeito estroboscópio. Assemelhavam-se às passadas confusas dos transeuntes que por sua vez reafirmavam suas pernas em movimento duro e resistente cortando o ar úmido do fim de tarde. A garoa era esperada, mas mesmo assim ninguém havia se lembrado de usar um guarda-chuva, muito menos ela. O chiar monótono dos pneus no asfalto molhado servia de consolo para ela que observava os passantes, bolhas solitárias na chuva indecisa. O céu de São Paulo prometia mais indecisão.
Assoviou uma canção sobre não estar apaixonada. Sentiu-se melhor com o ar frio que subia a Rua Augusta. Quis um cigarro, mas lembrou-se que não sabia se fumava ou não. Não tinha nenhum na bolsa. A chuva apertou por meio minuto, mas abrandou de novo assim que ela sentiu uma mecha de seu cabelo grudar no lado esquerdo de seu rosto.
Ainda era feriado para algumas pessoas.
Juliana tinha vinte e cinco anos e era formada em cinema pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Tinha dois gatos (pelo menos até vinte minutos atrás) um chamado Bóris e outro Vladmir. Nada de Vlad, Vladmir mesmo, sem apelidos. Secretamente tinha medo de fantasmas.
Naquela tarde ela viu dois filmes: um francês muito ruim e o novo do Woody Allen. Já havia esquecido o título dois dois logo que a sessão do segundo acabou. Depois de duas cervejas no BH resolveu voltar para a casa. Ainda chovia sem chover de verdade.
Rafael tinha pedido pizza e passado o dia assistindo às versões estendidas da trilogia do Senhor dos Aneis. Quando fechou a porta atrás de si, Juliana viu o namorado sair do banheiro apressado. Fingiu não perceber que ele se masturbava e deu um oi mastigado por uma calma fingida, mesmo que sincera. Ele comentou que tinha pizza de calabresa. Ela aquiesceu se perguntando por que realmente não tinha ido embora. Contou a ele a trama do filme do Woody Allen que Rafael ouviu com uma desatenção previsível. Tirou a roupa e deixou que ele imaginasse que ela sentia falta dele mesmo.
Nua na sala comeu um pedaço de pizza de calabresa sem se importar com o vizinho do apartamento da frente que fingia não espiar pela cortina. Rafael ainda escorria de dentro dela e roncava no quarto ao som da trilha étnica do filme que ainda tocava no DVD. Juliana tinha cinco tatuagens: Um kanji que fez quando tinha 16 anos que podia significar qualquer coisa e que ela sabia que tinha que cobrir. Uma âncora no braço esquerdo logo acima de uma citação de Hamlet (the rest is silence) circulando logo acima de seu cotovelo. No braço direito a Morte de Neil Gaiman e no seio esquerdo as palavras da canção que cantarolava entre mastigadas: We are not in love...
Os gatos dormiam sem saber de nada. Juliana comia em trancos, assim como falava com as pessoas. Rafael dormia sem saber de nada, do mesmo jeito. Ela tinha o disco do Crystal Castles que combinava com a chuva, mas não ia colocar agora.
A chuva ainda brilhava no seu corpo raspando o suor que ainda restava encalacrado nos seus poros. Não deveria lavar o cabelo, mas mesmo assim o fez. Pensou no filme em que estava trabalhando como estagiária. Ela não acreditava naquilo tudo. Pensou em seus roteiros guardados em algum lugar na casa dos pais. Também não acreditava naquilo tudo. Juliana tentava imitar Robert Smith no chuveiro. A voz saía fanha demais, pois nunca tinha conseguido enrouquecer a voz aguda e vacilante, mesmo depois dos dois anos de fumante obsessiva. Talvez não devesse ter largado. Um cigarro agora seria perfeito. Um cigarro e uma cagada. Rafael ficaria puto se a visse empesteando o banheiro. Nerd filha da puta.
As gotas caíam dos seus olhos como as da chuva indecisa que ainda punia São Paulo por ser São Paulo. Juliana não sabia disso, pois não conseguia ouvir a rua por causa da água do chuveiro que ainda caia mesmo que ela não se decidisse em levantar da privada para se limpar e terminar o banho. Já tinha encharcado todo o chão do banheiro e ele fedia a ela mesma ressentida e ressabiada por tudo que queria exatamente naquele momento. Juliana se sentia molhada, mais molhada do que nunca. Como conseguia discernir isso no meio de toda aquela água era o que a fazia cantar a canção mais uma vez. Retornou ao banho e se masturbou, pois não acordaria o namorado para trepar mais uma vez. As gotas caíam de sua vagina como se fossem fantasmas da água encanada, aquecida em resistência inútil. Ela usou só um dedo, o indicador. 

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O Longo Adeus Da Greve de Fome (uma reflexão sobre o final de Breaking Bad)




E no fim Walt venceu. Num plottwist tight, tight, tight, como diria Tuco Salamanca, Breaking Bad encerrou seus trabalhos num final ironicamente feliz. Se invertermos as polaridades negativas temos enfim que:
Flynn ficou rico
Gretchen e Elliott vão ser filantropos contra um nemesis, o que ajuda bastante nos negócios, devemos dizer.
Saul ganhou um spinoff.
Badger e Skinny Pete, um finale.
Marie conseguiu virar a chefa de família que sempre quis
Skyler ganhou na “loteria”
Hank ganhou uma medalha de herói. (presumindo que após encontrado, seu corpo será tratado como um pelo protocolo não?)
Jesse ganhou sua liberdade (num teaser de Need for Speed, filme em que o ator Aaron Paul estrelará(veja o trailer abaixo)?)
Walt se reuniu com o amor da sua vida.
Sim, o baby blue, como sugere a bela canção do subestimado Badfinger ironicamente fechando a série. Não tem muito mais o que dizer sobre Breaking Bad além de que a série provou não ser sobre redenção, punição ou absolvição. A série é sobre a obra-prima de um homem genial. Ironicamente azul como o céu, essa obra-prima encontra acidentes de percurso, como a sua família, seu emprego frustrante, sua capacidade negligenciada, seu orgulho ferido. Acidentes que apenas fazem acelerar o ritmo do trem de carga poderoso que é Walter White rumo ao beijo final.
O reencontro com a metanfetamina era tudo que Walt queria, ele pagou seus deveres:
Flynn e Holly vão ter um futuro,
Marie vai enterrar seu marido,
Skyler tem seu bilhete de loteria para fora da prisão
Jesse tem a sua liberdade até onde a sua capacidade puder leva-lo.
Walter White é Heisenber quando precisa ser, ele não é atormentado por um fantasma maléfico. Ele é e também é Walter White. Obviamente ele ama sua família, mas ela não devia ser sua família. Ela não devia existir. Ele devia ser grande, ele sabia que podia ser grande. Ele não foi. A Grey Matter virou sua maior frustração. Nada mais natural que ela seja a catalisadora de sua obra.
No fim, o que restou foi o seu amor, o último adeus. Não confundam com o amor com próprio ego. Vai além. É o amor ao método, à possibilidade. Ele pode fazer o céu azul e o fez. Isso basta. É triste que ele tenha arrastado todo mundo para o poço sem fundo com isso, mas ainda o fez.
Walter White talvez vivesse se escapasse do confronto final a la Western dos bons (ironicamente o final showdown entre ele e Jesse é mais simbólico e talvez a única porrada moral que Heisenberg leva durante o finale inteiro).  Ele talvez vivesse, mas possivelmente não o suficiente pra ver seu filho tomar para si seu legado em dinheiro.
Não importa. Walt venceu, ele reuniu-se ao significado de sua vida. Sua baby blue.
Há uma canção de Aimee Mann que fala sobre ter um amor que consegue te salvar da fileira dos malucos que não conseguem amar ninguém além dos malucos que não conseguem amar ninguém.
O longo adeus da greve de fome:














Links:

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Um Monte de Angústia (Por que o The National é quem tem algo a dizer, mesmo que não diga. Mesmo que eu diga por eles através das suas canções*1)



“A angústia me encontrou quando era jovem”. A canção Sorrow está logo ali no começo disco High Violet com este verso singelo. Essa é a canção que recentemente a banda americana (American Mary por opção vide *2) recitou durante 6 horas ininterruptas como forma de arte ao lado da obra do artista islandês Ragnar Kjartansson *3 cujo nome já diz tudo em poucas palavras.
A Lot of Sorrow. Um Monte de Angústia.
The National tem este poder aglutinador. Escutei a banda depois de eles terem vindo ao Brasil. Nunca liguei muito para bandas dos 00 que estavam mais preocupadas em serem cool do que fazer música. Mas acho que estava “numa reunião secreta no porão do meu cérebro.”, pois precisei de uma audição menos crédula (é verdade, deixar de acreditar nas coisas às vezes é muito bom) para entender que estamos “meio acordados num império de mentira”. Somos sempre “confundidos como estranhos por nossos desamigos” mesmo que você diga que “não vai foder tudo” que você é o “senhor novembro”. E eu como escorpiano convicto escutei e entendi da “forma mais boba e malvada”.

“Adormeça com as mulheres de outros homens
as esposas selvagens de homens desconhecidos
ponto pra você, você se tornou
apenas mais um deles”

Numa canção do novo disco “Trouble will find me” Matt Berninger entoa “Se ficar aqui, a encrenca vai me encontrar.”, ironicamente numa canção chamada “The Sea of Love.” Parece corroborar o que diz em Conversation 16: “Eu temia que iria comer seus miolos/Pois sou mau.”.
“O que é que te faz pensar que eu estou gostando de ser arrastado pra enchente?”



*1 As canções citadas em todas as aspas deste post são respectivamente:
Sorrow, faixa 2 do disco High Violet.
Secret Meeting, faixa 1 do disco Alligator.
Fake Empire, faixa 1 do disco Boxer.
Mistaken for Stranger, faixa 2 do disco Boxer.
Mr. November, faixa 13 do disco Alligator.
Mr. November, pra completar.
Secret Meeting, de novo.
Cardinal Song, faixa 1 do disco Sad Songs For Dirty Lovers.
Sea of Love, faixa 5 do disco Trouble Will Find Me.
Conversation 16, faixa 9 do disco High Violet.
Runaway, faixa 8 do disco High Violet.

*2 American Mary é o nome do site da banda, o que me dá muitas ideias. www.americanmary.com

*3 A imagem que ilustra esse post é de Ragnar, como é mais conhecido o artista islandês.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Ítaca.



Acho que Neto era um ano ou dois mais velho do que eu. Eu o conheci meio que por acidente, por amigas em comum, uma em especial, a Priscila, que se tornou sua esposa anos mais tarde.
Eles não namoravam no colegial, mas em retrospecto não me surpreendo que tenham acabado juntos. Do nosso grupo éramos quatro: eu, Neto, Priscila e Vanessa, com quem perdi contato depois daquele ano. Ocasionalmente, a Mônica, irmã gêmea da Priscila se reunia conosco. Elas nasceram no mesmo dia, mas não tinham nada a ver uma com a outra. Priscila era objetiva, talvez por ser mais bela que a irmão, nunca se deu a arroubos românticos. Mônica era o oposto: romântica e idealista, era sensível e se fechava no seu próprio mundo com o qual tive apenas vislumbres
Eu conheci primeiro a Mônica que namorou um outro amigo, mais antigo, de outras escolas e outros sonhos. Através dela conheci sua irmã e ainda outro irmão que sonhava em ter uma banda (e na época tinha!) como o Nirvana. Rafael tocava guitarra e compunha musicas esquisitas às vezes num inglês canhestro, às vezes num português estranho. Sua banda, que chamarei de Ancurism (uma corruptela da canção Aneurism inspirada por um erro de impressão de um CD bootleg barato que eu tinha comprado só por que era do Nirvana) por que era o nome da banda que eu queria ter naqueles sonhos, fazia apresentações esquisitas em escolas e chamava mendigos e um deficiente mental para subir ao palco e fazer de conta. Era bonito, eu acho. A gente era jovem.
Em 1999 a vida era simples e complicada ao mesmo tempo. Doía viver, e viver era bom. Eu era um garoto tímido e como era de se esperar me apaixonei à primeira vista por Priscila. A paixão não durou muito, sequer acho que ela percebeu algo, mas a personalidade dela sempre me marcou por alguma razão.
Durante um ano, o ano em que esse amigo namorou sua irmã, a gente se viu bastante e eu sempre imaginava as muitas formas como eu poderia conquistá-la sem nunca ter coragem mesmo. Depois passaram dois anos sem que a gente se visse direito até que eu acabei indo estudar na mesma classe em 2002.
A gente passou o terceiro ano do colegial inteiro conversando no fundo da sala, indiferentes aos conteúdos de revisão e ao famigerado vestibular. Não sei a ordem, mas acho que nós três acabamos fazendo faculdades, mas nenhum de nós logo depois do colégio. Eu passei na USP cinco anos depois, depois de uma carreira musical frustrada e uma depressão apática. Neto e Priscila não sei muito bem que fizeram, se é que fizeram mesmo, mas eu soube que no fim das contas eles acabaram juntos.

A Priscila me emprestou um CD ao vivo do Pearl Jam que nunca devolvi. O Neto uma fotocópia do Caibaleon que nunca li. O CD do Pearl Jam se perdeu nos anos, o xerox do Caibaleon ainda existe, guardado entre as muitas coisas que não jogo fora por alguma razão que não sei explicar. Talvez seja pena, ou relutância em morrer. Às vezes que essas pequenas coisas que eu guardei toda a minha vida, pelas mudanças de profissão, de casa, de sonhos e de amores, são como pequenos caminhos de volta para casa. Que casa? Não sei dizer, mas casa é um bom nome para estas pequenas relíquias.
Elas são canhotos de ingressos de shows de dez anos atrás, folhas de partituras com duas ou três linhas rabiscadas, pedaços de fotografias de minha infância, caderno com livros que não escrevi, marcadores de livros, celulares antigos, capas de Cds sem Cds, a falta que o Live on Two Legs da Priscila me faz e a presença fantasmagórica do Caibaleon, sem a pasta preta que o guardava orignialmente, mas com as mesmas figuras e na mesma ordem intocada que o Neto me passou. Lembranças e outras peças mais da desorganização poética que é a minha vida. Eles estão lá como um museu das minhas impossibilidades.
Não sei por quê eu guardo estes personagens de uma história que já não é mais a minha entre os meus suvenires. Talvez eles façam parte de um idílio do qual sinto um bucolismo inexplicável. Era mais fácil ser jovem e não ter que ser tão frio. Era mais fácil se esconder atrás de um violão desafinado e uma garrafa de vinho ruim. Era mais fácil ter livros herméticos como manual de vidas nunca lidos, ou bandas tão distantes de nós que se tornavam deuses por osmose épica.

Era uma distância boa, segura. Era como estar em casa.
Mas também era geográfico. Nós tínhamos a escola e o nosso canto no fundo esquerdo para nos proteger. Sem falar nas brechas do sistema educacional público. A gente estava entediado e não. Sabíamos tudo que os professores diziam e se não soubéssemos, não nos importávamos o suficiente para achar que aquilo mudaria as nossas vidas. Tínhamos o nosso cantinho e dali a gente produzia ideias.
Era geográfico por que, numa cidade satélite de São Paulo como Osasco, tudo girava em torno de um centro físico. A internet era o futuro e as pequenas lojas de CD e a praça que os roqueiros da cidade apelidaram carinhosamente de Praça da Led, por causa do bar de mesmo nome que fornecia o combustível da felicidade adolescente, eram o centro do universo para todo mundo. Era simples, pertencente e palpável. Ninguém questionava essa geografia. Os cachorros quentes na praça do shopping e os filmes ruins que passavam nas três salas de cinema disponíveis eram o paraíso. Poder ouvir um CD numa loja na Galeria do Rock a sete estações de trem dali era a maior aventura que poderíamos ter. Uma linha reta. As digressões eram no máximo um show punk em Carapicuíba ou shows gratuitos no centro de São Paulo.
Era como sempre estar em casa.

Com Neto descobri o Joy Division e Neil Gaiman. Com ele pude ver pela primeira vez em carne e osso os muitos Zaratustras que povoariam a minha educação sentimental. Neto talvez tenha sido o primeiro herói romântico da minha vida e sua postura era niilista. Depois dele houve outros, não menos importantes, talvez até mais, mas muito menos marcantes.
Ele era um ou dois anos mais velhos que eu, do que presume-se que ele havia repetido um ano ou dois e por alguma razão, apesar da minha personalidade caxias comportada, aquilo aumentava o meu respeito por ele. Além do mais ele já era maior de idade e isso fazia alguma diferença naquela época.
É tempo de dizer que Neto não se chamava Neto naquela época. Nós os chamávamos de Fozzy, como o personagem dos Muppets, um apelido que nunca conseguimos explicação e que veio herdado de alguma babaquice colegial de seu passado. No entanto, o primeiro nome de Neto era Ulisses, um nome diferente para os parâmetros de todos. Na época eu não entendia a força desse nome, mas hoje imagino o poder das três gerações de Ulisses que deram gênese ao Neto, meu amigo. Me pergunto quantos dos três casais de pais que nomearam avô, pai e neto com o nome do herói grego, de fato leram a Odisseia. Me pergunto o por quê de escolherem nome tão magnânimo para seus filhos, se sabiam da força desse nome.
Acredito que não, mas isso são conjecturas. Mais fácil é voltar para casa.
Neto não gostava de ser chamado de Ulisses, muito menos de Fozzy, por razões óbvias, o que nos fez a nós, seus amigos mais próximos, chamá-lo sempre de Neto. Definitivamente ele não gostava de ser chamado de Ulisses, o que é compreensível dado à estranheza que tal nome devia causar nos colegas adolescente, mas acho que as razões de Neto eram bem mais profundas que meras zombarias de puberdade. Hoje em dia acredito que ele não se importe tanto. Posso ver pelas redes sociais que ele não esconde o nome de batismo, mesmo que não fale com ele o suficiente para saber da sua opinião. Sei que ele nem se lembra que o chamávamos de Fozzy para irritá-lo. Não se lembra ou não quer lembrar.
De qualquer forma, não importa.

Há alguns meses falei com Priscila de novo. Ela me garantiu que Neto está bem e me cobrou o CD do Pearl Jam que eu prometi comprar outro quando nos víssemos. Do livro do marido nem se lembrou. Não acredito que de fato ela queira tanto este CD de volta. Talvez eu sinta mais falta desse pedaço do meu passado que ela do seu disco perdido.
Tenho 27 anos, o que quer dizer que Neto, ou Fozzy, ou Ulisses tem 28 ou 29 e provavelmente já passou dessa fase de se lembrar de um passado que dói ao mesmo tempo que quer se fazer melhor que hoje. Crescer não é fácil e guardar as coisas que me lembram dessa época é mais ou menso como ser o Ulisses que eu sonhei ser. Que foi o profeta, o professor, o amante e o dândi que eu não fui. Nos meus projetos falhados não quebro meus espelhos ao observar minha feiura como Kurt Cobain ensina em Lithium.
Por falar em Kurt ele se matou com 27 anos. É geográfico e me mete medo.

Por esses dias combinei uma cerveja em Osasco com a Priscila e outros amigos. Não moro em Osasco há alguns anos já. Voltei para São Paulo há cinco, e vim para o centro há alguns meses. Naturalmente não fui ao encontro. A cidade de Osasco não é longe nem do centro de São Paulo, mas como ela me parece bem mais distante do que quando atravessávamos em busca de música há dez anos atrás.
A Priscila ainda me cobra o CD do Pearl Jam, o Live on Two Legs. Vivo e com Duas Pernas, mas eu tenho medo de voltar para casa.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

O Que Resta.



Os prédios adormecidos e as vidas saturninas. Em 2002 ouvi perdida num disco que não tinha muita importância ninguém a banda holandesa chamada The Gathering. É sempre o nome que lhe atrai. Sempre a palavra de entrada. A senha.
Os sinais que me fizeram do avesso quando ouvi Saturnine foram óbvios:
Guitarras que preenchem sem serem tétricas
Voz que modula entre a morte e a vida.
Algo sobre o modus operandi de alguém que não tem nada.
Saturnine então era a mais perfeita essência para quem não sabe aonde ir. É astrologia. É o tempo que passa. É a coincidência enorme de estar naquele lugar certo na hora certa. Ou errada.
Os prédios adormeceram. A astrologia já confirmava os padrões que levariam ao clímax e ao fim catártico mais uma vez. Nessa narrativa, a banda crescia para mim. Sua música elevava certos significados. No fundo acredito que eles buscavam a não significação. Esse lugar etéreo onde tudo é mais cor e suspiro do que razão.
Os discos do The Gathering entre 1998 e 2004 são pequenas peças de como não ser. Tudo o que você pensa é que inseridos num contexto musical específico (o heavy metal de onde partiram em discos anteriores), com a idealização de uma outra direção (o rock alternativo?), The Gathering produziu uma massa sonora que buscava aquele vazio entre o que há e o que deixa de ser.
Começa em How to Measure a Planet? A não questão impossível. Como medir um planeta? Talvez no foguete lançado em Liberty Bell, ou no torpor filosófico de Big Sleep. Afinal tudo é eletricidade e reflete em nós como a natureza de My Electricity.
A resposta não vem e Se/Então/Mais se produz no disco que continha a estética Saturnina que me conquistou. If/Then/Else não tenta ser trip hop, não tenta ser rock alternativo, não tenta ser metal. E por não tentar produz o que o título sugere. Se. Então. Mais.
É terrivelmente assustador quando a cauda do nosso foguete entra em super combustão. O ao vivo Superheat resume um pouco do que foi Gathering até ali. O passado e futuro movimentados em velocidade superior à da tessitura cronológica.
Por fim se canta aos prédios adormecidos. Em Sleepy Buildings a viagem parece adormecer no seu clímax. Um disco semi-acústico, singelo e quase esquecido. Como diz uma canção do passado presente nesta noite de rochas que roncam e paredes que respiram alto. Sempre sozinho...

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Oh os Sapos que Caem do Céu.




Acredito ter assistido Magnólia pela primeira vez em 2000, um pouquinho antes de o mundo acabar. Desde então devo ter ouvido Aimee cantar que “não vai parar até eu tomar juízo” algumas vezes. Muitas delas numa versão travestida tarde da noite onde ninguém se importa se sapos caem do céu.
Mas o que o garoto Daniel ouviu naquelas madrugadas abandonadas não difere muito do que o garoto Daniel ouviu na madrugada abandonada pós-apocalíptica de hoje. Não tomei juízo até hoje e alguma explicação deve existir. Assistir Magnólia em vias do retorno de Saturno pode ser uma experiência interessante, mas o que mais me tocou foi a incrível paz que me tomou desta vez.
Sempre tive o terceiro filme de Paul Thomas Anderson como um dos filmes mais tensos que eu já assistira. Eram quase três horas até o momento de ruptura do nervo liberando o sangue e aliviando a tensão quando sapos misteriosamente caiam do céu, acrobáticos e curativos.
As feridas fechavam. A catarse rebobinava toda a falta de juízo que ainda eu haveria de manter.
Mas realmente acontecia.
Desta vez nada mudou, mas fez toda a diferença. Talvez seja o fato de que o último filme de P.T.A., O Mestre, tenha para mim resignificado toda a sua obra. Será que a figura anárquica de Freddie Quells, como os sapos da coincidência magnífica, ao errar pelo mundo já ressonou no jovem Paul Thomas de 1999?
Possivelmente. Mas é mais provável que o Freddie Quells que havia no garoto Daniel de 2000 dormitasse ainda fraco demais pra lutar contra o peso do dia, despertando assim em 2013, depois do fim do mundo como se quisesse cantar que o paradoxo de Aimee é que não vai parar mesmo, então apenas desista.
Em O Mestre, a bela cena final resume tudo o que P.T.A. tem tentado nos dizer sobre o amor. E sobre estar contra a luz de um mundo que de sombras só precisa daquelas que lhe fazem a fotografia.
Oh os sapos que caem do céu.