sábado, 22 de março de 2014

Árvore



   Julio tem caráter Quixotesco. Emília tem ares de Anna Karennina. Ambos querem ser Emma Bovary. O narrador diz que o que importa é a história deles dois, não o resto. Só que Julio continua, Emilia não. Mas é claro que ele nos engana. Ele diz: “Julio continua”. Mas o livro tem que acabar, e a história não é tão longa, quiçá é até banal. Mas o que continua de Julio é o que ele produziu em sua insanidade causada por uma leitura seletiva de Marcel Proust com Emilia. Um bonsai que é talvez a não árvore mais quixotesca da literatura.
   Esse é o cenário de Bonsai do chileno Alejandro Zambra que é tido como uma das vozes mais interessantes da literatura latino-americana hoje em dia. A prosa dessa novelinha enganosamente despretensiosa vem provar isso em nível de maestria.
   Bonsai é sobre literatura, ou melhor, sobre a literatura escancarada que retorna a si mesmo como produção dialética que justifica sua existência. Dito isso, Bonsai é sobre nada. Uma história breve sobre duas pessoas que leem demais, colidem de menos e enquanto uma resolve terminar a outra continua.
   Bonsai então é uma história de amor. Julio e Emilia se amaram de verdade se você quiser. Isso também é uma opção. O certo mesmo é que eles amaram ler Proust & Cia. juntos. O descaso não tão despreocupado assim com os personagens secundários que fazem contraste com a linha narrativa principal só faz enfatizar o quão perigoso é amar. Ou amar ler.
   Bonsai, portanto, é a história mais antiga da prosa romanesca de língua espanhola: Dom Quixote que tem vocação pra ser tanto Emilia quanto Julio, mas que é forçado a ser Julio, por que, como foi dito, Emilia se dá ares de Anna Karenina.
   Já mencionei que a história inteira nos é dita desde o primeiro parágrafo? Zambra conta logo de cara que Julio continua, e no final Emilia morre. Ora, de que vale a história então? Vale por si mesma. Temos nós mesmo que ser Julio e Emilia lendo sobre Julio e Emilia que leem sobre Julio e Emilia. Assim como foi a literatura desde Quixote.
   Nesse sentido Zambra é não novo, mas original, por que se quer consciente dum ciclo que nunca para. Bonsai então é sobre a consciência tópica da literatura. Mas mais que isso. Bonsai é sobre a epifania que a arte geralmente tenta produzir da banalidade fugaz de um momento.
   Isso faz a gente pensar em Proust que falou sobre a rememoração como artificialidade sem deixar de pensar no Cervantes que séculos antes dissera que essa artificialidade te deixa louco como seu Quixote. Cervantes que, séculos mais tarde, foi revivido por Flaubert em Bovary, onde o autor que também não novo, mas original “inventou” a palavra justa que algumas décadas mais tarde o jovem Joyce aperfeiçoou, no rastro do seu projeto literário que utilizava o termo justo “epifanias”, ao ponto da superação da prosa em níveis astronômicos.
  Bonsai então é a imagem dada por Zambra da construção em epifania de um Julio quixotesco, inconsciente do fim de tudo, rememorando numa arte abstrata a impossibilidade de trazer uma Emília (Bovary, ou Karennina quem sabe...) de volta. A árvore, que não é árvore, mas sim um construto de uma árvore é igual a arte que não é vida, mas sim uma representação desta.
 O trunfo de Zambra é a compreensão de que a literatura pós-Joyce é a literatura da hiperconsciência da própria literatura e sua novela traduz isso de forma original e única por que, em si, Bonsai é, em sua estrutura de novela, curta e catártica (ver vida moderna frenética), uma epifania por encorporar em seu tempo a consciência do que já foi e renová-lo no que já é.
  Quanto ao tamanho da novela, é quase como se Zambra rememorasse Poe – que foi um dos primeiros a pensar a prosa influenciando Baudelaire que o traduziu para o francês, e assim, por sua vez, influenciando toda gama de autores que viriam, inclusive os acima citados – que pregava que a história curta é que produzia o melhor efeito no leitor, pois, a catarse das histórias lidas em uma sentada é muito mais efetiva do que a história interrompida na leitura de uma prosa alongada sem necessidade.
   Sem contar que Bonsai é uma bela história de amor.




sexta-feira, 21 de março de 2014

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As barreiras no romance de Amilcar Bettega são as impostas pelo autor em forma de complexos quebra-cabeças narrativos que buscam enfatizar a solidão de seus personagens. O autor gaúcho parece levar a sério (se sério para nós se confunde com ironia calculada) o nome do projeto que seu romance faz parte. Amor expresso por si só já é um paradoxo se pensarmos que a expressão já transforma o amor em outra coisa: palavras.
Palavras. Palavras ou barreiras.
No romance, um turco radicado no Brasil finalmente volta ao seu país de origem (d’onde saiu muito jovem fugido de uma tragédia pessoal e universal – o incêndio de um mercado, longamente relatado pela obra de um artista enigmático, Ahmet, que rodeia o romance inteiro – que a barreira da memória o alienou). Ele, tão gaúcho quanto turco, sai em busca de sua filha desaparecida. Sua narrativa é pessoal e em primeira pessoa, mas é como se não lhe pertencesse. Aos poucos o narrador se distancia do personagem como se uma barreira se impusesse para mostrar o fim desta história. O pai busca em vão por Istambul pela filha sem perceber que no fundo busca por si mesmo.
Fátima, a filha, busca o passado (que não é, mas também é) seu por tabela (barreira), no país de origem do pai. Sua narrativa faz parte da segunda parte do romance e complementa a de seu progenitor, porém é como se fossem fantasmas da história inacabada da primeira parte. Apenas possibilidades, barreiras. Bettega constrói uma narrativa de deja vus, oferecendo, em processo contínuo, milhões de possibilidades narrativas da última noite de Fátima. Como Fátima é fotografa, a narrativa parece se confundir com a repetição do processo de captura do movimento em vários ângulos. O que chamo de deja vus são ensaios sobre as possibilidades de suas últimas horas.
A terceira e última parte é narrada por Robert, um francês que cruza o caminho de Fátima por acaso e está com ela na noite em que ela desaparece. Sua narrativa é construída em forma de espelho com a do pai de Fátima (numa espécie de duelo entre os dois, desiludidos e perdidos em Istambul).
Robert poderia, numa hipótese ousada, ser o narrador de todas as partes do romance. Ele não se envergonha de se colocar em terceira ou primeira pessoa quando necessário. Desse ponto de vista, a narrativa de Robert parece dar a voz ao autor, como se reivindicasse para si a onisciência falseada pelo truque da narrativa. O que é bem plausível quando em certo momento do romance um personagem convenientemente chamado Amilcar interrompe um diálogo (melo) dramático de Robert com a mãe de seu filho morto pelo telefone, deixando a parábola da infância do filho sem fim, ao menos para nós.
E esta técnica continua. Robert deliberadamente esconde coisas de nós sutilmente durante o resto do romance como se quisesse nos mostrar que na busca frenética dos personagens para expressar suas identidades, seus passados e suas vidas, as barreiras existem e existirão em camadas cada vez mais distantes.
Os encontros e desencontros dos personagens secundários com os diversos protagonistas de Barreira se encaixam nessa terceira parte e denotam, com certa ironia, seu caráter de coincidência fortuita, de narratividade farsesca. A barreira então é a metáfora para a impossibilidade narrativa. Nada é muito dito, muito é sugerido, assim como nas fotografias e filmes dos artistas perigosos (Ahment, Fátima, Daniel o filho morto de Robert) que aparecem na história e nas milhões de possibilidades geradas pela polimorfia narrativa de Bettega. Desta forma, o romance em si se torna, como esforço de relato, de narrativa e caminho poético, uma imagem de barreira e de valor ao ser lido. A experiência desta leitura truncada, investigativa e infrutífera é o terreno aberto do romance. A barreira é a representação da possibilidade.
Nesse contexto, a arte se traduz na forma que representa o conteúdo de forma excitante e brilhante. A violência de um mundo que cada vez não se entende, pois relembra o tempo perdido Proust onde os mecanismos impostos (e daí não se inclui só a literatura em si, mas o que ela narra) se intensifica na memória da memória da memória (ou nas fotografias do incêndio, dos suicídios, do passado inatingível). Então, Barreira é, em minha opinião, um dos grandes romances escritos ultimamente na literatura brasileira. Com cuidado flaubertiano, Amilcar Bettega escreveu um livro que não tem medo de ser literatura.



Link:
Barreira - Companhia das Letras - 2013
Livro físico: R$ 39,00
E-Book: R$ 27,50