quarta-feira, 27 de março de 2013

Metrô


Quando algum engenheiro projetou, ainda na existência larval da vida, uma passagem tubular entre uma existência e outra ele não imaginaria que as pessoas se amontoariam e chamariam sua criação de metrô pelo puro hedonismo do soar chique francófilo da palavra. Não é bem assim, mas esse criador de um universo paralelo, underground, que transporta a sua vida para outra vida, uma mais desnecessária e sudorípara, mesmo prevendo a transação de corpos, a transmissão de tédio, a desintegração de vidas, esse engenheiro não poderia prever que as equações não dariam conta, mesmo com todas as ferragens tubulares, as artimanhas cilíndricas. Toda uma existência baseada no fato do mundo ser muito grande para se dar conta. Mesmo assim ninguém previu que no momento em que as pessoas habitassem esse universo paralelo seus passos desarmônicos estariam pensos um para o lado, um para o outro e todos se trombariam infinitamente numa luta eterna para não ocupar espaço. Por que a vida é muito grande para se dar conta e o corpo é pedestre e larval demais para existir. Nesse maremoto de passos infinitos em direção ao tédio onde ninguém se encontra, não há escapatória e eu entre uma existência e outra, ainda larval, pois não tenho juízo, ouço o livro sobre a fragmentação do universo enquanto leio a canção sobre ser salvo do pelotão dos esquisitos que supostamente não amam ninguém.